NOVAS RAZÕES E NOVOS CAMINHOS PARA ESTUDAR A FISIOLOGIA DO PARTO

October 24, 2016

The age of cesarean section on request, epidurals and drips of oxytocin

is a turning point in the history of childbirth.

Until recently women could not give birth

without m release a complex cocktail of ‘love hormones’.

Today, in many countries, most women have babies

without releasing these specific hormones.

The question must be raised in terms of civilization.

Michel Odent

 

 

Podemos facilmente compreender a falta de motivação para estudos sobre as influências ambientais no processo fisiológico perinatal, pois estamos adentrando a era da cesárea eletiva. Este novo fenômeno se desenvolveu inicialmente na Itália e em grande parte das cidades da América Latina. Foi dito que o tamanho do cérebro humano representa a maior mudança em termos de parto e que a cesárea é a solução tecnológica para o ‘conflito entre a necessidade de pensar e a necessidade de correr’.


Entretanto, muitas disciplinas não diretamente relacionadas à obstetrícia oferecem novas razões para redescobrir as necessidades básicas de uma mulher em trabalho de parto. Uma dessas disciplinas é chamada ‘Primal Health Research’ (Estudos Primários em Saúde). Ela inclui estudos que pesquisam a relação entre o ‘período primal’ e a saúde e o comportamento mais tarde na vida. O período primal inclui a vida fetal, a perinatal e o primeiro ano de vida. É possível detectar correlações entre a vida fetal e a vida adulta em todos os campos da medicina. Mas é interessante observar que quando se encontram essas ligações elas se situam não no âmbito da medicina e sim no campo da sociabilidade e/ou agressividade, em outras palavras no campo da capacidade de amar. Os pesquisadores estão descobrindo que quando há uma ‘enfraquecida capacidade de amar’ (a si mesmo e aos outros), é possível detectar fatores de risco no período perinatal. Além disso, essas condições são altamente tópicas e tendem a apresentar-se com mais freqüência do que no passado.


A criminalidade juvenil é altamente tópica e pode ser interpretada como uma incapacidade de amar. Raine e colegas descobriram que o maior fator de risco em criminais violentos de 18 anos, foi a associação de complicações no parto junto com uma separação precoce da mãe e/ou rejeição por ela. A separação-rejeição por si só não é fator de risco. (ODENT: 2001, 40)


Todo tipo de comportamento destrutivo pode ser interpretado como uma  ‘enfraquecida capacidade de amar’ a si mesmo, como no suicídio, no abuso de drogas e na anorexia nervosa. O suicídio entre adolescentes é um fato preocupante dos nossos tempos. Salk et al. descobriram fatores de risco no período perinatal em adolescentes que morreram antes de seu vigésimo aniversário. Um dos mais significativos foi terem sido ressuscitados ao nascer.


Jacobson pesquisou em particular como as pessoas cometem suicídio. Encontrou correlação entre suicídios que envolviam asfixia e a asfixia no nascimento. Ele descobriu também, nesta mesma pesquisa, que homens (mas não mulheres) que viveram nascimentos traumáticos têm cinco vezes mais chances de cometer suicídio usando métodos violentos, do que outros. Nas pesquisas foram levados em consideração muitos possíveis fatores que podem criar confusão. A diferença entre homens e mulheres desaparece quando suas mães fizeram uso de analgesia de opiáceos durante o trabalho de parto e parto. Parece que um dos efeitos colaterais em longo prazo do uso de morfinas ou diferentes tipos de morfina sintética são diversos: entre eles o uso de drogas. Jacobson e Nyberg descobriram que se a uma mãe é dada analgesia ou sedativos durante o trabalho de parto (opiáceos, barbituricos, etc.) seu filho terá uma chance estatisticamente maior de se tornar um dependente de drogas na adolescência (ODENT: 2001, 40).


A anorexia nervosa é uma espécie de comportamento auto-destrutivo. É  tópica. Há um estudo que encontrou correlação entre a anorexia nervosa e o nascimento. Um grupo de pesquisadores acessou os dados relativos ao parto de garotas nascidas na Suécia entre 1973 e 1984; acessou também os dados de 781 garotas hospitalizadas por anorexia nervosa de idade entre 10 e 21 anos. Para cada jovem anoréxica, cinco não-anoréxicas nasceram no mesmo hospital no mesmo ano. O mais significativo fator para a anorexia nervosa foi ter tido um parto traumático de um ponto de vista mecânico, por exemplo, devido ao uso de fórceps ou ventosas (ODENT: 2001, 41).


O autismo também pode ser a manifestação de uma ‘enfraquecida capacidade de amar’. Crianças e adultos autistas não socializam. Quando adolescentes não conseguem assumir compromissos, quando adultos não têm filhos. Tinbergen, um dos fundadores da etologia (que dividiu o Prêmio Nobel com Konrad Lorez a Karl Von Frisch em 1973) descobriu que o parto com ‘fórceps profundo’, sob anestesia, ressuscitamento e indução de trabalho de parto são fatores que predispõem ao autismo ou exageram seus sintomas. Sua pesquisa foi a primeira tentativa de explorar o autismo da perspectiva do ‘Primal Health Research’. Mais tarde Hattori avaliou os riscos de se tornar autista conforme o lugar de nascimento. Descobriu que crianças que nasceram em determinado hospital tinham significativamente mais riscos de se tornar autistas. Naquele particular hospital, era rotina induzir o parto uma semana antes da data provável de parto e fazia-se uso de uma complexa mistura de sedativos e analgésicos durante o trabalho de parto (ODENT: 2001, 41).


Os dados oferecidos pela perspectiva da Primal Health Research complementam os achados de uma grande variedade de disciplinas que participam daquela que Odent chama de ‘Cientificação do Amor’. Até recentemente o amor era o reino dos poetas, dos artistas e dos filósofos. Nas últimas décadas do século XX, o amor tem sido estudado com métodos científicos. É fácil não perceber a importância  desses estudos, porque há várias diferentes abordagens que exploram a natureza do amor e como a capacidade de amar se desenvolve.


A emergência da moderna etologia representa o advento da ‘Cientificação do Amor’. Lembramos o famoso experimento de Konrad Lorenz que foi a primeira relação de um patinho recém-nascido tornando-se ‘sua mãe’ e ativando todos os comportamentos filiais esperados de um patinho em relação à mãe. O vínculo entre os dois durou pelo resto de suas vidas, o filhotinho seguia Lorenz por todo o lado. Isso mostra que existe um momento curto e crucial no período imediatamente após o nascimento que nunca mais será repetido. É por isso que muitos etologistas estudam o vínculo entre mãe e bebê.


A cientificação do amor iniciou uma nova fase in 1968 quando Terkel e Rosenblatt injetaram em ratas virgens, sangue de ratas nas 48h seguinte ao parto. As ratas virgens manifestaram comportamento maternal. Este experimento histórico foi seguido por numerosos outros nos anos 70, nos quais se explorava o comportamento sob o efeito dos hormônios presentes no imediato pós-parto (ODENT: 2001, 42).


Em 1979 surgiu uma nova época de pesquisas, quando Prange e Pedersen descobriram que a ocitocina pode induzir comportamento maternal em mamíferos, sob a condição de que fosse injetada nos ventrículos cerebrais. Ao que parece a ocitocina é um típico hormônio altruísta: ele está envolvido em todas as facetas do amor. Pesquisadores suecos descobriram que a ocitocina atinge o pique logo após o parto, e pode encontrar-se em níveis até maiores do que durante o trabalho de parto.

Não há contradição entre a ocitocina como ‘hormônio do amor’ e as observações a respeito dos hormônios sexuais, o estrógeno e a progesterona. Sabe-se hoje que o estrógeno ativa os receptores da ocitocina e da prolactina (am ação na amamentação).


Em 1979 foi demonstrada a secreção de beta-endorfinas durante o trabalho de parto e parto. No começo dos anos 80, descobriu-se que os bebês produzem endorfinas durante seu nascimento e hoje não há dúvidas de que mulher e bebê estão impregnados de opiáceos após o nascimento. A propriedade dos opiáceos de induzir dependência é bem conhecida.


As catecolaminas também jogam um papel importante no período imediatamente posterior ao parto. Durante as últimas contrações do expulsivo alcança seu pique. O reflexo disso é que as mulheres tendem a ficar eretas, cheias de energia e com a necessidade de agarrar alguma coisa. Freqüentemente precisam beber um copo de água, da mesma forma como um congressista bebe água antes de falar a uma grande platéia. Um dos efeitos da secreção de catecolaminas é que a mãe está alerta quando seu bebê nasce. Evolutivamente esta é uma grande vantagem: ela tem suficiente energia – e agressividade – para  proteger seu filhote.

É sabido que o bebê tem seus próprios mecanismos de sobrevivência durante as últimas fortes contrações e secreta sua catecolamina. O sinal evidente da secreção de noradrenalina é que ele está alerta, com seus olhos bem abertos e as pupilas bem dilatadas. Mães humanas ficam encantadas com o olhar fixo de seu filho recém-nascido. Certamente este contato olho no olho é uma característica importante do começo da relação mãe-filho entre humanos.


Os hormônios secretos durante o parto não desaparecem tão cedo, é reconhecido que todos eles exercem um papel importante no desenvolvimento das interações entre mãe e filho. Em todas as etapas da história da cientificação do amor foram apresentados experimentos  animais convincentes. Por exemplo, os estudos de Krehbiel e Poindron  demonstraram que carneiros não cuidam de seus filhotes se estes nasceram com anestesia epidural. É claramente um efeito da anestesia.

Evidentemente não podemos aplicar esses resultados diretamente aos humanos, pois estes têm outras formas de comunicação (a linguagem e a cultura) que influem nas respostas instintivas. Contudo, as experiências com animais apontam para as questões que os humanos devem se colocar. Qual é o futuro de uma civilização nascida sob anestesia epidural?


Chegamos a um tempo no qual está sendo possível oferecer uma visão ampla da fisiologia do nascimento. Os hormônios secretos durante o parto se originam na parte arcaica das estruturas cerebrais, como o hipotálamo e a glândula pituitária. Em outras palavras, a parte mais ativa do corpo da mulher durante o parto é sua parte primitiva do cérebro. Compreende-se que durante o parto – ou em qualquer momento de sua vida sexual – a inibição possível vem do neocórtex. Esses fatos são essenciais para interpretar o particular estado de consciência que caracteriza a mulher em parto.


Durante o trabalho de parto muitas mulheres tendem a se tornar menos racionais, apresentando comportamentos que seriam inaceitáveis em sua vida pública diária, como gritar ou xingar. Este particular estado de consciência está associado com a redução da atividade neocortical. Desta forma é fácil entender que o que uma mulher precisa em primeiro lugar, durante o parto é ser protegida contra todo tipo de estimulação neocortical. Alguns dos fatores que podem estimular o neocórtex são a linguagem, luzes fortes e a sensação de estar sendo observada.


É um mal-entendido cultural, presente freqüentemente em muitos manuais de ‘parto natural’, não levar em conta a fisiologia do parto e introduzir câmaras e fotógrafos em sala de parto. É de notável importância o fato de que todos os mamíferos não-humanos têm a estratégias para não serem observados enquanto dão à luz. Por exemplo, os animais noturnos (como os ratos) parem durante o dia, os diurnos (como os cavalos) durante a noite. Os chimpanzés se separam do grupo.

Todas as situações em que há uma secreção de catecolamina estimula o  neocórtex, os indivíduos ficam mais atentos, alertas, prontos para uma emergência. Isso denota a necessidade de sentir-se seguros. É interessante que em muitas culturas as mulheres tendem a ter seus filhos perto de suas mães ou de alguma figura substitutiva. Esta é a origem das parteiras. A parteira é originariamente uma figura maternal.


Da mesma forma podemos ver as necessidades básicas da mãe e de seu recém-nascido durante a primeira hora após o nascimento. Novamente a  questão é o antagonismo entre a secreção de catecolaminas por um lado e de ocitocina por outro. Isso sugere a importância de condições ambientais como privacidade, temperatura e contato olho-no-olho e pele-a-pele entre mãe e filho. Em geral, todos as situações que envolvem secreção de ocitocina são altamente dependentes do ambiente (como copulação, parturição e lactação). O chamado terceiro estágio de parto – a dequitação da placenta – está relacionada com a secreção de ocitocina. Nesta fase também há inicio a amamentação.


Algumas relações entre a fisiologia do parto e a da lactação são facilmente explicáveis no contexto científico contemporâneo. Por exemplo, níveis de beta-endorfinas aumentam durante o trabalho de parto e induzem a secreção de prolactina. Mulheres que deram à luz por via vaginal secretam ocitocina durante a amamentação até dois dias depois do parto. As que foram submetidas à cesárea não.


Pode-se concluir que no momento em que o bebê humano encontra o peito pela primeira vez, o comportamento de mãe e filho está sob a influência de numerosos hormônios que são secretos durante o trabalho de parto e parto. Hoje temos a disposição métodos efetivos e não invasivos para melhorar nossa compreensão do processo fisiológico do período perinatal. É possível imaginar um futuro de novas tecnologias de imagens para estimular o cérebro durante o trabalho de parto e até o parto. O estado orgástico já pode ser estudado nesse sentido. Os hormônios secretos durante o orgasmo são similares àqueles em ação na fase final do período expulsivo. Além disso, muitas mulheres comparam esse momento com suas experiências de orgasmos.


Os maiores obstáculos para melhorar nossa compreensão do processo fisiológico do parto em relação aos fatores ambientais não são de ordem técnica. O problema é a falta de interesse nesse campo de estudos. Esta falta de interesse está relacionada a uma crise sem precedentes na história do nascimento humano.

Até recentemente as mulheres não davam à luz bebês e placentas sem secretar um complexo coquetel de ‘hormônios do amor’. Hoje, e muitos países, a maior parte das mulheres têm seus bebês sem secretar esses específicos hormônios. Obstetras e equipes obstétricas devem prestar atenção às suas enormes responsabilidades, que vão muito além do período perinatal. As questões devem ser colocadas em termos de civilização (1). (ODENT: 2001, 45)



*Resumo do artigo de Michel Odent, “New reason and new ways to study birth physiology”. In INTERNATIONAL JOURNAL OF GYNECOLOGY & OBSTETRICS. International Conference on Humanization of Childbirth. Brasil, Fortaleza. 2-4 de Novembro de 2000, pp. 39-45. (Resumo e tradução por Adriana Tanese Nogueira)

** Obstetra francês pioneiro no parto na água e de cócoras radicado em Londres fundador do Centro de Pesquisa Primal.

(1) “Until recently women could not deliver babies and placentas without releasing a complex cocktail of ‘love hormones’. Today, in many countries, most women have babies without releasing these specific hormones. Obstetricians and obstetric teams must be aware of their enormous responsibilities, which go far beyond the perinatal period. Questions must be raised in terms of civilization.” (trad. Adriana Tanese Nogueira)

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