PEIXES NÃO CONSEGUEM VER A ÁGUA: A NECESSIDADE DA HUMANIZAÇÃO DO PARTO

November 4, 2016

 

À luz de tudo isso, o Comitê para os Aspectos Éticos da Reprodução Humana e da Saúde das Mulheres – o FIGO (uma organização internacional que reúne as organizações obstétricas nacionais) – estabeleceu em 1999 que fazer cesáreas por motivos não-médicos é eticamente injustificável.


A humanização do parto tem a potencialidade de combinar as vantagens da medicalização ocidental com as vantagens de redirecionar os cuidados para honrar a natureza biológica, social, cultural e espiritual do nascimento humano. Há diversas estratégias para a humanização do parto, estratégias que colocarão as mulheres e suas famílias de volta no controle do nascimento de suas crianças enquanto dará poder a mulher para acreditar em si mesma tendo experiência daquilo que seu corpo é capaz de fazer.


A primeira estratégia é a educação. Quem controla a informação detém o poder. As transformações nos sistemas de informação estão revolucionando profundamente o sistema de saúde. O advento da internet e das conexões globais está tendo um intenso efeito no sentido de levar as informações a qualquer pessoa. Todos devem poder ver a água na qual médicos e hospitais estão nadando e ver que às vezes há tubarões que podem não comer médicos, mas comem algumas mulheres e bebês.

A necessidade de ampliar o horizonte dos médicos a respeito dos cuidados maternos não é um problema novo. Num livro médico do ano de 1668 se lê: ‘Médicos que nunca assistiram a um parto domiciliar e mesmo assim sentem-se competentes para falar contra, se parecem com aqueles geógrafos que nos dão descrições de muitos países que eles nunca viram.’


Precisamos pedir aos médicos que olhem para as águas nas quais os cuidados maternos humanizados acontecem a fim de poder obter um padrão fisiológico de referência para suas experiências. Num programa de treinamento obstétrico nas Filipinas, por exemplo, todo médico deve atender um número mínimo de partos domiciliares planejados. Todo programa de treinamento obstétrico deveria exigir visitas guiadas às Casas de Partos e a partos planejados fora do hospital. Enfermeiras obstetras necessitam da mesma experiência.


A educação das mulheres, especialmente daquelas grávidas, é de fundamental importância, mas aqui o problema é: o que é dito a elas. Em alguns lugares, os programas de pré-natal são controlados por alguns poucos obstetras que insistem em dar somente informações que lhes são convenientes. Diante das pesquisas mais recentes, para que os médicos tenham sucesso em promover a cesárea eletiva, é preciso que seu leque de informações seja extremamente limitado e selecionado. É altamente improvável que as mulheres escolham uma cesárea se recebessem todas as informações baseadas em evidências a respeito dos riscos inerentes para elas e seus filhos. O conceito ético-chave aqui não é o direito de escolher um procedimento cirúrgico sem necessidade médica, e sim o direito de receber e poder discutir amplamente e sem preconceitos todo e qualquer procedimento cirúrgico.


A segunda estratégia para a humanização do parto é a promoção de práticas obstétricas baseadas em evidências. Registramos o fracasso das tentativas feitas por revistas especializadas e pelas decisões da saúde pública que, em muitos lugares, tentaram preencher a distância que separa a realidade da prática obstétrica das evidências científicas. São poucos os médicos efetivamente preocupados com a situação.


Outra estratégia essencial para a humanização do parto é: quem é o profissional responsável dos cuidados básicos para as mulheres em trabalho de parto e parto. A insistência dos médicos em querer controlar sua própria prática com pouca ou nenhuma interferência da comunidade é uma tradição que remonta há muito tempo. Na medida em que os médicos controlarem o parto, as mulheres não estarão no controle e a humanização do nascimento não irá acontecer. As mulheres continuarão desempoderadas e persistirá o desperdício de recursos profissionais e financeiros.


Ao contrário, as parteiras têm uma longa tradição de atendimento ao parto colocando a mulher no centro e no controle, enquanto oferecem um tipo de suporte que irá empoderar a elas e a suas famílias. Por isso, é de extrema importância, segundo Wagner, que os cuidados maternos básicos sejam providenciados pelas parteiras. Em países como a Nova Zelândia, a Holanda e os países escandinavos mais de 80% das mulheres vêem somente a parteira durante a gestação e o parto (dentro ou fora do hospital). Nesses países registra-se também o menor índice de mortalidade materno-infantil.


Pesquisas de relevo têm apresentado mais quatro vantagens para promover parteiras autônomas. A primeira é que não há mais dúvida alguma de que elas são as mais seguras assistentes para partos de baixo risco. Após rever a extensa literatura baseada em evidências a respeito da segurança oferecida pelas parteiras, um recente artigo numa revista obstétrica conclui: “A procura da literatura científica falhou na tentativa de descobrir um único estudo demonstrando resultados mais negativos com parteiras do que com médicos para mulheres de baixo-risco – as evidências mostram que os cuidados praticados por parteiras são tão seguros ou mais seguros do que aqueles praticados por médicos.”


A segunda vantagem das parteiras sobre os médicos é uma redução drástica de intervenções invasivas desnecessárias. As evidências científicas mostram que comparadas aos médicos, as parteiras fazem significativamente menos amniotomia (ruptura da bolsa amniótica), menos soro, menos indução, menos monitor fetal rotineiro, menos anestesia, menos episiotomia, etc.


A terceira vantagem está relacionada aos baixos custos. Apesar das variações de país em país, geralmente os preços das parteiras são inferiores aos dos médicos. E, naturalmente, à reduzida intervenção corresponde uma grande economia de custos.

Outra vantagem com a assistência das parteiras, freqüentemente desprezada pelos advogados do parto medicalizado, é a satisfação das gestantes e das parturientes.


Mais uma importante estratégia rumo à humanização do atendimento ao parto é sair do território dos médicos, o hospital, para dar à luz fora dele. Sempre houve e sempre haverá mulheres que preferem partos  domiciliares planejados, mas com a maciça propaganda a respeito de quanto o parto é perigoso e de quanto o hospital é seguro, muitas mulheres caíram na falácia de que o parto domiciliar é perigoso. Numerosas pesquisas e meta-análises demonstraram a segurança do parto domiciliar planejado. A verdadeira questão então, não é esta, mas a liberdade e a santidade da família. Para mais de 80% das mulheres que não teve problemas médicos durante a gestação, o parto domiciliar planejado é perfeitamente seguro. Todo médico, hospital ou organização médica que desencoraja mulheres de baixo risco a escolher partos domiciliares está negando direitos humanos básicos, sonegando informações não preconceituosas e limitando a liberdade das mulheres para escolher seus locais de parto. O nascimento de uma criança é um dos mais importantes acontecimentos na vida de uma família e, quando uma família escolhe um parto domiciliar, sua santidade deve ser honrada.


Hoje em dia uma das possibilidades que as mulheres têm para serem atendida por uma parteira e poder fazer uma experiência empoderadora do parto, é escolher um ‘Centro de Parto Alternativo’ ou Casa de Parto.


A primeira característica da Casa de Parto é estar livre de ingerências do hospital. Aqui a mulher está no controle e o tipo de cuidado que recebe é bastante diferente daquele oferecido no hospital. No hospital a ênfase cai na execução das rotinas, aqui é na individualidade e livre escolha da mulher. Os protocolos de uma Casa de Parto estão pautados na normalidade e não na patologia e a dor é entendida como uma função fisiológica normal que pode ser aliviada com métodos não-farmacológicos amplamente embasados nas evidências.


As Casas de Parto são seguras para mulheres de baixo risco? Esta é a  pergunta chave na luta entre o modelo medicalizado e o humanizado de atendimento ao parto. As Casas de Parto representam uma grande ameaça para hospitais, para os médicos e para a inteira indústria de tecnologia obstétrica. Por ser o parto medicalizado extremamente caro, com internações pagas, obstetras altamente remunerados que usam tecnologia invasiva e cara, médicos e hospitais devem convencer o público e aqueles que controlam os fundos do sistema de saúde público de que seu modo é o único jeito seguro de atender partos. Assim, as Casas de Parto são classificadas como inseguras. Falando em segurança, o US National Birth Center Study não apresenta nenhum caso de mortalidade materna e um índice de mortalidade neonatal e intra-partum de 1.3 por 1000 nascidos vivos, uma taxa comparável com as taxas de partos hospitalares de baixo risco.


Para complementar esses estudos, há dados ulteriores a respeito da satisfação das mulheres: após um parto em Casa de Parto mais de 99% das mulheres disse que recomendaria a Casa de Parto para as amigas, e 94% disse que voltariam caso tivesse um segundo filho. 63% das mulheres que tiveram o parto em Casas de Parto tiveram um aumento de sua auto-estima, enquanto que somente 18% que deram à luz em hospitais tem um aumento de auto-estima.


Estudos nos EUA, na Dinamarca e na Suécia mostram que há também um significativo aumento da amamentação em mulheres que pariram nas Casas de Parto. 99% dos partos em Casa de Parto são vaginais, menos de 4% recebem indução e/ou ruptura artificial das membranas. Comparando todos os dados a respeito dos procedimentos das Casas de Parto e daqueles dos hospitais, devemos nos perguntar não se elas são seguras, mas se dar à luz num hospital é seguro.


Outra estratégia para a humanização do parto é integrar os profissionais que atendem em hospitais com os que atendem fora dos mesmos. Dados de lugares como a Austrália mostram que quando as parteiras que atendem partos domiciliares e os médicos dos hospitais  colaboram, poucos bebês morrem e todos aprendem com todos.


O parto é político. Uma estratégia fundamental para a humanização é a de ser politicamente ativos. Os políticos e as agências de governo tomam decisões cruciais. Os advogados da humanização devem alertar os políticos a respeito das táticas amedrontadoras dos elementos reacionários dos estabelecimentos médicos e de enfermagem que levantam a questão da segurança sem embasamento científico.


Outro argumento assustador de alguns obstetras é dizer que os partos fora do hospital transportados para o hospital são sempre casos muito graves. A resposta é: naturalmente! Uma parteira competente irá transportar para o hospital somente aqueles casos que apresentam sérios riscos e que requerem intervenção cirúrgica. Assim, para os obstetras que nunca atenderam partos domiciliares (em muitos lugares praticamente todos) estes casos são sua única experiência de partos fora do hospital, assim concluem erroneamente que esses casos são representativos. É por isso que é preciso que atendimentos de partos  domiciliares sejam parte do treinamento dos obstetras.


As táticas assustadoras são motivadas pela necessidade de alguns médicos de proteger os cuidados maternos como seu território. Freqüentemente eles confundem os políticos com um linguajar técnico incompreensível que implica que somente os médicos podem entender da coisa e querem induzir os ouvintes a confiarem cegamente neles.


A solução final consiste em envolver novas formas políticas e sociais para o atendimento obstétrico e os cuidados maternos. Há alguns médicos se esforçando para encontrar novas maneiras de exercer sua profissão. A tendência é respeitar e trabalhar com a natureza. Tudo a respeito de gravidez e parto é altamente cultural. O controle local leva ao empoderamento das mulheres que, por sua vez, reforça a família e a sociedade.


As pessoas têm nadado no mar primordial fisiológico, social e cultural por um longo, longo tempo. Podem ver a água, sabem onde estão os tubarões e são capazes de encontrar eventualmente seu caminho para a reivindicação da humanização do parto.


* Resumo e tradução por Adriana Tanese Nogueira. Texto original em: Marsden Wagner. “Fish can’t see the water: the need to humanize birth”. In INTERNATIONA JOURNAL OF GYNECOLOGY & OBSTETRICS. International Conference on Humanization of Childbirth. 2-4 November 2000, Fortaleza, Brazil.


Marsden Wagner é pediatra americano, foi diretor na OMS.

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