HOMENS CONTRA O PARTO DOMICILIAR

February 8, 2017

 

 

 

 

As reações dos homens diante da possibilidade do parto domiciliar variam. Há os que topam na hora, há os que estão inseguros e há os que se opõem. É destes que quero falar.

 

Mais de uma vez recebi mensagens de grávidas sobre seus maridos ou li sobre isso em listas de discussão. Alguns simplesmente proibem (e por usa sorte têm mulheres submissas  porque se não não poderiam proibir coisa nenhuma). E há os que, querendo ser “modernos” e não podendo anular as conquistas sociais femininas dos últimos setenta anos, dizem assim:

 

“Estou preocupado com meu filho. Ela pode fazer o que quiser, mas quero meu filho são e salvo.” Conversei com um desses recentemente, e devo dizer que fiquei entre irritada e abismada (porque o achava muito melhor do que isso).

 

Um homem que fala assim está dizendo na realidade que “não estou nem aí com o que ela escolher”. Ser um casal independente significaria algo parecido a “desinteressar-se”. Segundo, “o filho é meu e eu sou mais responsável do que ela porque estou preocupado com ele”. Terceiro, e aqui está a raíz de todo o mal: ela é uma maluca.

 

Na verdade, os homens que se opõem ao parto domiciliar simplesmente têm medo e usam o machismo cultural e social no qual vivemos como plataforma superior de onde emitir sua Palavra.

 

Ter medo de algo desconhecido é absolutamente normal. Por que não admiti-lo? As mulheres não têm muitos preconceitos com relação a isso. Elas dizem, sem tantos rodeios, que têm pavor do parto, ou dar dor, ou da cesárea. Pronto. Simples. Uma mulher que tem medo do parto irá procurar alivio de alguma forma, ou entregando-se ao médico e ao que ele quiser, ou buscando informação, apoio e orientações. Pessoas normais em estado de insegurança perguntam, indagam, pesquisam. Muitos homens não. Eles bloqueiam.

 

Reconhecemos que é absolutamente natural que uma mulher moderna não tenha a menor noção do que seja um parto. O que há de errado nisso? É nossa cultura atual. É limitada e preconceituosa, mas é o que é. Não vale chorar, vale agir e transformar.

 

Agora, se as mulheres em geral pouco sabem de parto, o que saberiam os homens? Nada. O que pode valer o parecer de uma pessoa que não conhece o assunto sobre o qual está palpitando? Nada. Se, mesmo assim, esta pessoa quiser seu parecer respeitado e seguido ela o conseguirá somente de uma forma: pelo autoritarismo que sua posição lhe permite.

 

E aqui chegamos ao machismo. Muitos homens não querem de coração ser machistas. Mas não se trata de uma escolha pessoal, como de uma cultura e educação recebidas deste as primeiras mamadas. O homem bem intencionado não percebe mas é machista. Se ele não fizer um trabalho consciente de limpeza observando com honestidade o que faz e fala, a cultura machista continuará se reproduzindo dentro dele.

 

O machismo está claro na postura frente ao desejo da mulher por um parto domiciliar. Dizer, como a pessoa com quem conversei, que ele está preocupado com o bebê, implica afirmar que ela não está. Isso soa como uma blasfemia aos meus ouvidos! Se eles acham que o parto domiciliar é perigoso e ela o quer, das duas uma: ou ela sabe o que quer e entende a coisa melhor do que ele; ou ela é maluca. Infelizmente, é para esta segunda opção que muitos homens se dirigem.

 

 

Como é possível pensar que uma mulher “arriscaria sua vida e a de seu filho” (pois o parto domiciliar é “muito perigoso”) como uma deficiente mental que não sabe o que faz? Se ela sente que quer o parto domiciliar, é porque ela é capaz, ela tem condição de realizá-lo. Ela pode. Por uma vez na vida, os homens deveriam calar e aprender a ouvir. Há algo aqui que foge à compreensão deles. Eles precisam é confiar nela. O parto é dela, a líder é ela.

 

Para ser sincera, eu não gosto da expressão “casal grávido”. É verdade que ele, se for um homem sensível, presente e disponível, estará vivenciando algo novo. Mas, vamos ser sinceros, a gestação é dela. O enjôo é dela, o útero é dela, o peso da gravidez é dela, o cansaço é dela e o parto também é dela. É seu corpo que vai se abrir para uma criatura dele sair. É ela que vai sentir a dor, que vai ter que conseguir se entregar, que vai amamentar, que vai ter mil e uma dúvidas sobre tudo. Pera aí!

 

Por que tantos escrúpolos em reconhecer algo que pertence às mulheres? Por que tantos dedos quando se trata de dizer que a gravidez e o parto é das mulheres e não tem jeito do homem sentir o mesmo? Isso não quer dizer exclui-los, simplesmente ser honestos e objetivos.

 

Me parece que, como sempre, as mulheres se acanham em assumir algo Delas. Porque dessa forma, as especialistas no assunto seriam Elas. E a eles cabe seguir, acompanhar, confiar, dar crédito. Por que isso é tão difícil?

 

É evidente que somente uma mulher que se empodera e assume seu processo pode permitir que seu homen participe de verdade dele e seja beneficiado profundamente por ele. Este é um caminho que cabe a ela abrir e a ele seguir – se a ama, claro. Amar é confiar em alguém. Não se ama uma maluca.

 

Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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