AS FUNÇÕES DO ORGASMO


Esse é o nome do novo livro de Michel Odent que pretende apontar os caminhos para a transcedência. Para Odent, as descobertas científicas recentes reconhecem que a maior necessidade do bebê, assim que nasce, é essa e não outra: o cheiro, o toque, a pele e o olhar carinhoso da mãe. Michel lembra que todas as civilizações realizam ainda hoje rituais que dificultam esse contato íntimo primal e para isso utilizam justificativas como a necessidade de cortar o cordão umbilical ou inventam que o colostro pode fazer mal ao bebê. Foi só a partir dos anos 70 que os estudos demonstraram através de experiências controladas, as vantagens, a curto e longo prazo, do contato pele a pele entre a mãe e o bebê e evidenciaram que esse contato está intimamente ligado ao desenvolviomento da capacidade de amar.

Nesse novo trabalho, Odent aprofunda a discussão sobre a ação do coquetel de endorfina em três momentos de liberação plena: a ejeção do feto, o orgasmo e a ejeção do leite. Mas ele ressalta que o hormônio adrenalina é altamente inibidor dos hormônios do amor (endorfina e ocitocina). Não é por acaso que uma fêmea não costuma parir em frente ao seu predador ou não fazemos amor durante um terremoto ou ainda a produção de leite diminui em situação estressante.

Considerando que o coquetel do amor nos leva à um estado de transcedência - nos conduzindo para outro espaço e outro tempo - é evidente que a sociedade da razão rejeitou essa sensação ao longo da história, usando a culpa e a vergonha como instrumentos para nos manter longe desses estados de alteração emocional.

Mas se sabemos que a ocitocina é tão importante em momentos como o parto, o orgasmo e a amamentação, o que pode ser feito para facilitar a sua liberação? Para responder, Odent lembra que a ocitocina é um hormônio tímido e que o ambiente pode facilitar ou inibir a sua produção. É por isso que naturalmente os casais costumam se isolar quando querem fazer amor, isso também explica o porque a produção de leite é maior quando as vacas são ordenhadas por pessoas conhecidas. No entanto, o parto dos seres humanos se transformou em um comportamento oposto ao dos mamíferos não humanos, que evitam a todo custo serem observados durante o nascimento de seus filhotes. Odent lembra que esse modelo é recente, porque nas sociedades pré-culturais, as gestantes também se isolavam, buscando apenas a companhia de uma mulher sábia - geralmente a mãe, a sogra ou uma mulher mais velha da vila. O papel primordial dessas mulheres era proteger o espaço, impedindo que animais ou mesmo o marido se aproximasse. Na medida em que o parto é mais e mais socializado, o papel das parteiras passa a ser outro: controlar o parto, transmitindo crenças e procedimentos como o uso de ervas ou a manipulação do colo do útero.

Até a metade do século XX o parto e o nascimento eram coisas de mulher, até porque o número de médicos especialistas era reduzido. Quando esse profissional estava disponível, só era chamado em situações emergentes e geralemente realizava o fórceps como facilitador. Aliás, a história do fórceps é muito engraçada, mas ela fica para outro dia.

A partir daí, o crescimento do número de especialistas masculinos e a introdução de dogmas como a introdução da presença do pai na sala de parto e o aumento dos instrumentos tecnológicos consolidaram a masculinização da sala do parto. Outro elemento que contribuiu com a não-liberação da ocitocina foram algumas teorias científicas que influenciaram as principais escolas de parto natural, como o "Reflexo Condicionado" proposto por Pavlov (1849-1936). Pavlov defendia que a dor não é fisiológica e sim um reflexo.

Conclusão: era necessário treinar as mulheres, recondicioná-las para que não sentissem dores. Assim, surgiu uma nova profissão: instrutor de parto. Aliás, Odent ironiza essa idéia no epílogo do livro, onde uma mulher tenta convencer seu noivo a seguir os conselhos de uma treinadora de noite núpcias. A comparação se deve ao fato de que Odent considerq que parto, amamentação e sexo são fisiologicamente similares. Já pedi para meu marido traduzir esse texto e depois mostro para vocês. É ótimo!

Odent critica o que ele chama de "epidemia dos vídeos" - alguns disponíveis na internet - que, com a pretenção de exibir um parto natural, são extremamente invasivos, com várias pessoas na sala de parto, a brochante câmera apontada, gente dando ordens o tempo todo: respira, força...

Por tudo isso, Odent afirma que na nossa contemporaneidade o número de mulheres que dão a luz ao bebê e a placenta é quase zero, uma vez que o coquetel que promove essa liberação plena depende de condições propícias e porque, por mais que busquem uma forma alternativa de parir, poucas mulheres têm a chance de encontrar paz nesse momento. Por isso, cresce o número de partos cirúrgicos e mesmo as mulheres que têm filhos por parto vaginal dependem cada vez mais de hormônios sintéticos.

É só lembrar de uma sala de parto e pensar: como as mulheres podem relaxar e liberar sua preciosa ocitocina? Assim, conclui Odent, a nossa inteligente espécie conseguiu inutilizar os hormônios do amor.

The Functions of the Orgasms - The highways to Transcedence, First published in Great Britain by Pinter & Martin Ltd 2009.

Fonte: A Educadora - Silvania Santos. Um espaço para discutir a educação forma e não formal.

Silvania Santos é mestre em Ensino em Biociências e Saúde pela Fiocruz, professora de biologia na Escola Parque, contadora de histórias na creche Fazer Arte e ex-aluna no curso "Ecologia do Parto". Vive no Rio d Janeiro. Contato: silvania.paula.santos@gmail.com


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