HUMANIZAÇÃO E PERDA: QUANDO ENGRAVIDAR É DIFÍCIL

November 16, 2016

 

Eu e meu marido temos problemas pra engravidar. A morfologia e motilidade dos espermatozóides dele é muito ruim, o que diminui para  quase nada nossas chances de engravidarmos naturalmente.

 

Por causa disso no ano passado fizemos uma FIV, transferimos três embriões e para nossa surpresa engravidamos dos três. Eu me lembro que o médico da clínica de fertilização ficou muito surpreso e um pouco preocupado. Eu sabia que uma gestação trigemelar era uma gestação de risco, mas a gente sempre acha que tudo vai correr bem.


Com 21 semanas e 5 dias de gestação eu entrei em trabalho de parto. Eu não sabia que era trabalho de parto. Todos os médicos têm a mania de dizer que a gente sabe quando a gente entra em trabalho de parto, e talvez, de uma forma inconsciente, eu soubesse, porque eu não sentia dor. Sentia apenas minha barriga ficando dura e uma pressão no baixo ventre.


Eu senti que alguma coisa estava errada e pedi para o meu marido me levar ao médico. E aí as coisas complicaram.


Eu já estava com 2 cm de dilatação, me lembro da médica dizendo “bolsa protusa”. Me lembro que eu fiquei PUTA da vida com a médica, porque ela não queria me falar nada. Mas eu sabia que era grave, e, de alguma maneira, sentia que as coisas não iam acabar bem.


Eu fui admitida e medicada, mas durante a noite (eu passei a noite toda acordada sem comer e sem beber absolutamente nada) eu até achei que havia uma esperança.


No dia seguinte as coisas pareciam melhores, meu médico me examinou, parecia tudo bem, até eu sentir algo entre as pernas. Era sangue.


Eu sangrei muito durante meu trabalho de parto. Meu médico me explicou que era por causa do colo mesmo, que não eram os bebês (meu maior medo naquele momento).


E eu realmente fui várias vezes ao banheiro por causa de fezes e de urina. Tenho certeza que havia fezes durante o parto também, mas eu não estava preocupada com isso.


Muito se fala em humanização do nascimento, e eu não posso descrever como a conduta do meu médico foi importante para mim. Eu fui anestesiada (não me passou pela cabeça não levar uma anestesia apesar do medo que eu sempre tive dela) e os bebês nasceram de parto normal. Não foi feito nenhum procedimento de rotina (com certeza porque os bebês obviamente não iam sobreviver e, por isso, o risco de uma suposta infecção era irrelevante), e eu percebia nitidamente no meu médico uma preocupação comigo e com me manter num ambiente de respeito por aquele momento tão duro para nós. Não era possível evitar o inevitável, mas era possível fazer daquele momento um momento de respeito e silêncio, por mim, pelo meu marido, e por meus três filhos que nem chegaram, já se foram. Isso é humanização para mim.


Acho que muitos médicos hoje se concentram tanto nos procedimentos que se esquecem que ali está um ser humano, e que se para eles é infelizmente comum este tipo de acontecimento, para mim com certeza não é. Eu estava ali perdendo a única gestação que eu tive até hoje, conseguida à duras penas. Os três filhos que eu já amava tanto. E eu sou eternamente grata por ter aquele momento de dor tão respeitado por ele e pela equipe que estava com ele.


Eu não vi meus filhos vivos (a terceira morreu dentro de mim, foi preciso me sedar pra abrir o colo do útero e retirá-la, não sei porque isso aconteceu), em parte porque não sabia se ia agüentar, em parte porque a equipe médica não me ofereceu mais de uma vez. Demorou bastante tempo para eu aceitar que fiz o que estava em condições de fazer naquele dia. Senti falta de ter alguém ali que já  tivesse passado por isso para me ajudar. Mas foi ironicamente por causa de um episódio de um seriado, que eu fiz questão de ver o corpo dos meus filhos. De alguma maneira eu precisava ver as crianças para ter a certeza de que eles haviam realmente estado dentro de mim. E apesar de ter sido um momento duro, eu sou muito grata por ter feito isso, por tê-los visto.


Meu médico me conhece, sabe que eu sou uma pessoa que apela para o lado racional das coisas, para não enlouquecer, e ele foi muito claro comigo sobre o que estava acontecendo. Eu sabia que se os bebês nascessem eles não iam sobreviver. Foi MUITO mais duro para meu marido. Ele jamais contou com isso, ele não estava de maneira nenhuma preparado. Durante muitos dias eu tive medo que ele não conseguisse se recuperar.


Depois de tudo isso que aconteceu, eu tenho lutado muito com meus sentimentos e impressões e conceitos. Eu participei de um dos primeiros cursos de humanização do parto feito pela ONG Amigas do Parto, e tanta coisa mudou depois de tudo isso. Parece que as nossas  prioridades mudam de uma forma estrondosa. Hoje tudo o que eu quero é um filho vivo em meus braços, da maneira que for.


Eu continuo querendo um parto natural. Mas hoje, eu não teria coragem de fazer um parto domiciliar. Acho que eu estou brigada com meu corpo, por ele não ter conseguido manter a gestação que era tão importante para mim. E eu que sempre fui holística, eu fazia acupuntura, tomava homeopáticos, florais, praticava yoga... Hoje parece que nada disso faz sentido e eu entrei numa fase de acreditar apenas no que pode ser cientificamente provado. Não consigo sair deste redemoinho, porque o preço que eu paguei por acreditar em mim mesma e na minha intuição que me dizia que algo estava errado foi alto demais.


Estou agora estou fazendo um novo ciclo de FIV, e se tudo der certo desta vez eu devo estar grávida muito em breve. E isso também me apavora, porque uma coisa é a gente viver a vida achando que as coisas ruins só acontecem com os outros, outra é saber que de um dia para o outro tudo pode ser tirado de nós.


E ao mesmo tempo eu continuo querendo um parto natural, dentro do que for possível dentro de um hospital. Eu já conheço a dor das contrações, eu já conheço a dor de perder um filho, eu quero conhecer os sentimentos contrários, o do prazer de parir e o da alegria de ter um filho nos braços, mas estou perdida numa necessidade de acreditar e numa teimosia de não querer.


Andressa B. Fidelis tem 28 anos, é professora e mora em Belo Horizonte (MG). E-mail de contato: andressafidelis@gmail.com. Nota: Este texto foi escrito em 2006. Hoje Andressa é mãe de 2 belos filhos.

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