VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA E PEDIÁTRICA

October 13, 2016

 

A mulher quer um parto natural hospitalar. É assistida por uma médica que se diz humanizada e que trabalha com uma obstetriz (supostamente humanizada). A parturiente tem um trabalho de parto intenso, com muita dedicação, coragem, fé e amor. Marido e doula em sintonia. União dos três, conectados na mesma direção...


Mas a médica tem outros planos... A espertinha! E seus planos ganham a jogada, afinal ela é A Médica. Trabalho de parto, diz ela, não se faz em banheira "porque isso daqui não é spa", e ela também tem certeza que "você tem que me escutar porque Eu Sou Sua Médica!". Perturba que perturba, a Doutora consegue o que quer. Cesárea. Enquanto isso, chega a pediatra irritada por "mais um parto vaginal" (e acrescentem aqui as xingações que ela omitiu de falar em voz alta). Aproveita da oportunidade e... se vinga sobre o bebê pelo que considera uma absurda escolha da mãe e contra a qual ela, pediatra, tem algum tipo de tabu mais forte do que uma crença religiosa. Assim, apesar de ter nascido sob os olhos de todos em boas condições, o bebê é declarado "nascido morto", com apgar 0. 


Protocolo neonatal em vigor. Sirenas apitando. Sua Senhoria A Pediatra Neonatologia sentenciou: bebê morto no primeiro minuto (não importa se 5 minutos depois foi para Apgar 10). A pobre criatura, ao invés de ser recepcionada pelos braços acolhedores de sua mãe - que não sabe ter sido ludibriada pela médica humanizada e está agora feliz por ver seu filho pela primeira vez - é encarada pelo ódio irracional da pediatra e encima dele despenca a enxurrada de intervenções desnecessárias, protocolares, inevitáveis... 72 horas sem comer, isolado do mundo e de sua mãe, manuseado, observado, examinado de cabo a rabo... E assim se recepciona um ser humano. 72 horas que devem lhe parecer longuíssimas pois são suas primeiras nessa vida. E está só. Os humanos que têm a sua volta não são amigos.


Por que as mães aceitam? Porque estão alienadas de quem são e logo de seu poder. No Call the Midwife, seriado americano que se pode assistir na Netflix, diante de uma situação parecida a puérpera responde: "Eu sou o que ele precisa. O bebê fica comigo." E seu marido lhe dá um beijo na testa. Estamos aqui numa época em que a mulher tinha o poder da maternidade assumido por elas e reconhecido socialmente. E ainda assim, aquele é um filme, uma reconstrução... Porém, podemos dizer que as mulheres, 150 anos atrás por serem sobretudo donas de casa e mães, exerciam um poder social que era oficialmente reconhecido por elas e por todos. Logo, elas tinham mais chances de serem respeitadas quando clamavam sobre verdades/necessidades relativas ao âmbito social de poder delas, a saber o universo femininao. Não existia a medicina intervencionista e tecnológica e as parteiras ainda detinham poder reconhecido.


Hoje estamos em outra época e com outras mulheres. Hoje as mulheres não se reconhecem detentoras de um conhecimento específico nesse âmbito. Ser um mulher bacana, f*a, é ser uma super profissional que ganha muito dinheiro. Hoje uma médica que se sente f*ona tem como cabeçalho de sua página no facebook não um símbolo de sua profissão, vocação, valores humanos, missão comunitária, mas um manequim representando uma boneca da Disney com pérolas (falsas, claro). A isso a medicina se reduziu: a bijuteria. De prática nobre virou espetáculo e exibição de egos (também falsos). 


Profissionais como estes estão em perfeita sintonia com a recém-parida que se vê retirado seu bebê por motivos incompreensíveis a ela mas que aceita. São dois lados da mesma moeda, não é um acaso que a médica obstetra perguntada se queria ter filhos respondeu: "Nunca quis ter filho e agora ainda menos!". De fato: ela não quer passar pelo que suas pacientes passam em suas mãos.


Porque nesse modelo há só dois lados: o do opressor e o do oprimido. Quem está por cima e quem está por baixo. O esperto e o ludibriado. Quem tem poder e quem é impotente. De qual lado você vai quer ficar? No do opressor, claro! Ainda por cima ganha-se um bom dinheiro! [E a humanização o quanto conseguiu ser alternativa a este modelo?]


Nessa alienação feminina e social passa despercebido a ambos os lados o sofrimento do outro: a mãe não atina para o sofrimento de seu bebê e a médica não se dá conta do sofrimento que causa. E às duas estão assim alienadas de sua própria capacidade se sentir e de ser empáticas. Alienadas de si.


Essa é a sociedade moderna na qual vivemos.


A antropóloga Robbie Davis-Floyd explicou o parto como rito de passagem da mulher para a maternidade DENTRO DO SISTEMA, rito de passagem imposto sobre a mulher. Todos os procedimentos têm uma segunda mensagem além daquela "técnica" (médica): a de colocar a mulher em seu devido lugar - que não é o lugar decisório. Seu corpo e o de seu bebê são do sistema e assim continuarão sendo... Continuará no futuro quando a mulher se moldará aos estereótipos femininos (no corpo e na mente - inclusive quando se sente f*ona) que o sistema lhe impõe e aos estereótipos educacionais que a escola irá impor sobre seu filho. Escola, mídia, ambiente social...


Então o ato de rebeldia da mulher que diz: "Não, este filho é meu. Eu sou o que ele precisa", para ser dito hoje precisa de uma mulher super empoderada. Não da boca pra fora, que esbraveja mas que esteja conectada tão profundamente consigo mesma ao ponto de vencer a sedução diabólica dentro da cabeça dela que sussurra repetidamente: você não sabe, você não é capaz, quem é você, vai por em risco seu filho, você é uma irresponsável, tem certeza do que quer...?


A humanização do parto tem essa vocação: a de revolucionar radicalmente esta realidade, mas não se pode fazer humanização do parto sem humanizar os sujeitos que atuam: mulheres e profissionais. 


E, a propósito, moçuolas da pesada, não se faz empoderamento da mulher aos berros, com slogans e palavras de ordem inclusive impostas sobres gestantes atendidas "humanizadamente". Este é o mesmo modelo anterior - bijuteria barata. 


Empoderamento verdadeiro vem do trabalho INTERIOR; sim, não se pode ficar no mental e no transe, mas deve-se ter a coragem de exercer aquele ato humilde do dobrar-se sobre si própria (e não simplesmente sobre o outro/a outra) e reconhecer em si própria (antes de simplesmente no outro/no outra) as origens da opressão (tão fácil de se exercitar mesmo nos meios humanizados) que prendem a um modelo duro de morrer e impedem aquela empatia por nós mesmas e pelos outros que a humanização prega.


Contato: atnhumanize@gmail.com

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