HUMANIZAÇÃO: O QUE É ISSO?

November 1, 2016

 

Costuma-se usar a idéia de "humanizar" em vários sentidos. “Humanizamos um ambiente” quando o tornamos mais aconchegante e agradável. “Humanizamos um bicho” ao dar-lhe um nome e ao tratá-lo com os mimos e os cuidados que os humanos requerem. “Humanizamos a natureza” interpretando seus eventos e manifestações como moralmente “bons” ou “maus”. “Humanizamos os objetos” considerando-os animados e portadores de poderes especiais. E assim por diante.

 

 

Este é um processo essencialmente psicológico e é chamado de “projeção”. Jogar conteúdos próprios sobre outros é uma dinâmica psíquica presente em todo ato cognitivo. Segundo C. G. Jung, este é um instrumento epistemológico indispensável para o desenvolvimento do conhecimento e auto-conhecimento humanos.

 

Ao projetarmos conteúdos pessoais sobre os outros, damos vida às relações, sejam elas positivas ou negativas. Quando os conteúdos projetados são coletivos, pertencentes a um inteiro grupo social, culturas e religiões são criadas.


Não é, entretanto, nesse sentido que o conceito de humanização foi reintroduzido na história via obstetrícia e partos. Inicialmente vinculada ao resgate da fisiologia do parto e do uso das evidências científicas, a idéia de humanização incluiu rapidamente as questões de gênero e a perspectiva do protagonismo da mulher. Em suma, a humanização entra no scenário atual pela via feminina, o que traz consequências muito interessantes que, entretanto, não poderei tratar aqui, porque me extenderia muito.

 

Apesar de não haver um debate sobre o significado desse conceito e as perspectivas socio-psicológicas e obstétricas que ele abre, médicos obstetras de vanguarda sabem que não é “humanizado” o que muitos de seus colegas fazem e que espelha o conceito de “humanizar” expresso acima. Por exemplo, parto humanizado não significa evitar a dor (e fazer por isso uso indiscriminado de analgesia). Também, não se resume em oferecer quartos de hospitais coloridos e aconchegantes, ou tratar com carinho as parturientes. Por outro lado, humanização não é excluir a priori esses elementos. Humanização é simplesmente é muito mais do que isso.


Tentarei elaborar uma proposta para o conceito de humanização que não quer ser definitiva nem completa, mas oferece, a meu ver, um quadro de referência para estimular o debate e nortear as ações. Esta idéia atrai-me particularmente porque vem ao encontro de estudos que vinha levando adiante no campo da psicologia pós-junguiana e da filosofia. Além do mais, ela se aplica facilmente à prática psicoterapeutica-educacional que desenvolvo dentro e fora da ONG Amigas do Parto. Acredito possa dar uma contribuição para melhorar a relação e a prática obstétrica também.

 

É preciso, primeiramente, dedicar um momento de atenção ao objeto que está na raíz do conceito de humanização, o humano. Se o humano do qual estamos falando for o Homo Sapiens, que começou seu desenvolvimento 200 mil anos atrás, a conclusão será que somos todos humanos. Não haveria sentido algum falar em humanização, porque este é um status que todos alcançamos, é bagagem comum universal.

 

Agora, se ser “ser humano” for mais do que o status biológico de Homos Sapiens, humanizar é  geralmente identificado pelo senso comum com a cultura do momento histórico no qual se está. Esta identificação é feita de forma acrítica. Por exemplo, toda criança é educada e treinada para se inserir no modelo humano (antrolopógico) da sociedade na qual nasce, seja ela a dos Mongols do século XII, ou à de Nova York do século XIX, ou à dos aborigenas australianos do século XXI. Os jesuitas, em época colonial, criaram suas missões com o objetivo de “humanizar” os índios, o que, todos concordavam, significava catequizá-los e submetê-los à autoridade papal e a do rei de Portugal. Todos os indígenas das Américas sofreram a “humanização”: foram vestidos e batizados, sua cultura, identidade, nomes e história tiradas para conformá-los ao modelo de humano dos invasores. Os valores que norteavam a civilização branca católica ou  puritana dos séculos XVI e XVII explicam sua idéia de humano e justificam sua prática “humanizadora”.

 

Esta forma de “humanização” corresponde à projeção sobre o outro de valores culturais que não são deles e, ainda por cima, de forma autoritária. (Hoje não se faz mais isso, mas o uso seletivo e manipulado de informações dá o mesmo resultado). “Humaniza-se”, nesse sentido, sem fazer uso de senso crítico algum. Basta impor o que é considerado “bom”, sem dar alternativas.

 

O objetivo e o resultado desta humanização é criar uniformidade, eliminando diferenças e estranhamento. Este método tem o efeito psicológico de acalmar o espírito de quem sente medo perante aquilo que questiona suas “verdades”. Em suma, neste modo de pensar, humanizar é “tornar o outro igual a mim”.

 

Compreender os erros do passado é relativamente fácil, porque não estamos mais mergulhados neles. Difícil é enxergar os enganos do presente.

 

Quais são os valores que guiam a cultura atual?

 

Ações e sonhos coletivos se reunem entorno de algumas idéias de base. A primeira delas, é a busca do conforto material e das posses, conforme a crença que “ter é igual a ser”. O ganho material, monetário e pessoal é priorizado sobre qualquer outro objetivo.

Relacionada a essa crença há seu efeito complementar: a fuga de todo e qualquer sofrimento (sem parar para pensar no por quê e para quê se sofre). Para isso, faz-se uso indiscriminado e difuso de drogas, sejam elas as ilegais, como as legais, incluindo alcóol, cigarro, remédios psicotrópicos e os contra as dores.

 

A contraparte desse movimento de fuga é o sonho de uma vida fácil, de imediatos resultados, onde a felicidade se encontra ao alcance da mão, sem muito esforço. O que encoraja a falta de disciplina, auto-confiança, tenacidade, e força moral.

Para completar, vivemos na época do culto das personalidades: não importa o que se faz, nem como se faz. O importante é ser famoso e conhecido, ter a própria foto na mídia. Aparecer é ser.


Diante deste cenário, os obstetras que praticam a cesárea desnecessária e a medicalização do parto estão sem sombra de dúvida “humanizando” o atendimento. Não há esforço (da parte da mulher), o parto é rápido, “facil”, imediato (para ambos). O tempo que o médico se poupa lhe permite acumular mais trabalho, mais entradas monetárias e, por mantê-lo dentro da conformidade com seus colegas, lhe dá status. Do ponto de vista das mulheres, o tratamento de hotelaria que uma cesárea eletiva lhes proporciona, as coloca no mundo das personalidades pelo menos nos 3 dias de hospitalização, e as tira da labuta, da dor, do suor e das possíveis lágrimas que o parto natural pode lhes recordar por associação de idéias.


Nada de tudo isso tem a ver com a “humanização” à qual se refere a humanização do parto e nascimento, pelo menos conforme várias pessoas, entre as quais eu me coloco. Para chegar a um conceito mais  satisfatório de humanização é preciso voltar à sua raíz. O humano nas duas acepções tratadas acima é considerado uma condição adquirida ou definitiva. Um conjunto dado de características socialmente reconhecidas, que pertencem ao senso comum.

 

A meu ver, esta mentalidade já está ultrapassada. É preciso sair da visão newtoniana, que objetiva o indivíduo como uma entidade de estrutura fixa e definida no espaço e no tempo, e com caminho previsível.

 

Precisamos entrar numa nova era, alinhada com o futuro. Este futuro  começou a brotar mais de um século atrás em vários campos das ciências, especialmente a física e a psicanálise, mas já antecipados  anteriormente pelos saberes “não científicos”, como a filosofia e a teologia. Saimos de um universo estático e fixo, feito de objetos materiais definidos. Ingressemos naquele dinâmico e fluido, onde as coisas são fixas mas também móveis, são e não são, ou não são ainda,  apesar de serem algo agora. Um universo em que há espaço para evoluirmos.

 

Por evolução humana não estamos nos referindo àquela biológica. Não esperamos desenvolver mais dedos ou neurônios (apesar disso poder ser possível!). Queremos falar do que faz o humano, humano. A saber, isto chama-se consciência.

 

Consciência, ou cons-ciência, quer dizer ter “ciência com”. Esse “alguém” com que se produz consciência não precisa estar de fora, ao contrário. Apesar da consciência ser uma luz que aprendemos a acender seguindo o exemplo externo, ela é eminentemente uma dimensão pessoal e íntima.

 

A consciência é uma dinâmica individual e interior, onde há contraditório, questionamento, busca, dúvida, certezas não definitivas, etc. Muitas vezes, o que o ego quer é negado pela consciência. A consciênca não autoriza ou impõe determinados atos. Submeter-se à consciência quer dizer limitar voluntariamente os caprichos do próprio ego. Daí o fato de a consciência envolver um “outro” com o qual ela existe. Esta dualidade interior é a que torna possível o contraditório e o questionamento, eventualmente a chegada a uma conclusão, sempre transitória.

 

Por definição, a consciência exclui o pensamento autoritário, as verdades absolutas, as obsessões e os pensamentos fixos, as crenças rígidas, as racionalizações (automatismos racionais) e as identidades estanques. A consciência não pode crescer em meio a dogmas, teorias que viram tábuas da lei, repetição de pensamentos coletivos, slogans fáceis. Consciência não é manipulação de idéias.  

 

O ser consciente é sempre um ser dialógico, que sabe distinguir entre o eu e o outro, não descarregando conteúdos próprios sobre os outros. O ser consciente sabe argumentar suas escolhas sem recorrer à repetição do que ouviu ou outros disseram. O ser consciente assume  responsabilidades. E é capaz de atitudes individualizadas. Não marcha junto a exércitos, pensa e decide por conta própria.

 

Não é isso que a humanização fomenta? Profissionais que usem as evidências científicas para orientar sua prática, não como novos protocolos rígidos? Mulheres que se tornam ativas assumindo seus partos, e portanto dividindo a responsabilidade com os profissionais?

 

Humanização é saber questionar o que foi aprendido, averiguando e inovando, seguindo o que faz sentido agora, e não porque uma autoridade assim falou. Humanizar o profissional é individualizá-lo para que ele seja capaz de agir em primeira pessoa, não como um repetidor de informações dadas e nunca conferidas. Humanizar a gestante é dar-lhe condições de ser autônoma e independente, e não assustada e dependente.

 

A consciência é por definição uma dimensão essencialmente dinâmica e   evolutiva. Ela é dinâmica porque a verdade de hoje servirá para descobrir uma nova amanhã. Se pararamos de perceber as coisas, nossa   consciência também se apaga. Ela é evolutiva porque sendo alimentada   aumenta em intensidade e complexidade. Isso significa que se aprende a enxergar mais, mais fundo, mais alto, mais além. Enxerga-se interrelações e interconexões. Vê-se nas entrelinhas e se é capaz de   mixar percepções de níveis diferentes; aquelas verbais e lógicas com as intuitivas e sensoriais, cruzando informações e avaliando globalmente a situação presente.

 

O que fazer para fomentar a conscientização? Obtém-se esse resultado  quando se encoraja o pensamento crítico, isto é o questionamento e a  reavaliação de idéias, práticas e hábitos. O debate aberto e franco das idéias é um dos caminhos mais propícios.


Até agora, creio que tenha ficado claro que, para entender a humanização, precisa localizar o conceito antropológico ao qual ela se refere, ou seja, seu modelo humano. Sem este ponto de partida, estaremos na torre de Babel atual, onde vários usam essa palavra sem perceber que falam de paradigmas incompatíveis. Conforme a teoria das revoluções científicas de Kuhn, paradigmas diferentes possuem palavras em comum que denotam conceitos totalmente diferentes. E é exatamente o que está acontecendo hoje em dia.

Além disso, se não estiver claro o modelo humano, e portanto relacional, na direção do qual queremos caminhar, como podermos criar estratégias efetivas?


Se humanização é conscientização, o que isso significa no campo do saber? Significa que, desde que mundo é mundo, os seres humanos percorreram sua trajetória na terra ampliando seu conhecimento. Isto foi feito somente de uma forma: violando o status quo. Humano é quem rompe tabus, viola limites e ousa trilhar novos caminhos. Desde do primeiro antropóide que ousou descer dos galhos seguros de uma árvore e aventurar-se pela pradaria, sendo presa fácil de predadores (leiamRoy Lewis, “Por Que Almocei Meu Pai”). O percurso humano, no sentido ascendente e evolutivo, está marcado pelo questionamento de verdades dadas, pela experimentação corajosa e pela descoberta de novas verdades e horizontes.

 

Em síntese, humanização do parto e nascimento significa atitudes crítcas e autônomas que não justificam saberes autoritários para esconder o medo da mudança. Significa atitudes corajosas e honestas que possibilitem a individualização de todos os envolvidos. Cada mulher, cada parto, cada profissional, cada relação, cada dia é um dia, uma relação, um profissional, um parto, uma mulher diferentes.

 

O único jeito se sobreviver nesse cenário sem ter uma crise de nervos é abandonar comportamentos padrão e ser também tão únicos quanto únicas são as situações e as pessoas que se encontramos. Isso não quer dizer, desconsiderar os saberes já adquiridos. Ao contrário, isto permite seguir criticamente saberes, crenças, intuições, conhecimentos, tradições. Assumi-los com olhar crítico, averiguando na prática, observando, analisando, conferindo e aprimorando o conhecimento dado em confronto direto com a vida, tendo em vista sua complexidade de aspectos. Atitude científica correponde a isso.

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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