HUMANIZAÇÃO COM CONSCIÊNCIA

October 24, 2016

 


De acordo com o trabalho realizado em conjunto no presente curso*, foi-me possível participar de, infelizmente, apenas da metade do programa, o que inclui o módulo I e o módulo II. No primeiro módulo, os assuntos destacados se relacionavam às diferentes nuances de significado e, conseqüentemente, às diferentes óticas acerca do parto como um evento médico, simbólico, espiritual, e ainda como questão de gênero e de cidadania. Confesso que alguns desses olhares  ainda não tinham sido contemplados nessa minha longa trajetória de pesquisadora, parturiente -que fui- e mãe que sou. Dessa forma, considerei de grande pertinência essa abertura no meu campo de visão que foi propiciada nesse rico trabalho desenvolvido no curso. Visualizar e compreender o parto com um evento espiritual foi algo que calou fundo em mim, uma vez que já tinha essa sabedoria interior que pedia forma e elaboração. Foi nesse sentido que vejo o maior benefício do curso sobre humanização - nos colocar em grupo, imbuídos em uma rica troca de experiências, a fim de sistematizarmos conhecimentos não elaborados e, mesmo, não conhecidos.


Distinguir o que pertence à natureza e o que pertence ao homem é ponto inquestionável de quem deseja ampliar seus horizontes no que concerne à assistência ao parto. E vai além, distinguir o que é da alma traz ao palco da discussão algo visto com tanto preconceito pelo mundo acadêmico científico que norteia a medicina e, que dirá, a nossa vida diária. Tratar o parto como questão de gênero e de cidadania permite-nos, ainda, estender a nossa identidade de interessadas no evento ‘parto’ para alcançar a nossa identidade de mulheres e de agentes participantes de mudanças sociais. É enfatizar a dialética inerente à vida social. É enfim, não permanecer com uma visão simplista do assunto em foco.

Já no módulo II, o curso nos proporcionou um contato riquíssimo com a reflexão sobre a realidade do parto na atualidade e sobre os principais desafios e escolhas. Foram enfocados temas como as rotinas hospitalares, a função e a prática do médico, a função e prática da enfermeira obstétrica e, ainda, a função desse mais novo papel da doula e/ou do acompanhante.

Gostaria nesse ponto desse meu exercício de reflexividade - pois é assim que estou encarando este trabalho: como uma forma de organizar o meu próprio pensamento e de sistematizar, pelos meus meios pessoais, o conhecimento e as experiências vivenciadas - ressaltar o contato que tivemos com a pediatra homeopata que nos relatou o passo-a-passo da rotina hospitalar do neonatologista.
Fiquei chocada com a maneira como as condutas médicas são conduzidas e, principalmente, com os fatores motivadores e sustentadores dessa própria rotina. É um absurdo pensar que em um grande universo de bebês, poucos são aqueles realmente privilegiados pelos procedimentos invasivos realizados em um período tão fundamentalmente importante no que concerne ao vínculo mãe-bebê. Michel Odent já nos destaca a relevância incalculável do período logo após o nascimento para a vinculação afetiva entre o dueto protagonista ‘mãe-filho’ que, infelizmente, na instituição hospitalar fica relegado a último plano.

É incrivelmente chocante observar como o olhar da medicina está pautado na doença, no patológico. Os médicos, todos, tinham de ser submetidos a uma nova modalidade de cirurgia ocular que lhes desobstruísse o campo de visão. Li uma metáfora sobre casamento e sexualidade que acho pertinente para a temática em discussão: o casamento é a carruagem e a sexualidades são os cavalos: quantas e quantas vezes a carruagem não esmaga os cavalos... (o que seria justamente o contrário do que se esperaria). O parto pode ser visto como os cavalos muitas vezes esmagados pela ineficácia, pela pressa, ou pelo ’turbinamento’ da carruagem que seria os mais novos conhecimentos do homem, os ‘progressos’ da ciência médica.

Enfim, não quero me estender muito nessa reflexão, mas quando me deparo com realidades como essa fico tão indignada que preciso escrever para desabafar com você, caro (a) leitor(a). Acredito, sim, na transformação desse modelo embolorado de assistência ao parto, acredito e me engajo, sim, na luta pelo resgate dessa identidade feminina tão suprimida ainda nos dias de hoje e que ao assumir essa forma tão inusitada, que é a identidade da mulher grávida e parturiente é abocanhada por uma outra identidade - a de paciente - a qual sufoca as demais identidades femininas: a mulher, a grávida, a parturiente e a mais nova mãe parecem estar em subordinação à paciente do Dr ou da DRa Fulano(a).
 

Juliana de Freitas Dias é mãe, Mestre e doutoranda em Lingüística – UnB e mora em Brasília (DF). Esta reflexão é o resultado do curso Humanização online, hoje dividido em quatro diferentes cursos apresentados no site http://www.institutossc.com

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