DOULANDO EM SITUAÇÃO DIFÍCIL: PARTURIENTE DESCONECTADA E FAMILIARES DEMAIS POR PERTO

October 14, 2016

 

Este relato é surpreendente. Aline demonstrou uma capacidade incrível de administrar uma situação difícil, ainda mais por se tratar de sua primeira experiência de doulagem! Ela teve paciência, bom senso e perseverança. Foi capaz de liderar um trabalho de parto desconectado e invadido por terceiros sem arrogância e sem prepotência, mas com flexibilidade, positividade e verdadeiro talento pela doulagem.  Amor à mulher e maturidade emocional para segurar uma onda difícil. Parabéns, Aline! Nossa mais nova doula formada pela ONG Amigas do Parto via Instituto Ser e Saber Consciente.

 

Relato de parto de Aline dos Santos Rossi (Cuiabá - MT) – primeira experiência de doulagem realizada enquanto se formava doula parto em nossos cursos.

 

“Meu primeiro encontro foi acompanhando outras duas doulas mais experientes: Carol e Tuanny. A gestante já estava em pódromos, mas fomos chamadas porque existia a possibilidade de 

a doula oficial (Carol) estar viajando no dia do parto. Tuanny é a doula back-up de Carol, mas tinha outra gestante com DPP exatamente igual à da gestante em questão, então havia chances de ser eu a pessoa a doular no dia, como de fato aconteceu.

 

Nesse primeiro e único encontro antes do parto, apresentei-me, ouvi sua história e ela me contou como estava se sentindo nos últimos dias. A mãe dela estava presente e ouviu tudo muito animada, iria acompanhar o parto. Quando a gestante saía do cômodo, conversávamos com a mãe sobre a atuação da família (seriam acompanhantes o esposo, os avós maternos e os avós paternos) e como isso já tinha atrapalhado experiências anteriores – inclusive uma que acabou em cesárea. Conversamos também rapidamente com o esposo, sobre como ele podia atuar, ajudar e sobre nervosismo.

 

Mostrei para a gestante algumas posições que podiam aliviar as dores na lombar e o peso da barriga. Ela me perguntou sobre o medo da dor e sobre o período expulsivo, procurei informá-la e acalmar sua ansiedade. Falamos da água quente e da bola suíça e sobre o tempo que ficaríamos em casa antes de ir para o hospital. Falamos sobre o trabalho de parto, o tampão e a evolução do TP. Ela estava bem ansiosa, mas pareceu mais tranquila quando saímos. Marcamos um chá de bênçãos para o dia seguinte e nos despedimos.

 

Dia 07/05/2015, fui cedo para a casa da gestante. Ela tinha me ligado às 2h da manhã dizendo estar sentindo contrações. Aparentava estar muito calma apesar de ansiosa, a voz estava tranquila, perguntei a frequência, disse para que tomasse um banho e fosse dormir. Pela manhã voltei à casa dela, às 8h. Ela estava maqueada e arrumada, a casa toda limpa. Os sogros e a mãe dela acompanhariam o parto e estavam na casa também, além do irmão dela. Já tínhamos conversado sobre a presença e atuação deles e estavam todos bem, felizmente.

 

Ela não teve um trabalho de parto rítmico. Às vezes as contrações vinham de 5 em 5 minutos (uma sequência máxima de 4x seguidas), passavam uns 10 minutos sem contração, vinha outra, passavam 30min sem contração e começavam de novo. Todo o trabalho de parto foi assim. Visivelmente já estava em trabalho de parto ativo, mas eu não conseguia acompanhar pela marcação das contrações, então acompanhava pela sua expressão e intensidade das contrações, quando vinham.

 

Ela era uma parturiente muito introspectiva, mas também muito acessível. Aceitava testar todas as sugestões muito receptivamente. Quando as contrações estavam mais presentes, sugeria que ela se ajoelhasse num travesseiro no chão e abraçasse a bola suíça, soltando o peso da barriga e aliviando as costas. Quando estava em outras posições, geralmente verticalizadas, eu lhe fazia massagens e exercícios de respiração. Ela conversava muito e sorria muito. Não vocalizou um minuto sequer, nem mesmo no expulsivo. Sempre que vinha a contração, ela fechava os olhos e passava por ela, voltando e dizendo “é tão bom quando acaba”. Consegui manter as demais pessoas afastadas dizendo para comprar coisas e pedindo para fazerem o almoço. Fomos até a varanda de cima da casa, que é alcançada com dois bons lances de escadas e é bem ampla e ventilada, e ali coloquei um lençol na grade da janela para que ela se “pendurasse”, fazendo contra-força quando as contrações apareciam. Tinha visto minha doula fazer isso com minha sobrinha, que pariu assim sob o chuveiro.

 

Consegui, finalmente, que o marido se envolvesse um pouco nesse momento. Ele pouco aparecia, manteve-se afastado durante todo o trabalho de parto, salvo dois momentos (esse e uns poucos minutos durante a tarde). Olhava para mim e dizia “ela está bem acompanhada” e saía, mas ela aparentemente não parecia se importar – embora ficasse bem mais relaxada quando ele estava por perto

 

Nessa altura, ela parecia estar bem cansada, pois não dormira na noite anterior (disse-me que as contrações estavam de 3 em 3 minutos durante a madrugada e, por isso, não conseguiu dormir nada), então sugeri que fosse dormir um pouco, ressaltando como era importante que seu corpo estivesse descansado para o trabalho de parto ativo e mais intenso que viria a seguir. Ela dormiu cerca de 50min (acordou 3 vezes com contrações durante todo esse tempo, mas voltava a dormir quase instantaneamente), ainda que a mãe ficasse entrando o tempo todo no quarto para pegar uma coisa ou outra e ficava observando – tive que pedir silêncio em dado momento, mas ela reagiu bem.

 

A gestante tinha tomado um café da manhã relativamente fraco e não quis almoçar (já era hora do almoço quando acordou), mas oferecia algumas frutas (banana e melancia), castanhas sempre e água também; ela ia aceitando e comendo conforme tinha vontade. À tarde, as contrações continuavam totalmente sem controle. Mas ela passou a ir mais vezes ao banheiro e querer tomar mais banhos na água quente, também dizia que a intensidade estava aumentando e não queria comer mais nada – só as castanhas, de vez em quando. Esses foram os sinais que tive de ir percebendo para entender a evolução do trabalho de parto. Pedi, amigavelmente, para ver a bolsa da maternidade e do bebê e para que me mostrasse o que levaria pro hospital. Isto porque ela estava começando a se acomodar e ainda sem sinal de ritmo das contrações, então tentei dar uma alavancada no processo (imaginei que já estivesse com uns 7cm). A desculpa perfeita que encontrei foi a touca: a bebê só tinha toucas de lã, incômodas. Falei sobre acharmos uma toca de algodão, perguntei se ela queria ir procurar ali nas lojas nos arredores. Ela sabia que andar ajudaria, então topou. Mas a família resolveu ir também. Quando vi todo mundo se arrumando, sugeri que ela fosse tomar um banho e chamasse o marido pra ir junto, que aproveitasse bem e que eu chamaria a fotógrafa. Também conversei com o médico durante esse período e ele pediu para dar uma avaliada, até mesmo pra passar mais confiança pra ela e manter a família tranquila. Felizmente, seu obstetra era um dos pouquíssimos médicos humanizados que temos na cidade.

 

Fomos para uma loja enorme, espaçosa e pouco movimentada que tinha por ali, onde também encontramos a fotógrafa. Ela caminhou bastante, as contrações iam e vinham, ainda sem ritmo nenhum, mas visivelmente incomodavam mais. Não achamos a touca, enrolei um pouco mais (já que ela estava bem) olhando baldinhos de ofurô. Por fim, não tendo mais o que fazer ali, fomos para o consultório. A andança fez efeito, porque as contrações eram mais longas, sua expressão mais severa e pareciam incomodar muito mais.

 

No hospital, aguardamos um bocado. Ela iria fazer o toque e não queríamos toda aquela família no consultório, mas eles não seriam demovidos por nenhum argumento nesse mundo. Vendo-a ter contrações sentada, chamei para darmos uma volta no hospital. Peguei sua mão e fomos andando pelos corredores e conversando. Uma volta e voltamos, quando ela ia sentar, sugeri uma segunda volta. A mãe dela desconfiou. Entramos na sala e fechamos a porta. O doutor informou que ela estava com 9cm de dilatação e nos mandou pra casa porque o bebê ainda estava alto. Fiquei receosa, perguntei se não seria melhor ficar ali mesmo, andando e fazendo exercícios até a internação. Ele voltou a dizer que não. Como a casa dela era a 2 quadras dali, voltamos todos. A mãe e a sogra estavam duas araras, estressadíssimas comigo. Pedi desculpas, me expliquei e conversei muito com elas – por fim, a mãe da gestante me pediu desculpas porque “estava nervosa e queria acompanhar tudo”. Ficou tudo bem e não criou um ambiente ruim, felizmente. A gestante parecia estar alheia a tudo a essa altura, embora não fosse nada de partolândia.

 

Em casa, coloquei música e dançamos mais um pouco. Agachamentos e voltinhas, muito molejo no quadril, mais castanhas. Não parecia nada diferente de como ela estava antes de ir ao consultório, exceto que o trabalho de parto visivelmente evoluída. Dado momento, ela se deixou ficar no sofá, foi o único momento que, acredito, ela chegou à partolândia. Ficava de olhos fechados, tremulante, com as mãos sobre a barriga, um silêncio profundo na sala... As contrações vinham e ela se fechava inteiramente. Eu lembrava: respire pelo nariz, solte pela boca...

 

Era 18:00 quando voltamos para casa e 20h quando voltamos ao hospital. Ela certamente já estava com 10cm de dilatação, o que foi constatado por um segundo toque no apartamento (a pedido dela). Não consegui evitar que todos entrassem no quarto, mas o sogro ficou de fora (pelo menos!). Tinha instruído a gestante em casa a conversar com eles, no carro, sobre as suas vontades, como queria que eles se portassem e colaborassem. Mantive as luzes baixas e voltei a conversar com todos sobre o silêncio e a tranquilidade que ela precisava. O obstetra ainda levou uma hora para chegar.

 

Ela, nada conectada espiritualmente e nem perto de qualquer vestígio de partolândia, andava pelo quarto, segurava na grade do leito e se abaixava quando vinha contração. Depois de uns minutos, convidei-a para sentar na banqueta de parto e coloquei o objeto em frente ao sofá. Pedi ao marido que sentasse atrás (tudo em gestos) e ficasse de apoio. O obstetra sentou à frente e disse pra ela apoiar os pés nos joelhos dele. Uns minutos depois, aparentemente, começava o expulsivo. Digo aparentemente porque ela fazia força, mas não dava para entender se realmente era puxo, já que ela não vocalizava nada e sua expressão era sempre a mesma. O doutor elogiava e ela fazia força. É importante lembrar que até então a bolsa não tinha sido rompida em momento algum. Nem um pingo d’água. Saíra um pouco de tampão em casa, mas apenas um filete. Enquanto ela fazia força, parecia estar realmente se abrindo. Finalmente, pela primeira vez na noite, saiu um pouco de sangue e em certo momento um pouco de água. Achamos que a bolsa havia rompido e ficamos felizes. Mas não.

 

Depois de um tempo assim e nenhum bebê, o doutor disse que o bebê ainda estava alto e não adiantava ficar naquela posição. Aquilo desestabilizou bastante a gestante e as pessoas em volta. Eles saíram do quarto e ficamos sozinhas. Mãos dadas, movimentos circulares, massagens, agachamento. Ela tomou outro banho, saiu o resto do tampão. Já era 21h. Sugeriram romper a bolsa artificialmente, já que ela parecia super cansada e não sabíamos se o trabalho de parto começara às 8h ou às 4h da manhã. Ela aceitou e o médico explicou como seria feito.

 

Rompida a bolsa, o líquido veio bem escuro. Com mecônio, mas bem líquido. Ela não se atentou pra isso, não quis preocupa-la e só observei. O pediatra se assustou e o doutor não disse nada, conversamos por olhar. Eu me preocupava com essa ideia de não se conectar, não entrar na partolândia. Ela até sorria de algumas piadas durante o expulsivo (não durante o puxo, claro), em nenhum momento deixou de estar no material.

 

A rotura da bolsa deu uma aumentada no ritmo, as pessoas voltaram. Ela começou, pela primeira vez, a reclamar de dor. Que as dores eram muitas... Entramos na “hora da covardia”. Ela começou a dizer que não aguentava mais, que estava cansada, que ninguém entendia, que não iria conseguir... Eu, ao lado dela, abraçava e segurava sua mão, dizia-lhe coisas positivas e pedia para se deixar levar, para pensar positivo, lembrava que todas ali já tinham parido e sabiam que doía muito sim, que acreditávamos nela e por isso sabíamos que conseguiria. Disse-lhe várias vezes que era uma mulher forte e que tinha chegado até ali. Ela voltou a sentar na banqueta, com o marido atrás segurando o peso do corpo e segurando suas mãos.

 

Ficamos mais três horas nisso, ela já estava exausta e o bebê continuava alto. Não dava pra aplicar ocitocina e o parto evoluiu para uma cesárea necessária. Ela estava sofrendo muito com isso. Fiquei ao seu lado dizendo coisas boas e contando sobre a sua cesárea necessária e humanizada... Foi muito emocionante e intenso.

 

Um trabalho de parto tranquilo e calmo como nunca imaginei ver, com parturiente rindo e fazendo piada com 10cm de dilatação... Também nunca vi gestante com 10cm se preocupar em estar vestida e não querer tirar a calcinha, que foi o que aconteceu. Estava inibida pela família, claro. Um expulsivo intenso e sem bolsa rota. Um procedimento que eu não quero ver muitas vezes, nenhuma partolândia e uma cesárea necessária.

 

Graças às leituras do curso, consegui lidar frontalmente com isso sem me sentir culpada pelo desenvolver da coisa. Fiz tudo o que pude e ela foi bem auxiliada, mas teve o parto que precisou. As leituras me ajudaram a perceber e respeitar suas vontades e lidar com a família sem me tornar um empecilho entre eles. Foi um grande aprendizado.

 

Aline dos Santos Rossi

 

Estudante de Pedagogia e Doula

 

Cuiabá (MT)

 

Aline.srossi@hotmail.com

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