BEBÊS-OBJETOS: MAIS UMA RAZÃO PARA HUMANIZAR O PARTO

November 4, 2016

 

 

Pode-se dizer que o núcleo de toda neurose é viver-se na condição de objeto. A pessoa-objeto é aquela que perdeu sua autonomia e poder decisório. Ser objeto de uma emoção, de uma relação, de uma escolha (alheia ou própria) ou de uma mentalidade tira o sentido da vida.


A condição de objeto nasce por causa de uma relação. A identidade tem seu origem nas relações que moldaram a vida de um indivíduo. Querendo ou não tudo (ou muita coisa) começa na infância.

 

Ser tratado com objeto significa estar à mercê dos outros, do que eles decidem por nós, pensam que é melhor para nós, nos fazem fazer e nos fazem pensar. A pessoa objeto não tem escolha, que seja tratada como coisa rara e preciosa ou uma lata de lixo: qual é a diferença se lhe é retirada toda sua autonomia?

 

Quando eu tinha uns dez anos, testimunhei algo que me horrorizou. Uma vizinha, pouco mais velha do que eu, chegou um dia com uma gatinha nas mãos. O bichinho deveria ter um mês e pouco, era branquinho e fofo. Com o passar dos dias, vi a gatinha ficar com uma barriga enorme, mole e pesada. Inquietei-me, percebi que o animal vivia no colo, mamando leite da mamadeira e sendo acarinhado. Uns dias depois, a menina chegou sem gatinha: ela tinha morrido. O excesso de comida e de “carinho” a havia matado. O pobre animal não tinha escolha. Fosse adulto, teria arranhado sua dona e se libertado de seu colo sufocante. Mas sendo bebê, ele era impotente e indefeso. 

 

Respeitar os tempos e rítmos da outra pessoa faz parte de uma relação sujeito-sujeito. O outro não existe para satisfazer nossas necessidades, ele tem seu próprio universo ao qual atender. Cada ser humano é um mundo vivo, amá-lo quer dizer levar em consideração sua individualidade que é única, diferente da nossa, muitas vezes incompreensível, difícil de decodificar… enfim: o outro deve continuar sendo o outro, se o queremos manter em vida. O outro que perde sua alteridade, que é completamente dominado por nós, morre como indivíduo.

 

Desde quando uma pessoa deve ser considerada sujeito? Desde o ventro materno.

 

Forçar um bebê a sair do útero é tratá-lo como um boneco, sem necessidades, tempos e rítmos próprios. É privá-lo de sua autonomia antes mesmo dele poder respirar sozinho, ou seja se apaga sua chance de entrar dignamente neste mundo, como um vencedor, um superador de obstáculos, alguém que deu o primeiro passo e alcançou sua meta.

 

O mecanismo que dispara o trabalho de parto (curiosamente) ainda não é conhecido. Afinal, quem busca essas respostas são pesquisas médicas cuja visão de mãe e bebê é estritamente física. Ambos são corpos, combinações complexas de células que reagem a determinados agentes químicos. Não é da obstetrícia (pelo menos não desta que está sendo conduzida) levar em consideração outros fatores, como a psicologia da mãe e do bebê intrautero. Não é da medicina, por exemplo, dizer que uma mãe assustada não conseguirá parir, mas todo profissional competente-e-sensível sabe que é exatamente isso que acontece.

 

Agora, o que dizer do bebê dentro do útero? Por ele ser pequeno é menos do que um adulto? Tem menos sensibilidade, menos humanidade, menos tudo? Porque o coitado não pode xingar quem o sacode (já viram como é uma cesárea?) e arranca do seguro e aconchegante útero de sua mãe quer dizer que para ele está tudo bem? Não esperar pelo sinal do bebê, atropelá-lo com os interesses do sistema, a agenda do médico e da própria mãe é simples falta de respeito e consideração.

 

Afinal, ele é tratado como coisa. Preciosa e maravilhosa quanto se quer, mas sempre um objeto sem vontades, necessidades e tempos próprios. Algo que deve ser cuidado, não alguém com quem aprender a interagir. Coisas dão menos trabalho que pessoas.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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