ENANTIODROMIA

February 8, 2017

 

 

Os excessos geram sofrimento. Já sabemos. Porém, continuamos caindo nas suas armadilhas. Observemos seus efeitos na obstetrícia. Por um lado temos a técnica médica a serviço do parto que nos levou ao quadro atual, com o predomínio do parto cirúrgico, e por outro, o movimento de humanização do parto, fazendo o contra ponto.

 

Vejo mulheres que sonham, planejam seus partos. Sonham em "se empoderar", usando a linguagem deste movimento em direção ao parto natural. E o que acontece quando a natureza, aquela mesma que foi invocada e reverenciada como perfeita, se mostra no seu reverso, em sua sombra? O empoderamento se transforma em profunda frustração, a qual é projetada no exterior, isto é: no hospital, no médico, na anestesia, nos arredores. Como se supostamente não tenha dado certo.

Mas pergunto: o que não deu certo? O que é mais importante no trabalho de parto e no parto?

É a vida nova que precisa ser cuidadosamente protegida no seu trajeto de sair do casulo.

 

Desde que a mulher se torna grávida, começa o processo do sacrifício do ego. Abrir mão das nossas convicções, vontades, prazeres em função do bem-estar da vida que está sendo gerada, somos responsáveis por ela. O ponto máximo é o parto, quando nos rendemos ainda mais. Como na música de Gilberto Gil:

 

"...lamber o chão dos palácios suntuosos dos meus sonhos

Tenho que me ver medonho...

O que ao final vai dar em nada,

nada, nada, nada, nada,

nada, nada, nada, nada,

Do que eu pensava encontrar".


É preciso reensinar às mulheres a buscarem o parto natural mas, em igual medida, dize para as que não puderem ter seus filhos assim: não se sintam diminuídas...  Ao contrário, que benção estarmos vivas neste tempo em que temos recursos técnicos que permitem salvar mães e bebês. O parto é um momento no tempo, enquanto a maternidade é projeto de uma vida inteira. Nascemos como mães quando nasce nosso filho; ele é o princípio e o fim de nosso esforço, de nossa entrega, de nosso amor. É o que nos move do fundo... do fundo... do fundo da alma.

 

Enantiodromia é a palavra que traduz um estado em que  uma quantidade de energia psíquica em seu ponto máximo de expressão se transforma em seu oposto. O movimento de uma gangorra ilustra este mecanismo psíquico. Quando brincamos nela é preciso dois, um em cada lado. O máximo de um é o mínimo do outro e neste momento ocorre o impulso que  transforma um no outro. Assim sucessivamente. Com isso, quero dizer, que precisamos  cuidar para que a humanização do parto não nos amasse como mulheres e mães. Cuidar para que o julgamento que vem pelo nosso aspecto masculino inconsciente não domine nosso coração feminino.


Ilustro com dois casos clínicos

 

Primeiro caso. S., 40 anos, quarta gestação. Nas duas primeiras gestações teve partos normais e em casa. A terceira gestação com tudo preparado para o parto em casa, depois de 20 horas de trabalho de parto foi para o hospital... parto cirúrgico. Quarta gestação, dois anos depois da cesariana prévia. Preparou-se novamente para o parto domiciliar. A ecografia com 39 semanas mostra um bebê grande, 4200g. Entrou em trabalho de parto e oito horas depois, com a bolsa rompida  ainda estava com 2 cm de dilatação e, em um estado de exaustão física e emocional, o que lhe impedia de continuar suportando a dor da contração; queria anestesia e, para isso, o hospital. A parteira aconselha que espere mais um pouco, pois a anestesia peridural é feita  em torno dos 6 cm de dilatação. A sequência de dor... ansiedade... medo... dor... hospital.

 

O obstetra considerou que o caso era de cesareana pela seguinte avaliação: apresentação alta, 5 cm de dilatação após 14hs de trabalho de parto, bebê de 4200g, quarta gestação, cesarea prévia há dois anos e frágil controle do estado emocional.  

 

Todo este processo foi extremamente desgastante para S. e sua família, assim como para as pessoas envolvidas diretamente, parteira e obstetra. S. viu-se tomada pelo sentimento de frustração, de ter sido roubada, impossibilitada de se sentir empoderada, palavra usada por ela, que definiam suas experiências anteriores nos dois partos em casa. Considerou que a conduta e o resultado, no caso a cesareana, foram erros e estes, projetados na parteira, no obstetra, no hospital. Não conseguiu olhar para dentro de si mesma e refletir que algo nela tinha desencadeado os acontecimentos. E, talvez, a sua vontade de ir para o hospital realmente fosse um instinto de preservação adequado para a  saúde de seu bebê, já que, ao observarmos retrospectivamente, os dados relativos à sua história gestacional e o trabalho de parto, a conduta adotada pareceu ser adequada à situação.


Reflexões. Vejo o significado da palavra empoderamento envolto pela experiência de encontro com o Si-Mesmo ou Self. Um processo ativo de comunicação interior-exterior. Acontece quando damos as mãos a um fluxo que sentimos e vemos e nos deixamos conduzir. O medo atrapalha nossa visão da realidade. Encolhemos o peito, os braços, as mãos. Contraímos em vez de nos abrirmos à experiência. Dessa forma vamos na contra-mão do que ocorre no trabalho de parto. Nele temos que relaxar dentro da experiência. Aquelas "horas" são, na vida de uma mulher, uma brecha no tempo, ou melhor, uma saída do espaço-tempo que tem características semelhantes às iniciações religiosas. O objetivo final é o encontro, a comunhão, a vivência da unidade que expressamos como seres femininos.  E o resultado se apresenta no binômio mãe-filho(a) que já carrega um novo desafio. Percorremos a roda da vida. Morte - nascimento - renascimento ...cada uma a seu tempo... infindáveis vezes, infindáveis seres!

 

Sentir-se empoderada representa um momento onde abolimos o pensamento, sentimento, intuição, sensação, as funções da consciência. Somos unidade entre fora e dentro. Porém, como faremos a tradução da experiência?  Que novas atitudes? Como seremos a partir da compreensão do processo? A verdadeira diferença entre o ser que éramos e o ser que agora somos?

 

As mulheres que não puderam ter seus bebês com parto natural, não estão excluídas deste estado de ser. Pois, ele começa a ser construído no início da gestação e se continua no puerpério, com o aprendizado da amamentação. Na amamentação se realiza a oportunidade de colocarmos na prática o que vivenciamos como empoderamento.

 

Em "Anatomia da Psique", Edward F. Edinger, analista junguiano, fala sobre a solutio (uma fase do processo alquímico).

 

"A solutio é a raiz da alquimia".

"Não faças nenhuma operação enquanto não transformares tudo em água".

...Considerava-se a água como o útero e a solutio como o retorno ao útero para fins de renascimento...

...Como nos dizem os mitos do dilúvio: o dilúvio vem de Deus, quer dizer, a solutio vem do Si-Mesmo.

 

Aquilo que vale a pena salvar no ego é salvo. Aquilo que não merece salvação é derretido a fim de ser recomposto em novas formas de vida. Por conseguinte, o permanente processo vital, renova-se a si mesmo. O ego comprometido com esse processo transpessoal cooperará com ele e experimentará sua própria redução como um prelúdio à vinda da personalidade mais ampla, a totalidade do Si-Mesmo.

 

Segundo  caso. M., 28 anos, gravidez desejada e planejada dentro da ótica da humanização. Preparava um parto domiciliar acompanhada de todas  suas referências afetivas mais próximas. Enquanto isso a gestação seguia seu curso normal até a 33ª semana quando surgiu um fato novo: pressão arterial  20mmHg acima da média normal para ela, acrescida de um aumento de 5 kg em 4 semanas.


Ponto de confronto... sonhos, expectativas, medos...


Na virada para a 34ª semana de gestação, M. teve um sonho: "Na frente de um espelho vê seu rosto se deformando e ficando muito velho.


Existe uma lenda contada pelos caboclos da floresta amazônica, sobre a origem espiritual da malária. A malária é uma mulher muito velha que, às vezes, se transforma em um felino negro, como uma pantera, e assombra o doente em sonhos ou visões durante o período agudo da doença.

É uma Baba Iaga, termo usado na literatura russa dos contos de fadas para expressar a figura da bruxa. Aquela que anuncia o encontro com as trevas do inconsciente, as cavernas escuras da mente. É a natureza vista em sua face destruidora, a morte. A toxemia é ainda hoje uma doença da gravidez com índice alto de morte materna. Quem passa por ela, tem que se preparar para morrer, no sentido psico-espiritual e também suportar os terrores físicos que a acompanham.

 

Como nos disse Jung, nos tempos atuais não restam muitas possibilidades onde a psique possa traduzir-se através de ritos de passagem. Na toxemia, o remédio natural para continuar a gestação é o repouso no leito. Assim ficamos, como galinhas chocando seus pintinhos, aguardando o máximo de tempo possível para nosso filhote humano maturar. Imersas no reino de  fadas e baba iagas. O materno arquetípico projetado em suas duas faces. Temos tempo de sobra para mergulhar nas profundezas abissais da alma. A gravidez  continua seu percurso, mas nós com a pressão arterial mais elevada somos constrangidas a um pequeno foco. Do pequeno à abrangência total... Da porta estreita à amplitude da visão... O tempo é suspenso e podemos transitar livres como se presas à espacialidade não estivéssemos... Como se a natureza nos dissesse:

 

"Pára e olha. Medita sobre o processo na sua dimensão mais profunda e depois conta tua experiência a outras que também terão que passar por ele. Observa a riqueza que se apresenta e te sente honrada por compreendê-la."

 

Mudança de planos.  De pré-natal em posto de saúde e parto domiciliar com parteira, viramos para  gravidez de risco - toxemia gravídica - parto hospitalar, cirúrgico.

 

A parteira, também teve um sonho, compreendido na sequência dos fatos: "Via uma grande águia azul se aproximando e descendo à terra até que suas garras pegarem uma galinha. Alçando de novo seu vôo, quando bem alto no céu, solta a galinha que cai de forma vertiginosa no chão.

 

A galinha é usada por algumas religiões primitivas especialmente africanas para simbolizar uma passagem de morte e renascimento, através de um ritual onde a ave é suspensa no ar sobre a cabeça do iniciado.

 

A energia que fluia numa direção precisou ser redimensionada, recanalizada, como um rio onde a água corre por entre as pedras que desenham sua trajetória. Tempo de construir outra forma de expressão para o rito do nascimento. Quando nós mulheres nos construímos  sustentadas por valores naturais, não importa que a realidade externa pareça hostil a eles. Porque são só aparências de certo ou de errado. Temos sempre que considerar que lidamos com uma visão limitada pela tridimensionalidade. A visão da galinha...

 

Firmamos ainda mais nosso ponto de apoio. Visão da águia...

 

Se a natureza determina o repouso no leito, então seguimos à risca, mesmo que o nosso obstetra na ânsia pela perfeição queira apressar o parto. A não ser que estejamos correndo risco eminente, buscamos a calma, assim a pressão se mantém em limites aceitáveis e tentamos levar a gravidez mais próximo possível de sua conclusão fisiológica. Buscamos o hospital ou a maternidade que melhor acolha nossa necessidade de quietude.

 

Por fim, não desistimos  de nossas convicções, pois elas continuam sendo válidas a todas nós mulheres. Elas também irão sustentar a vida psíquica de nossos filhos na construção de um novo sistema de saúde materno-infantil.


Dados da literatura médica sobre Doença Hipertensiva na Gravidez, retirados do livro ganhador da British Medical Association Book Competition em 1995 na categoria Atenção Primária à Saúde: Guia para Atenção Efetiva na Gravidez e no Parto. Autores: Enkin, Keirse, Neilson, Crowther, Duldy, Hodnett e Hofmeyr.

 

Dois distúrbios etiologicamente distintos são responsáveis pela maioria dos casos de hipertensão na gravidez. Um deles é induzido pela gravidez,  denominada de "hipertensão gestacional" caso não for acompanhada por proteinúria (perda de proteina pela urina); "pré-eclâmpsia" se houver proteinúria associada e "eclâmpsia" se houver convulsões e/ou coma. O outro é hipertensão crônica que precede ou coincide com a gravidez, e alguma vezes está associada a um distúrbio subjacente conhecido, tal como a doença renal. Além disso, pode haver uma associação dos dois distúrbios; essa é denominada"pré-eclâmpsia superposta".

 

A hipertensão crônica e a hipertensão gestacional leve ou moderada representam um pequeno risco para a mãe ou o feto, exceto se houver hipertensão grave, pré-eclâmpsia ou eclâmpsia. Por essa razão, o objetivo do tratamento da doença hipertensiva leve a moderada na gravidez tem sido adiar ou evitar o desenvolvimento de doença hipertensiva grave. Para isso são usados repouso no leito e vários medicamentos.

 

Conduta intervencionista versus conduta expectante: No caso de mulheres com pré-eclâmpsia grave antes de 34 semanas, frequentemente é difícil decidir sobre o melhor momento do parto. Os riscos do nascimento muito precoce devem ser ponderados em relação aos riscos para a mulher e o bebê se a gravidez continuar por muito tempo. Estudos comparativo entre  uma política intervencionista (parto eletivo precoce) e uma conduta mais expectante no sentido de adiar o mais possível o término da gestação, mostraram uma tendência de efeitos benéficos para os bebês nascidos por política expectante, mas com risco possívelmente maiores para a mulher.



Adelise Noal Monteiro é médica pediatra, homeopata, acupunturista com clínica em psiquiatria  junguiana.  Exerce também a função de médica- parteira e atende a partos domiciliares em Porto Alegre. Colaboradora da ONG Amigas do Parto.  Está envolvida em projetos com os Guaranís e com parteiras do Santo Daime da floresta  amazônica, região do rio Purus.

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