DAR À LUZ HOJE

January 29, 2017

 

 

O parto hoje deixou de ser um evento normal como era para nossas avós. Vejamos um curto depoimento:

 

“Sou gestante de aproximadamente 10 semanas, esperando meu segundo filho, e estou desesperadamente em busca de um bom profissional médico praticante do parto humanizado ou natural... Gostaria de obter informações sobre bons profissionais desse tipo, bem como maternidades ou clínicas que atuem dentro dessa linha, na cidade de São Paulo. De posse de informações, poderei averiguar onde me encaixo melhor nos quesitos: valores, distância, confiança, etc. Sinto-me totalmente perdida, assustada, fiz cesárea no primeiro parto (por necessidade, segundo o médico, óbvio) e não desejo voltar a fazer. Odeio o modo mecânico e antinatural como as coisas estão sendo encaminhadas, o descaso e a arrogância dos obstetras e médicos em geral, e a maneira descuidada e omissa como as parturientes e os recém-nascidos são tratados.


Esclareço que sou de classe médio-alta, profissional renomada, tenho 32 anos, grau de escolaridade superior, casamento sólido e feliz, tenho um bom e lucrativo emprego. O que quero dizer com isso: não acontece somente nas classes baixas, sem acesso e sem cultura. Acontece com todas nós!!! Socorro, amigas! (Arabela)” [1]


Esta mensagem é um bom reflexo da situação em que se encontra a obstetrícia no Brasil. Revela que o problema não atinge só as mulheres das classes carentes. Estamos diante de uma situação em que ao poder aquisitivo não corresponde necessariamente um bom atendimento. Não basta pagar caro para ter um bom parto. As melhores maternidades das grandes cidades não asseguram uma experiência de parto satisfatória para muitas mulheres. Um parto não é satisfatório só porque a mulher e/ou o neném não sofreu, stress no nascimento, hemorragias, internações prolongadas e quanto mais.


Um parto é bom quando deixa a mulher inteira, no mínimo contente consigo própria (e não somente porque está com seu bebê no colo), quando é respeitada (e se sente respeitada), é informada sobre os procedimentos que vão ser efetuados e, possivelmente (eventualidade raríssima) lhe é solicitado o consentimento para a realização de alguns deles, quando seus direitos como cidadã e ser humano são reconhecidos. Só para termos uma noção do que é uma experiência de parto altamente insatisfatória e, contudo, freqüente, vejamos este curto depoimento:

 


“Meu parto foi a experiência mais dolorosa (em todos os sentidos) e frustrante de minha vida. Foi desumano, muito triste. Quando me lembro, tenho vontade de chorar, só me consolo tentando esquecer e pensando na criança linda e saudável que tenho agora comigo, graças a Deus! Foi fórceps. Não conhecia ninguém na sala do pré-parto, não sabia como tinha que proceder. Tive a sensação horrível de que me deixaram sofrer porque eu não colaborava com o que esperavam de mim. Triste, triste. Eu sonhava com um parto normal... (Flávia)”[2]


Esse tipo de situação, infelizmente, não é rara. As mulheres geralmente não são informadas sobre o que está acontecendo com elas, nem nos hospitais públicos, nem nos particulares. O que é do âmbito médico permanece em “segredo”. A parturiente é “paciente”, um corpo sujeito à intervenção médica. Uma vez que ela está lá e está pagando o profissional, fica subentendido que ele recebeu a autoridade para fazer tudo (ou quase) o que ele (com sua formação, cultura, hábitos e crenças) julgar necessário. Nenhum procedimento de rotina é comunicado às parturientes. Muito menos é perguntado a elas se os aceitam. Não só. Durante o pré-natal, inclusive dos “obstetras cinco estrelas” (porque, repito, essa não é uma questão que muda com a classe social da parturiente, uma vez que frente ao médico são todas “pacientes”), não é explicado à mulher como é o parto normal hospitalar, nem como é que acontece uma cesárea. As mulheres vão ao hospital vedadas. Não sabem o que as espera. Muitas delas podem até, sob sugestão do próprio profissional, ter visitado a maternidade, para se “ambientar”, para conhecer o quarto, o berçário e a sala de parto. Mas ninguém lhes diz o que passarão lá dentro, quais são suas opções e quais seus direitos.


Dar à luz hoje se tornou uma façanha para a mulher que quer estar consciente e ser ativa durante o nascimento de seu filho. O movimento pela humanização do parto nasceu para contribuir para uma mudança efetiva nesta direção: oferecer o suporte físico, psicológico com informações de qualidade e orientações para que ela possa viver seu parto com segurança, satisfação e plenitude.


Este texto foi extraído da dissertação de mestrado de Adriana Tanese Nogueira: “A carne se faz verbo – o parto de baixo risco visto pela ótica das mulheres”. Puc/SP novembro de 2004.

NOTAS

[ 1 ]Depoimento colhido via internet em julho de 2002
[ 2 ]Depoimento colhido via internet em julho de 2002

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags