OS MEDOS E SEUS REFLEXOS NO PARTO

February 8, 2017

 

 

 

... Mas como se preparar para esse dia? Como estar mais segura para enfrentar longas horas de dor, quando nem ao menos dor de cabeça se consegue aguentar? 

 

Quando questionada o que pensa sobre o parto a maioria das gestantes hoje pensa na dor. Parece lugar comum citarmos a dor como a maior dificuldade da mãe para enfrentar o parto, mas será que a dor é mesmo advinda dessa gestante? 

 

Ou será que as dores são muito mais as impositivas pela sociedade patriarcal que vivemos ou a força feminina que perdemos ao longo dos anos? Ou seria ainda que as dores não sejam tão somente da gestante, mas da equipe que a assiste? Dos familiares envolvidos?

 

Num país onde a maioria dos partos se dão por cesarianas, com taxas alarmantes quando comparadas ao resto do mundo é comum pensar os motivos de tanto medo. Muitas das gestantes por sua vez não conhecem a realidade do parto no Brasil, ainda acham que ter um parto normal, é “normal”, que não haverá empecilhos ou problemas e que encontrarão apoio nos hospitais e equipe medica envolvida. Quando se deparam com a realidade, em idade gestacional avançada, curvam-se diante das informações passadas, muitas vezes distorcidas e sem atualização necessária.

 

O que nos leva a seguinte reflexão, de que dores estamos falando? As dores do parto ou as dores da violência que estão sofrendo? Desse modo é preciso recordar os três principais pilares que deveriam nortear as gestantes, expostos por Tanese Nogueira (2010), o físico, o psicológico e o intelectual. De nada adianta um dos três aspectos serem seguidos se os demais não acontecerem, inevitavelmente cairão no triste sistema implantado hoje no país, em que fatores “outros” se não o de bem-estar mãe e bebê estão norteando.

 

Também não é possível pensar em “dores” se não avaliarmos o sentido dessa palavra no senso-comum. Dor, em um primeiro momento, é algo que nos transmite sofrimento, angustia. É complicado entender uma “dor boa”, uma dor que trará seu filho ao mundo. Acrescente-se a isso os médicos, tão treinados para aliviar a dor. Desde o juramento de Hipócrates que fizeram na conclusão do curso, atualizado em 1948 pela Declaração de Genebra,  ao qual prometeram exercer a arte de curar. Ou seja, é esperado que o médico cure o mal e, conseqüentemente, retire a dor. Desse modo as dores do parto podem ser enfrentadas por vários profissionais dessa forma, quando indicam o uso de anestésicos ou mesmo de cesarianas, afim de causar um pseudo-alívio” aos ora tratados como pacientes, mães em trabalho de parto.

 

Também não se pode deixar de questionar como esses profissionais foram treinados, que escola pertenciam, de que forma a obstetrícia está sendo exercida por eles, e como enfrentam seus próprios medos. Pensar também em quem cuida de quem cuida é também interessante. A maioria dos médicos e equipe técnica envolvida tem jornada de trabalho exaustiva, plantões noturnos, pouca convivência familiar, e portanto pouco tempo para o lazer. Como estar disposto a ficar por um período tão longo em um trabalho de parto? Os excessos de intervenções é dessa forma notado, interferindo na evolução natural da vinda de um bebê.

 

Ao intervir no processo natural a possibilidade de complicações aumenta, ainda mais quando a gestante é obrigada a ficar em decúbito dorsal e imobilizada. Muitas vezes é no ambiente inóspito e pouco familiar do centro cirúrgico que os medos e angústias se apresentam de forma mais intensa. (BALASKAS, 2012)

 

Ainda há os casos que por medo da dor a gestante solicita a cesárea previamente, antes mesmo que o trabalho de parto tenha início, despojando a mulher de qualquer participação mais ativa do nascimento do filho. A perda da identidade, iniciada no parto, será a maneira como ela cuidará do seu próprio bebê, apresentando uma real dificuldade não só naquele momento, mas posteriormente, quando prefere relegar seu filho a outra pessoa que julgue ser mais competente que ela. (MALDONADO, 1976)

 

Dessa forma somente uma gestante consciente, que esteja bem informada dos riscos reais de uma cesariana eletiva e sem real indicação médica, ou mesmo os efeitos que podem advir do uso de fármacos em trabalho de parto poderá exigir de que forma quer conduzir a chegada do seu filho, isso em uma gestação de baixo risco.  

 

O que tem ocorrido muitas vezes é uma situação invertida, as cesarianas são realizadas, os bebês dão entrada nas UTIs, e os pais, por desinformação, acham ótimo ter acontecido dessa forma já que “evitou problemas maiores” que poderiam vir de um parto normal. É aí que mora o cerne da questão, será mesmo que a cesariana indicada foi realizada de modo salvar vidas ou foi uma questão de tempo da equipe médica envolvida, ansiedade da família, despreparo dos pais?  Ou mesmo a falsa idéia de que um parto “asséptico” é via cesariana? Ou mesmo o inconsciente coletivo de que há sofrimento em um trabalho de parto não só para a mãe como também para o bebê?

 

Com isso o que era para ser um evento familiar, tornou-se um evento médico, em que os medos e as dores precisam ser evitados ou invés de serem enfrentados. Muitas vezes essas dores permitem um contato profundo com dores ainda maiores, as dores da alma. A possibilidade dessa mãe entrar em contato com seu lado mais feminino e íntimo pode levar a um encontro com a própria sombra (GUTMAN, 2007). E nesse contato, o mundo psíquico será revisto, envolvido, por vezes acolhido. É o início de uma fusão emocional que irá durar longos meses, e esse rito de passagem que o parto é pode ser responsável.

 

Mas como se preparar para esse dia? Como estar mais segura para enfrentar longas horas de dor, quando nem ao menos dor de cabeça se consegue aguentar?

 

Somente estando informada e entre pares. Eis a questão. É importante ter apoio em algum lugar, seja no médico, na doula, na educadora perinatal, em amigas próximas com experiências enriquecedoras ou em grupos de apoio ao parto ativo. Naturalmente o desejo por um parto em que a gestante seja protagonista, consciente das suas escolhas, envolvida com o nascimento do seu filho acontece. É preciso ter idéia real do que acontecerá durante o trabalho de parto e parto, construir no imaginário como seria aquele dia tão especial. A gestante precisa olhar para dentro de si, encontrar acolhimento, despedir-se de como era enquanto filha, e dar boas-vindas a ela enquanto mãe, sem preconceito. Compreendendo sentimentos, e assim acolhendo o novo ser com amorosidade.

 

Infelizmente a modernidade afastou a mulher desse contato mais íntimo. Desde cedo tivemos que ocupar posições que antes pertenciam ao homens, ao mesmo tempo a sociedade ainda cobra dessas mesmas mulheres as funções que exerciam tão bem. Parece absurdo pensar como esse bebê irá ser criado com essa mãe tão cheia de atividades, mas é algo real e precisa ser questionado. Mais uma vez as dores serão sentidas, do afastamento abrupto após a licença maternidade. E dessa vez não serão somente as dores da mãe, mas também do bebê.

 

Chega então as dores do pós-parto. Aquela mãe, que antes tinha uma vida completamente diferente, tem em seus braços um ser dependente de alimento e aconchego viceralmente. Por mais que a gestante tente imaginar como seria sua vida com um novo ser em casa, são aqueles primeiros dias que o contato, e por conseguinte o vínculo, está sendo formado. Muitas dores podem ainda ser sentidas. Aqui não restrinjo as dores físicas mas as emocionais, lembranças de como a vida era e como estaria agora, mistura de sentimentos antes nunca vistos. O papel da doula pós-parto e educadora perinatal é bem importante também nesse cenário. Possivelmente ela poderá ter visto esse transformar, podendo encontrar palavras para ajudar essa mãe. Não só em questões práticas, como primeiros cuidados com o bebê e dúvidas que essa “recém-mãe” possa ter, mas ter escuta. Esse acalento da escuta, de quem vivencia a gestação com outras mulheres, pode ter um efeito grandioso.

 

Desse modo é empoderando as mulheres, fazendo-as se tornar não modelo a ser seguido, mas ativas e conscientes no seu papel na sociedade, seja no parto ou depois dele, na criação dos filhos é que se pode pensar em mudanças. Em cada escolha, esta ou aquela opção, tornando a informação mais acessível e disponível a todas é que um futuro mais natural possa ser real. Esse despertar proporcionado pelo parto ativo, capaz de fazer com que cada mulher enfrente os medos do desconhecido, das horas que antecedem o encontro mais avassalador da sua vida, da mudança que terá pela frente, pode ser o motor para que novas perspectivas apareçam. Importante falar, propagar os benefícios, tomar as rédeas do que nunca devia ter sido retirado, a chance de parir e cuidar das crias. Isso sim é enfrentar a vida sem medo!

 

 

Referencias Bibliográficas

 

BALASKAS, J. Parto Ativo. 2ª ed. Grund: São Paulo. 2012.

 

MALDONADO,  M.T. Psicologia da Gravidez. 10ª Ed. Vozes: Petrópolis. 1976.

 

GUTMAN. L. A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra. 3ª Ed. Best Seller: Rio de Janeiro. 2012.

 

TANESE NOGUEIRA, A. et. al. Guia da Grávida Informada e Consciente: parto humanizado. Biblioteca 24 horas: São Paulo. 2010.

 

 

Nome: Renata Reis Mourão Rivas

 

Curso: Educadora Perinatal

 

Profissão: Doula

 

E-mail: renata@betapositivo.com.br

 

Data: 16/01/2013

 

 

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