PARTO DESASSISTIDO PROFUNDAMENTE TRANSFORMADOR

October 21, 2016

 

 

Precisei de 9 meses para gestar meu filho e 5 meses para conseguir respirar e descrever de forma racional como foi a sua chegada ao nosso mundo. Este foi um momento incrível com um significado muito mais profundo do que eu poderia imaginar.

 

Parir em casa, sozinha, transformou meu ser completamente. Eu não sou mais a mesma, não somente por agora ser mãe, mas por ter me encontrado com o lado mais forte e verdadeiro do meu ser. No meu parto eu vivi, fêmea que sou, o que realmente me compõe: instinto, amor, sabedoria , coragem e fé. Aprendi a CONFIAR. Aprendizado adquirido pelo corpo, de dentro pra fora, talvez seja impossível transcrever. Confiar na natureza que escolheu para mim um corpo de mulher que naturalmente sabe gestar e parir. Confiar na força que eu não sabia que tinha. Confiar no ambiente que estava. Confiar. Confiar. Confiar com o pé no chão, com a certeza de que eu estava fazendo o melhor para mim, que eu estava me escutando - e eu sei, mais que ninguém, o que é o melhor para mim e meu filho.

 

Quando me percebi grávida, eu soube confiante, como um pressentimento, que eu iria parir sozinha. Assim levei essa verdade dentro de mim, compartilhada até os 5 meses de gestação somente com o meu companheiro que acreditou em mim e me apoiou desde o início. "Que maluca, doida, fora da casinha, inconsequente, irresponsável" - escutei isso, muito, muitas vezes, por todos os lados, conforme fui abrindo estreitamente essa notícia para os mais próximos. Talvez pelo fato de eu ter escutado isso a minha vida inteira sobre grande parte das decisões que tomei, em momento algum isto me colocou em dúvida.

 

Incompreensões a parte, dediquei todo o tempo que pude em livros sobre parto e enfermagem, além de vasculhar grande parte da galeria de sites sobre parto que encontrei no google. Conheci doulas, parteiras, enfermeiras obstetras, médicos(as) obstetras, fui em grupos sobre parto domiciliar e estive mergulhada nesse mundo intensamente por toda a gestação. Apoios externos para a minha decisão eram nulos e carregados de críticas. Por isso, depois de um tempo parei de expressar minha decisão até para os defensores do parto humanizado, que na sua maioria não são a favor do parto desassistido - sem a assistência de um profissional. Encontrei alguns relatos e vídeos de parto desassistido e escrevi para suas autoras, não obtive resposta de nenhuma. Enviei vários e-mails para profissionais do parto humanizado do Brasil inteiro, os mais educados falaram que não poderiam me ajudar na minha escolha, os mais intrigados, me escreveram bíblias de sermões.

 

Eis que, entre esse turbilhão de informações seguidas de intensas alterações de humor devido aos hormônios da gestação, recebi uma unica resposta acolhedora, foi nela que me fixei até o dia tão esperado do parto. A Adriana Tanese Nogueira me escreveu em sua resposta uma frase-chave que me acompanha desde aquele momento: "Eu apoio a decisão da mulher e aposto em sua responsabilidade ". Que alivio em meu coração. Essas palavras abraçaram intimamente a minha alma que se tranquilizou sobre a minha confiança. Senti como se tivesse encaixado algo que estava torto em mim. Enfim, alguma alma conectou-se com o que a minha clamava. Por que era isso que ocorria, eu sabia com toda a fúria protetora que me regia que eu não iria ter meu filho no hospital, e também não sentia o mínimo ânimo de ter meu parto com a assistencia de uma parteira ou alguma enfermeira. A Adriana acendeu a luz e tornou claro o que já estava cravado em mim e eu não estava conseguindo decifrar, algo que por mim foi entendido como: "eu confio na sua responsabilidade". Assim vivi meus dias desde entao, confiando na minha responsabilidade.

 

Gestação de baixo risco, resultados dos exames de sangue excelentes, ganhei pouquíssimo peso, com 33 semanas o Unai já estava encaixadinho, segundo tudo o que estudei, as chances de o parto "dar errado" eram raras. Foi então que… A única pessoa próxima que estava comigo nessa decisão, estava cada dia mais longe de mim. A relação com o meu companheiro se tornava a cada dia mais difícil e eu já não o queria perto de mim no dia do parto. Eu não estava feliz, eu estava realmente muito triste. Juntando a fragilidade emocional com a pressão da família, decidi que iria ter o parto com uma doula e uma parteira que viria de Sao Paulo. Eu estava em contato direto com a parteira e ao mínimo sinal ela iria seguir para Curitiba, entretanto, a partir das 38 semanas ela estaria aqui aguardando o parto.

 

Como o ultimo mês de gestação foi aos prantos, não foi por acaso que o Unai quis chegar antes. Dia 13/04/2014, minhas amigas organizaram um chá de bênçãos para abençoar a chegada do Unai. Passamos a tarde rodeadas de ternura, carinho e amor. Recebi tanto amor que revigorei meu ser, foi lindo, incrível. Eu estava especialmente me sentindo suave e como se me estivesse fora da órbita terrestre, eu estava nas nuvens. Faziam poucos dias que eu e o Miguel tínhamos nos reconciliado e nos reaproximado. Quando cheguei em casa, nós estávamos naturalmente conectados e apaixonados.  Deitamos na cama e começamos a assistir um filme. Passados poucos minutos, fui surpreendida por uma contração fortíssima. Falei para ele anotar sua duração (ele já sabia como deveria agir e como deveria contar as contrações). Após a primeira que durou 2 minutos, seguiram as próximas com intervalos de 2 a 3 minutos, durando aproximadamente o mesmo tanto. A primeira contração aconteceu pontualmente meia noite. 3 horas da madrugada, notando o progresso do trabalho de parto, liguei para a parteira. Ela disse que eu não aparentava estar em trabalho de parto, porém, me aconselhou apagar todas as luzes da casa, deixando somente alguma luz baixa ( abajur ), tomar um chá calmante e um banho quente. Foi o que eu fiz.

 

No chuveiro, quando as dores começaram a parecer insuportáveis, pedi ao Miguel para que ligasse à minha doula Letícia para que viesse me ajudar a aliviá-las ( mal eu sabia que não existiria alívio a partir daquele estágio). Consegui me manter em pé por pouco tempo, logo eu estava ajoelhada na banheira e quando não pude mais, deitei. 

 

Qualquer coisa que me tirasse o foco de não me identificar com o meu interior me deixava profundamente irada. Lembro de o Miguel ter perguntado algo como " posso ajudar em algo ?" e eu ter sido estúpida mandando ele ficar quieto. No momento, eu pensava concretamente que o ultimo lugar que eu queria estar era no hospital. Hoje, tenho certeza que se lá estivesse teria sido mais um caso dessas " loucas comedoras de placenta que mordem os enfermeiros", consequentemente, amarrada na maca. Se a graça divina não existia antes, a partir desse momento ela passou a existir. O Miguel entrou em uma sintonia incrível com o momento e logo começou a encher a banheira. Ele passou horas esquentando e substituindo a água enquanto não tínhamos nenhum diálogo a não ser um breve e grosso "PARA” (de por água) e "FRIO” (põe mais água quente) que eu com esforço falava.

 

Desde o inicio do trabalho me mantive ativa, primeiro caminhando e rolando pelo chão da sala, depois, na banheira, vagarosamente procurando a posição que mais me auxiliasse a suportar as dores. Elas estavam insuportáveis, implorei para todos os santos, orixás e deuses para que me protegessem e que fizessem parar a dor. Até que pensei, "a dor só vai passar quando o bebê nascer, e se eu permanecer deitada, só vou tardar o nascimento. Ou eu faço um esforço imenso e fico de cócoras ou eu fico aqui sofrendo." Foi aí que eu realmente descobri a força que tinha. Mal consegui estar de cócoras e já comecei a sentir um puxo super forte, do tipo MUITO FORTE MESMO. Eu já não tinha controle de mim, meu corpo sabiamente guiou todo o processo e era impossível conter os urros que vinham do âmago do meu ser. Mais uma contração e, que alívio, estourou a bolsa. Tenho nítido em minha memória a água da banheira se mesclar com o sangue, LINDO.

 

Nisso, tocou o telefone, era a Leticia lá em baixo na porta. O Miguel desceu para abrir. Mais duas contrações fortíssimas, a cabecinha coroou. Coloquei as mãos nela e mais uma contração, logo estava eu com as mãos segurando a cabecinha daquele ser incrível que vinha depois de uma longa jornada de trabalho ativo. Em pouco tempo, seu corpinho escorregou e entao o segurei e o coloquei direto no meu peito. Seu chorinho foi quase como um miado, foi suave e cessou assim que o aproximei de mim.

 

Com ele nos braços, chegaram a Leticia e o Miguel no banheiro. Que surpresa! Que alegria! Lágrimas nos olhos de todos, festa no céu, chuva de estrelas, o Unai nasceu! No meio de todo o êxtase, tampouco nos importamos em saber o sexo dele! Era um bebê, era um SER, era divino, era o nosso(a) filho(a)! Eis que a Leticia lembra desse detalhe e com todo o cuidado dá um espiadinha: " É um menino!!!". Pensamos: " Nós?! PAIS DE MENINO?! HAHAHA " era riso por todo lado. Essa foi a historia da chegada ao mundo do nosso querido Unai. Nascido super saudável com 37 semanas e 3 dias de gestação, dia 14/04/2014 às 5:27 da manhã. Com aproximadamente 46 cm e 2.600 kg.

 

Após tudo que foi dito, vale ressaltar que:

  • A qualquer sinal de que o trabalho de parto e/ou bebe estivessem em risco, tínhamos um hospital próximo à recorrer.

  • Estudei a fundo como identificar possíveis problemas, compartilhando com meu companheiro como iríamos proceder se acontecessem.

  • Eu não faço da minha experiência uma recomendação ao parto desassistido pois considero que nem toda mulher tem condições de realizar um parto dessa maneira. Mas digo, sim, que eu acredito na mulher e eu confio que ela sabe o que é melhor para ela e seu bebe.

Agradecida à vida

 

Giulia, 21 anos, mãe do Unai!

 

 

 

 

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