ATENDIMENTO AO RECÉM-NASCIDO - ENTREVISTA COM O DR. CARLOS EDUARDO CORRÊA

January 26, 2017

 

Do ponto de vista do bebê, o que significa um nascimento humanizado? 
R: A humanização da assistência ao bebê significa propiciar contato íntimo e permanente entre a mãe e o bebê desde o nascimento até a alta hospitalar (nos partos hospitalares), dando condições para que esta relação seja prazerosa para ambos. Algumas vezes será necessário auxiliar a mãe no lidar com a criança, que poderá surpreendê-la se comportando de uma maneira inesperada, por exemplo no caso em que o bebe é colocado no colo da mãe na sala de parto e continua chorando, não se acalma. A mãe pode se sentir insuficiente para as necessidades deste bebê. Conseguir perceber qual é esta situação e atuar de forma a reforçar as habilidades maternas é a essência da atenção humanizada no nascimento. Preocupa-me quando a discussão da atenção humanizada fica centrada no colírio e na injeção de vitamina K, pois considero que a atuação humanizada do pediatra é muito mais do que isto.


Você acha possível humanizar o nascimento com os protocolos hospitalares ainda em vigor nas maternidades?
R: Com certeza. Apesar dos protocolos, a humanização da assistência, como já disse, é tentar driblar as rotinas permitindo a proximidade da mãe e do bebe, e não o que será feito no bebê, mas garantir que tudo possa acontecer na presença da mãe e que ela esteja esclarecida e preparada para lidar com as necessidades do bebê, durante e após estes procedimentos (quando necessários). Quais são as melhores condições ambientais para o nascimento e para os primeiros meses de vida do bebê?
R: Cada bebê tem suas próprias carências e necessidades. Esta pergunta me lembra outra: "O bebê pode sair de casa? Posso ir ao shopping com ele?" Só descobriremos os desejos e aversões deste bebê conforme ela possa viver estas experiências. Acho que é importante para mãe criar um ambiente agradável para ela e que o bebê possa se integrar a este ambiente, e conforme as experiências vividas por ambos forem acontecendo, esta mãe poderá conhecer os gostos de seu bebê. Quando este tiver que viver alguma situação da qual não goste, ela deverá estar pronta para lidar com seu desconforto (o famoso colo da mãe), para minimizar seu sofrimento.


Você acha seguro para o bebê o parto domiciliar?
R: Acho que o parteiro e o pediatra poderão conhecer a mulher, sua gestação e as condições nas quais o parto irá acontecer, então discutir com ela a possibilidade do parto acontecer no domicilio. Cada caso é um caso. De forma geral um parto é um evento tranqüilo que irá acontecer naturalmente, e sendo assim não acho que haja uma contra-indicação para que aconteça em casa. Eu trabalho para garantir o direito da mulher fazer esta livre opção, da forma mais segura possível. Acho que o ideal é entender que é um direito ter seu bebê em casa, e que caso haja alguma necessidade especial não previsível para a mãe ou bebê, que possamos transferi-los para uma unidade neonatal da forma mais segura possível. 


A Organização Mundial de Saúde considera os berçários como nocivos, entretanto a maior parte das maternidades privadas e públicas ainda os matêm, como você explica isso?
R: Preciso esclarecer aqui uma questão. O que a OMS chama de berçário "nocivo" é o berçário de bebês normais, que é completamente desnecessário quando mães e bebês estão em boas condições de saúde. Entendemos que o período pós-parto é natural e que as mães podem e devem ficar com seus bebês por se tratar de um momento mágico, especial para os dois. Na maioria das maternidades públicas isto não há mais berçário. Infelizmente nas maternidades privadas ainda é comum. Pergunto-me se as mulheres se sentem incapazes de cuidar de seus bebês no pós-parto, da mesma forma que se sentem incapazes de ter seus filhos por parto normal. A medicina está inserida na sociedade, e responderá a esta demanda conforme ela existir. Tivemos uma discussão estes dias no hospital público em que trabalho sobre este tema, porque as auxiliares de enfermagem que trabalham no centro de parto normal, procuram outros hospitais na hora do seu parto, para garantir que seu parto seja cesáreo. Acho que o problema não é simples, porque neste momento a maioria das mulheres ainda prefere o parto cesáreo. É claro que temos que discutir que parto normal é este, antes de fazer esta opção. 


É verdade que quando estão no berçário os bebês recebem freqüentemente água glicosada e/ou leite artificial? Por quê?
R: Se um bebe é separado da sua mãe ao nascimento, se não mamou na sala de parto será necessário alimentá-lo. Quando os partos passaram a ser feitos em hospitais, o bebê passou a ser visto como um ser com uma gama de possíveis riscos, um ser incapaz de mamar ou de manter sua taxa de açúcar no sangue. Foram criadas aí as rotinas para minimizar estes problemas, que em algumas instituições perduram até o momento.


O que você aconselha às mães que irão dar à luz em hospitais e que querem evitar intervenções desnecessárias em seus bebês?
R: Conhecer o hospital. Conhecer o responsável pela neonatologia e avaliar a possibilidade de negociar quais as intervenções necessárias, e quais rotinas podem ser modificadas. É uma maneira de avaliar a flexibilidade da instituição, principalmente se houver a internação do bebê. Levar seu próprio pediatra, assim com seu obstetra.
Como se pode humanizar o nascimento de um bebê prematuro?
R: Da mesma forma que o de um bebê a termo. Acolhendo, aconchegando este bebê diante dos procedimentos que serão feitos nele. Por isso é importante conhecer a maternidade. Se ela não permite a presença dos pais 24 hs ao lado do seu filho, como poderá ser realizada qualquer atenção humanizada?


Em que situações o método Canguru pode substituir a UTI Neonatal?
R: O método canguru é um modelo de assistência humanizada a bebês prematuros que tem 3 etapas. A 1ª é na UTI Neonatal, que tem por finalidade aproximar a mãe do bebê durante o período em que ele estiver lá. A 2ª na enfermaria canguru, quando mãe e bebê permanecem juntos ainda dentro do hospital para aproximar mais ambos, para que a mãe possa reconhecer sem ajuda de aparelhos, sinais de mal estar de seu filho, melhorar sua maternagem e praticar o aleitamento materno. A 3ª corresponde ao seguimento ambulatorial do bebê.


Você incentiva a primeira mamada ainda em sala parto? Por que?
R: Eu estimulo o contato físico da mãe com seu bebê na sala de parto, e se a amamentação acontecer melhor. Este é um momento especial para ambos. O ideal é que façamos o menor numero de intervenções possível, e que a mãe seja estimulada desde o trabalho de parto, nascimento e pós-parto a se comportar de forma espontânea e natural, e a amamentação deverá seguir este principio, acontecendo naturalmente entre eles. As intervenções devem ser feitas quando solicitadas, e aí sim o aleitamento deve ser sugerido e estimulado.

Carlos Eduardo Corrêa é pediatra e neonatologista, consultor em aleitamento materno pela IBLCE, Instrutor de reanimação neonatal pela SBP, Avaliador do programa Hospital amigo da criança pelo MS. Mora em São Paulo (SP).

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