COMO É DIFÍCIL PARIR! EM BUSCA DO PARTO HUMANIZADO...

Como ter um parto humanizado quando se quer fugir do SUS e de seu parto normal, não se tem plano de saúde e não se pode pagar as cifras pedidas pelas poucos profissionais humanizados? Este é o dilema de muitos e muitos casais.

Marina e Filipe são um jovem casal do Rio de Janeiro em sua segunda gestação. Como muitos outros casais brasileiros enfrentam algumas dificuldades em conseguir um parto humanizado. Os entrevistamos porque sua situação é paradigmática e sua escolha uma denúncia da realidade obstétrica brasileira.

AP: Marina, onde foi seu primeiro parto? E como foi? R: Meu primeiro parto foi na cidade de Três Rios, estado do Rio de Janeiro, no único hospital da cidade, e foi pelo SUS.

Eu senti que poderia ser muito melhor do que foi, mas infelizmente a realidade do atendimento e assistência nos hospitais é triste. Fiquei no corredor, porque não havia vaga no quarto, não pude ficar na posição que sentia que seria mais fácil e confortável para mim, nem durante as contrações e nem na hora em que o meu filho estava nascendo, sem contar que meu marido, Filipe, não pôde assistir ao parto.

Este hospital, como a maioria deles mantém também a rotina de colocar o "soro" que induz as contrações, para acelerar o nascimento do bebê e liberar vaga. Também realizar rotineiramente a episiotomia, aquele corte que eles dão para ajudar na saída do bebê, e que muitas vezes não é necessário.

Parir no hospital não foi uma experiência boa para mim, nem para meu marido e acredito que nem para meu filho. A gestante tem que se submeter à toda rotina horrível e exaustiva do hospital, não podendo fazer nada espontaneamente, nem de acordo com as suas próprias necessidades individuais e momentâneas do processo do parto.

AP: Filipe, você estava presente? Qual foi sua experiência? R: Estava presente, mas não pude presenciar o parto. Na verdade nem pude presenciar nada. Chegamos no hospital às 7h00 e fui orientado a aguardar na portaria do hospital, onde seria avisado quando meu filho nascesse e poderia aí sim vê-lo. Fiquei nessa mesma portaria até as 15h30 sem notícias, sem poder ver como estavam conduzindo esse momento tão mágico para minha família e tão mecânico e quase indiferente para eles, sem direito nenhum, quase como se não fizesse parte desse momento. A minha experiência em relação ao nascimento, quando vi meu filho do lado de fora da barriga, quando pude conhecer, ver seu rosto e cada detalhe, foi presenciar o milagre da vida, é a prova da perfeição da natureza, da vida! Em relação à situação do nascimento no hospital foi de ter sido excluído e privado de um dos momentos mais valorosos que temos em toda a nossa vida.

AP: Quais são as lições que você Marina aprendeu com este parto? R: Aprendi que, ao contrário do que a gente pensa diante a inexperiência do primeiro filho, o parto não depende de nenhum médico para acontecer, é a mulher juntamente com a natureza que o conduz. Por isso neste momento é preciso estar em um ambiente que nos ofereça o mínimo de conforto e independência para nos conectarmos com nosso corpo e vivermos integralmente a experiência do parto e do nascimento de nossos filhos, com o apoio e o aconchego da família, principalmente do pai.

AP: E você, Filipe? R: Eu aprendi que a maioria das pessoas que se dispõem a ser responsáveis por cuidar da saúde alheia, não têm o menor respeito pelos outros e, sinceramente, acho que nem lembram que existe o respeito pelo próximo. Fora isso, com a experiência que a Marina teve e eu que não pude presenciar o parto, tenho certeza de que não há necessidade de se submeter a uma situação desse tipo para realizar algo que somos feitos para fazer. Vimos na internet alguns partos domiciliares, buscamos informações e vimos que somos capazes de realizar por completo a concepção e parturição desse novo ser sem intervenções desnecessárias e desrespeitosas de desconhecidos.

AP: O que desejam para este segundo parto? R: Desejamos que seja da forma mais humana e natural possível, sem intervenções desnecessárias, sendo assim mais tranqüilo e mais confortável para mim e para minha família. Por isso decidimos optar pelo parto domiciliar, que nos proporcionará segurança, mais liberdade para me movimentar de acordo com as minhas necessidades individuais, e o acompanhamento do meu marido e família, ou seja, tudo que a maioria dos hospitais não nos oferece, tornando mais prazeroso, fácil e completo este momento que é único e mágico na vida das pessoas.

AP: De quantas semanas você está, Marina? R: Estou com exatamente 27 semanas de gestação.

AP: Quando vocês começaram a procurar um atendimento em sintonia com suas necessidades e escolhas? R: Pouco depois que descobrimos que eu estava grávida, pois tive certeza que não queria passar por uma experiência parecida com o nascimento do meu primeiro filho, que me deu toda noção da realidade do parto em relação a mim mesma. Então meu marido e eu conversamos, e decidimos estudar outras possibilidades para o nascimento do nosso segundo bebê.

AP: O que encontraram? R: Ficamos muito felizes de constatar que realmente havia outras possibilidades mais bonitas e satisfatórias para nós. Apesar da falta de consciência e conexão de muitas pessoas que tentam interferir na vida e nas escolhas alheias, encontramos muitas pessoas dispostas a ajudar e nos fortalecer com apoio e informações para nos tornarmos ainda mais seguros.

É maravilhoso para mim, pensar que quando chegar a minha hora, e quando eu estiver sentindo a minha dor, não vou ter de me deslocar do aconchego do meu lar e da minha família e me deparar com um ambiente agitado, estressante, com um monte de gente desconhecida para ganhar meu bebê; de que não vou precisar me submeter a nada que eu não queira, de que meu marido vai estar junto a mim, e também que eu vou ter toda independência da qual meu corpo precisará para que eu tenha um ótimo parto.

AP: Quais são as principais dificuldades em conseguir um atendimento humanizado? R: Principalmente a financeira, pois o custo de se ter um parto domiciliar assistido é muito alto, e ainda existem poucas pessoas fazendo um atendimento humanizado.

AP: Marina, o que você acha da situação médica obstétrica até onde a conhece? R: Claro que existem profissionais que fazem o que fazem muito bem e com gosto, mas está ficando cada vez mais difícil encontrá-los, e quando os encontramos, não temos condições de pagá-los, pois uma boa assistência está ficando cada vez mais fora do alcance financeiro das pessoas.

Acho que a maioria dos profissionais que se encontram por aí, estão despreparados para assistirem as pessoas, e estão cada vez mais por fora de proporcionar às mulheres um parto tranqüilo e seguro.

AP: Quais são seus projetos? R: Primeiramente de realizar meu parto em minha casa, com o auxílio da minha família. No momento é para isso que estamos nos preparando, sem intervenções médicas desnecessárias, e sem nenhuma dificuldade a mais imposta por um ambiente que está alheio às minhas necessidades nesta hora. No mais compartilhar essa experiência com pessoas próximas para que elas também possam partir para novas e melhores escolhas para si mesmas.

AP: Isso quer dizer que você não vai ter nenhum profissional médico para te assistir no parto? R: Sim, estamos nos preparando para sermos totalmente ativos durante o processo, cuidando de tudo, desde o ambiente, até o corte do cordão e os cuidados com o bebê, sem a presença de nenhum profissional.

AP: Como você se sente a respeito? R: Me sinto muito segura e realizada, pois confio plenamente na natureza e acredito que meu corpo é completamente preparado para este processo.

AP: Então quer dizer que os poucos profissionais humanizados que encontrou não são acessíveis à maioria das mulheres? R: É pelo menos aqui no Rio podemos dizer que sim, pois dos profissionais que encontramos não tivemos condições de pagar nenhum deles. Realmente é muito caro, de 4 mil para cima.

AP: Vocês têm plano de saúde? R: Não, não temos plano de saúde.

AP: Sem plano e não podendo pagar as cifras exigidas pelos profissionais humanizados fica realmente complicado promover a humanização do parto entre as usuárias. Parto humanizado virou parto de luxo. Uma última pergunta: o que diria às tantas mulheres grávidas que como você estão em busca de um parto de acordo com elas e suas necessidades? R: Diria a elas para continuarem buscando, pois certamente existem outras possibilidades maravilhosas para o momento do parto, e que não é preciso aceitar essa situação de parir nas condições que os hospitais nos impõem.

É necessário romper e vencer, além dos mitos, a insegurança que nos cerca, e também de nos percebermos verdadeiramente diante toda essa confusão de interesses que nada tem haver conosco, nem com o sentimento humano.

AP: E o que pediria aos profissionais? R: Que realmente tivessem a sensibilidade de preparar as pessoas, e não anulá-las de sua individualidade; que se colocassem no lugar que melhor lhes cabe, que exercessem suas profissões com o mínino de dignidade e respeito, o que infelizmente na atualidade se tornaram artigos de luxo.

#Realidadeobstétrica

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