O PARTO NATURAL E A TÉCNICA ALEXANDER

February 7, 2017

 

O nascimento é um processo involuntário que exige uma sintonia muito  fina. É regulado por uma série de sinais trocados entre o cérebro da mãe e o resto do corpo. As contrações do útero são controladas pela secreção de hormônios apropriados durante as três fases do parto: dilatação da cérvix, nascimento e deslocamento da placenta. Esse processo químico e fisiológico (que também tem importantes aspectos psicológicos) pode ser facilmente perturbado por influencias externas. É freqüentemente observado e bem documentado que o parto fica difícil quando a mulher se torna emocionalmente perturbada. Esta perturbação pode ser causada, por exemplo, por cochichos na presença da parturiente, expressando desaprovação de seu estado mental ou físico, tais como: “Ela não esta tendo dilatação”, “A atitude dela está errada”, “Ela está fazendo esforço demais”. O mesmo efeito perturbador pode ser causado por mudanças no ambiente ou por pressão psicológica de outras pessoas à volta da parturiente, como, por exemplo, parentes bem intencionados que estão impacientes para o bebê nasça logo ou que não estão de acordo com o método ou opção da parturiente. Também, o monitoramento contínuo dos progressos coloca um estresse enorme na mulher e a ansiedade decorrente disso libera os hormônios errados.


A mãe não pode controlar diretamente seu sistema nervoso autônomo ou equilibrar sua descarga de hormônios, qualquer tentativa neste sentido gerará frustração. Durante o primeiro estágio do trabalho de parto a mulher nada deve tentar fazer para dar à luz, a dilatação do  cérvix acontece sozinha e tudo que ela precisa fazer é permitir que este processo se efetue. A cada contração ela deve se manter em movimento de forma relaxada, concordar em aceitar a dor e ajudar-se para passar pelo processo.


Na hora do nascimento (durante a passagem do bebê e nas fortes contrações que a antecedem), é muito difícil para uma mulher que não está preparada aceitar a dor das contrações como sendo “normais”. Para a maioria das mulheres esta é a maior dor já experimentada em toda a sua vida. Nossa sociedade não nos encoraja a tolerar a dor e estamos acostumados a tomar uma aspirina para a menor sensação de desconforto. As drogas químicas deturpam o processo natural do parto por mascarar os sinais do corpo e bloquear os seus trajetos. Isto gera a necessidade de intervenção médica levando finalmente ao fórceps ou à cesárea. Para se aceitar a dor do parto como normal, temos que entender o seu papel funcional e nos afastarmos da idéia de problema, doença ou patologia. A dor tem uma função e por isso não deve ser eliminada. A mulher pode e deve ser psicologicamente preparada para lidar com isto.


Nesta dificuldade a Técnica Alexander pode ser muito útil: nós podemos ensinar à mulher como lidar com a dor em vez de tentar eliminá-la. Através da inibição e direção (termos próprios do aprendizado da Técnica), podemos parar nossa reação habitual à dor. Em vez de flexionar e comprimir nossa cervical por tensionar nosso crânio para baixo e para trás - ação típica da reação de pânico – podemos conscientemente e voluntariamente desfazer a tensão muscular automática. Podemos aprender e exercitar o controle consciente sobre nosso movimento e postura, nos dando um controle indireto sobre o nosso equilíbrio hormonal.


Isso não é fácil, uma vez que o reflexo de partida é ativado em nós várias vezes durante o dia. Após anos de ativação, ele se condiciona como resposta neuro-muscular que entra em ação cada vês que nos movimentamos (funcionamento). Conseqüentemente, há, na maioria de nós e na maior parte do tempo, tensão muscular desnecessária, especialmente quando nos movimentamos.


Leva tempo para se reeducar o corpo e substituir padrões habituais de tensão por aqueles de soltura. Mas tendo aprendido a movimentar-se sem interferir com o “controle primário” (controlando a substituição por padrões habituais), a mulher pode aplicar este aprendizado durante as contrações. Não há necessidade de ser atlética ou capaz de fazer e ficar em complicadas posições ou exercícios. Muitas vezes essas ginásticas acabam reforçando padrões de tensão desnecessária piorando o funcionamento.


Não podemos esperar que uma mulher em trabalho de parto vá desfazer hábitos nocivos de uma vida sem uma preparação cuidadosa. Durante as lições de Técnica Alexander com mulheres grávidas nós as preparamos também para o trabalho de parto. Hoje é totalmente aceito que a mulher deve mover-se livremente e manter-se de pé durante o trabalho de parto.


A Técnica Alexander ensina que não é somente o que fazemos quando estamos em pé ou nos movimentamos, mas como fazemos: usando inibição e direção. Esse fato deixa claro que a posição do macaco (termo da TA que se refere à posição de pé com os joelhos um pouco dobrados e o tronco tombando ligeiramente para a frente a partir da pelve) é uma das melhores posições durante a gravidez e particularmente vantajosa durante o trabalho de parto. Na posição do macaco, como a mãe se inclina ligeiramente para frente, sua parede abdominal se torna uma espécie de rede para o bebê, enquanto que o deslocamento da pélvis deixa mais espaço para que a cabeça entre na cavidade pélvica, assim o bebe é encorajado a se posicionar adequadamente para o nascimento. Ao mesmo tempo a força da gravidade – o peso do bebê – auxilia as contrações, tornando-as mais fortes e eficientes.


Para se acalmar a dor, é fundamental que a parturiente se mova livremente, assim essa posição de vantagem mecânica deve ser utilizada de forma dinâmica: a mulher pode manter seu controle primário enquanto transfere o seu peso de uma perna para outra, tanto sozinha ou ajudada por alguém.


Uma vez que muitas mulheres acham que a posição de quatro é confortável durante o parto, eu procurei uma forma de tornar essa posição dinâmica e integrada com os princípios da TA. Surgiu o que eu chamo de “movimento da pêra”: a mulher nos quatro apoios, cabeça direcionada em liderança (como o topo apontando para a frente), o corpo descreve a forma de uma pêra paralela ao chão. Incidentalmente essa forma lembra os contornos uterinos. O movimento da pêra ajuda a mãe a relaxar as juntas e previne o acumulo de tensão no corpo, especialmente nos ombros, braços e lombar. Com o pescoço solto, cabeça liderando o movimento, as costas podem alongar e abrirem-se evitando assim o arqueamento e pressão na lombar.


Uma das formas de se conseguir um estado relaxado do corpo e da mente é a salivação. Quando o corpo da mulher em trabalho de parto recebe o sinal de que contrações vão começar, ela pode escolher entre adotar o padrão do reflexo de partida (o habitual) ou direcionar-se: em primeiro lugar, ela pode pensar em esboçar um sorriso e assim permitir que a boca se torne molhada. Isto pode lembrar as instruções de FM Alexander na pratica do AH sussurrado (procedimento de vocalização normalmente utilizado no ensino da Técnica Alexander), que é pensar sobre algo engraçado. Um sorriso ou simplesmente o pensamento de um sorriso relaxa a tensão da mandíbula e da face; isto solta a pressão sobre as glândulas salivares e faz com que elas secretem. Esta é uma medida preventiva, assim a boca não se torna seca. Note-se que a boca seca é um dos sintomas da reação de pânico ou do desespero.


Como já mencionei, o modo em que o corpo reage à dor é muito parecido com aquele que ocorre durante o estado de pânico ou desespero, ocorrendo os mesmos sintomas fisiológicos tais como: boca seca, palpitação, tremores e ansiedade. Pela salivação, nós quebramos essa cadeia de sintomas, o cérebro recebe a mensagem de que tudo está bem, sem necessidade da ansiedade. Esta é uma forma indireta para podemos controlar secreção hormonal. Se, na hora da contração ou mesmo um lapso de segundos antes, a mãe permite que sua  boca fique molhada, respira o “ahhh....” sussurrado e começa o movimento da pêra (o monkey dinâmico), toda sua atenção é direcionada para o movimento.


Sua percepção consciente esta engajada com o processo, ao invés de ansiar pelo seu fim – o nascimento – que, de qualquer forma está além da possibilidade de seu controle direto. Em outras palavras, ela está ocupada somente com os meios, com o caminho e a atitude de ansiar pelo fim fica afastada.


Apesar da idéia de parto e nascimento natural estar ganhando popularidade, ainda está longe de ser uma prática fácil de ser atingida nessa nossa sociedade ocidental e tecnológica. A Técnica Alexander pode fornecer um caminho possível que muitas mulheres estão procurando.


* Este artigo foi adaptado de uma exposição feita no Quinto Congresso Internacional da Técnica Alexander em Jerusalém, 1996. Texto extraído de: www.alexandertechnique.com/articles/childbirth/
** Ilana Machover é uma educadora perinatal, professora qualificada da Técnica Alexander e Medau Rhythimc Movement, docente da Royal Academy of Music e da Escola de treinamento de Técnica Alexander de Misha Magidov em Londres - Inglaterra. Em seu consultório oferece classes de Eutokia (preparação especial para grávidas e parturientes) e também atende partos como doula. Ela ministra palestras e workshops para obstetras, parteiras, educadores e professores da TA que se aplicam ao parto. Tem vários artigos publicados neste assunto. Juntamente com Ângela e Jonathan Drake, é autora do livro “The Alexander Technique Birth Book” publicado em 1993. Ilana tem dois filhos e quatro netos. E-mail: moshe.machover@kcl.ac.uk


Tradução por Hélio de Oliveira, instrutor de Técnica Alexander.

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