REFLEXÃO SOBRE A PARTICIPAÇÃO DO PAI NO MOMENTO DO NASCIMENTO

February 8, 2017

 

Este é um estudo de abordagem reflexiva sobre a participação do pai no processo da gestação, nascimento e puerpério, instigado pela observação nos serviços de saúde da exclusão do homem no acompanhamento da mulher neste ciclo vital. O objetivo deste artigo é refletir especialmente sobre o papel do pai, o exercício da paternidade e sua participação no parto.

 

                                                                                         

Nelci Terezinha Zorzi


Resumo

O nascimento de um filho é um momento ímpar na vida de um homem e uma mulher. Observa-se a necessidade do homem estar ao lado de sua companheira, esposa e filho na sala de parto, mostrando a necessidade de modificar o comportamento e a visão dos

profissionais de saúde em relação à permanência do pai na sala de espera. Este é um estudo de abordagem reflexiva sobre a participação do pai no processo da gestação, nascimento e puerpério, instigado pela observação nos serviços de saúde da exclusão do homem no acompanhamento da mulher neste ciclo vital. O objetivo deste artigo é refletir especialmente sobre o papel do pai, o exercício da paternidade e sua participação no parto.

Unitermos: Nascimento, parto, paternidade.

 

INTRODUÇÃO

Sempre que nasce uma criança, nascem também um pai e uma mãe. Para a mulher a gravidez é um momento sublime, glorioso em sua vida. Tudo a sua volta torna-se maravilhoso, a rotina não existirá mais. Sua vida dará um giro de 360º graus. Contudo, se a mulher se sente mãe tão logo após conhecer o resultado do teste de gravidez, o pai normalmente demora e encontrar seu papel.   O nascimento de um filho causa uma série de mudanças nas pessoas que são próximas da mãe. Em especial, o pai da criança vivencia um sentimento nunca antes experenciado.


Este estudo surgiu a partir de minhas inquietações em relação à participação efetiva do pai no pré-natal, parto e puerpério, na minha vivência profissional de enfermeira obstetra e docente de enfermagem e, atualmente, buscando possibilidades de perspectivas do desenvolvimento humano – teoria etológica que estuda a teoria do apego. A perspectiva etológica concentra-se nas bases biológicas e evolutivas do comportamento. 

 

DESENVOLVIMENTO

 

Na década de 30, os zoólogos europeus, Konrad Lorenz e Niko Tinbergen, desenvolveram a disciplina da etologia, estudo do comportamento de espécies animais em seus ambientes naturais ou em laboratório, e, na década de 50, o psicólogo John Bowlby estendeu os princípios etológicos ao desenvolvimento humano. Neste estudo constatou-se que, quando os rituais do nascimento, sejam de animais ou humanos, são interrompidos ou impedidos, os resultados são devastadores. Relacionando esses estudos com a gestação e nascimento de um bebê sem a participação efetiva do esposo-pai observa-se que a formação do apego e do vínculo desde a concepção ao nascimento e nos primeiros dias de vida pode estar prejudicado. A perspectiva etológica nos desafia a olhar além do valor adaptativo imediato de um comportamento indivídual para sua função na promoção da sobrevivência da espécie. Percebe-se hoje a aplicação dessa teoria nas questões de desenvolvimento, na interação entre os pares, na formação do apego. (PAPALIA, 2000). A teoria está diretamente relacionada com esta minha reflexão.

 

Na gestação, parto e puerpério da mulher toda a atenção está direcionada a ela e ao bebê. Sabe-se que nos dias de hoje muitas mulheres optam por reprodução independente, mas para uma parte delas há a presença do companheiro. E então questiona-se: onde está este pai, parceiro, companheiro, cuidador?  Poucos são os homens que querem ou podem participar do evento.


No estudo realizado por Wangen (1999), constatou-se que, a partir de 1979, os homens começaram a participar de aulas de preparação ao parto, o que resultou em maior cobrança por parte da sociedade, exigindo que eles apóiem suas companheiras, mesmo se sentindo desconfortáveis nessa função. Anteriormente a isso, não se tinha a participação efetiva do pai, os partos domiciliares tornaram-se institucionalizados e os médicos realizam o parto, atendendo exclusivamente a parturiente, e esquecendo todo o contexto em que a mulher esta inserida e, principalmente, esquecendo-se da sua família.

 

A bibliografia especializada sobre o tema das expectativas vinculadas à paternidade é escassa em comparação com o abundante conhecimento teórico e clínico acerca das expectativas que a maternidade gera. Hoje, encontram-se vários estudos sobre a participação do pai, mas ainda é um tema restrito.

 

Normas do Ministério da Saúde (BRASIL, 2001) do Programa de Humanização do Parto no Pré-natal e Nascimento, orientam sobre os princípios de atenção que devem ser prestados e exorta estados, municípios e serviços de saúde a cumprirem seu papel propiciando a cada mulher o direito de CIDADANIA mais elementar: dar à luz, recebendo uma assistência humanizada e de boa qualidade. Neste direito compreendo inclui-se a presença do pai no momento de vida do homem/mulher que é tão singular.

 

O direito ao acompanhamento da gestante já é obrigatoriedade, desde 2005, através da alteração da lei 8.080 de 19/09/1990, onde no capítulo VII, artigo 19 J, resolve: “Os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) da rede própria ou conveniada, ficam obrigados a permitir a presença, junto à parturiente, de 1 (um) acompanhante (indicado por ela), durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto imediato. (Diário Oficial da União, 2005.) Entretanto não é praticado de forma regular e sistemática em todo o país. Ao contrário, de modo geral, apenas as mulheres economicamente  favorecidas, que têm seus partos através de seguros privados, utilizam-se deste direito (BRASIL, 2001).

 

Na prática vivenciada no decorrer de atividades profissionais, percebe-se isso claramente. Sabe-se que o acompanhamento pelo marido não envolve preparo técnico mas,  representa o suporte psíquico e emocional de que a parturiente necessita nesse momento. Conforme Rafhael-Leff, “(...) na maioria das sociedades, a mulher tem sido fundamentalmente definida por seu papel procriativo e maternal, enquanto que o homem tem tido que criar identidades masculinas, em contra-indicação com a maternidade feminina” (1997. p.55).  Não basta o pai apenas transmitir seu sobrenome como suficiente para estabelecer a paternidade; é preciso participação efetiva desde a concepção.

 

Nem todo genitor se constituirá em pai, pois, “(...) o exercício da paternidade se dará apartir de um conjunto de práticas diversas inseridas na relação entre duas pessoas, independentemente de sexo, opção sexual, grau de parentesco, raça ou idade daqueles que acompanham (...)”. (SILVEIRA, 1997, p 27)

 

A sociedade não tem questionado as representações sociais e culturais da paternidade e da maternidade, assim como tarefas da educação e do cuidado com as crianças, que, historicamente, ficam a cargo da mãe. Como destaca Becker (1999, p. 16), “(...) biologicamente, o homem sempre teve status de ser o principal envolvido na propagação da espécie, no entanto essa concepção vem se modificando por vários fatores influenciados pelas novas posições do ser humano na sociedade, principalmente dos aspectos sócio-econômico-culturais. Vive-se, atualmente, constantes e profundas transformações no cenário social em que se está inserido”. (1999, p. 16 )

 

Em razão disso, Hentschel et al, (1993), salientam que os papéis de homem e de mulher têm sofrido transformações quanto a sua função familiar: da mulher é exigida cada vez mais uma participação efetiva na manutenção da família, isto é, no seu sustento: em contrapartida, o homem tem participado mais das atividades domésticas e do cuidado dos filhos.

 

Em conseqüência disso, a conscientização vem se expandindo entre os homens, fazendo com que vejam de outra forma o processo de paternidade. Com esse cenário em mudança, percebem-se algumas tendências que levam a modificação relacionada à participação mais efetiva do pai: há o reconhecimento da importância emocional da paternidade na formação do filho e da filha; mudanças da estrutura familiar na sociedade de hoje e, mudanças na definição cultural da masculinidade.  A participação do pai no parto pode ser vista como um fato inato, geneticamente determinado, mas que não se expressaria na sua plenitude por fatores culturais ou sociais, mas também pode ser visto, alternativamente como um processo de aprendizado absolutamente cultural.  O que se percebe é que o envolvimento paterno intenso, quando permitido fortalecerá os vínculos futuros de assistência e afeto, tanto em relação ao bebê quanto com a sua mãe.  Assim, a paternidade, como fortalecedor do núcleo social, está relacionada à construção da humanidade como nós a conhecemos e concebemos. Hoje em dia cada vez mais a importância da interação afetiva (e não mais apenas econômica) é solicitada por parte do pai, e os valores da paternidade emergem num mundo tão assombrado com as mudanças vertiginosas nos conceitos até então inquestionáveis sobre o nascer, reproduzir-se e morrer.

 

Conforme Beckeb et al (1999, p.29) (...) a atitude emocional do pai na tríade familiar é significativa desde  o momento da concepção. O pai passa a responder ás necessidades receptivas e dependentes de sua mulher, que é aumentada devido á gravidez, com as repercussões psicodinâmicas e sociais normais da situação. Precisa lidar com as intercorrências da gravidez (enjôos, dores, instabilidade emocionais, entre outras), como angústias da mulher relacionada com as mudanças corporais e interferindo em sua auto-estima, erotismo e sexualidade, e também com seus medos em relação ao parto e aos cuidados com o futuro bebê.

 

Diante disso, a participação do pai durante a gestação e parto deve ser um direito, e não uma imposição. A presença do pai no local do nascimento do seu filho tem sido discutida por vários profissionais da saúde que assistem a parturiente, os quais são unânimes em incentivar essa presença, uma vez que a mulher sente-se mais segura junto ao marido ou companheiro. 

 

O que gostaríamos de lembrar é que realmente a participação do pai aconteça em todo o processo desde a gestação e vá se aperfeiçoando a cada dia: na participação dos pais nas consulta pré-natal, nos cursos preparatórios ao parto, na maternidade e nas orientações relativas ao parto e lactação, no estímulo para acompanhar a esposa a  vivenciar o trabalho de parto e o parto.


A interação precoce pai-bebê resulta num melhor envolvimento posterior ao nascimento. Sabe-se também que a presença do pai na sala de parto fortalece a relação conjugal, visto que esse pai se sentirá mais envolvido e participará mais ativamente com seu filho, servindo de sustentáculo para interagir bem com o bebê, abrindo novas conquistas futuras.

 

Após a chegada deste bebê, a primeira hora após o nascimento poderá influenciar na maneira como a criança vai se ligar à  mãe e na capacidade de amar desta criança, na formação do vínculo entre mãe-pai e bebê. Quanto mais precoce ocorrer esse contato, maiores serão as chances de se desenvolverem laços afetivos entre ambos. Esse pai,  segundo Espirito Santo, “(...) tenta abrir, ou retomar, o seu espaço no nascimento do seu filho, que lhe foi retirado pelos profissionais que atendem o parto” (1999, p. 16).

 

A abordagem que o Ministério da Saúde (BRASIL, 2001) oferece ao parto normal e à maternidade segura, constitui subsídio aos profissionais de saúde a prestação de  serviços de pré-natal e parto mais apropriados. Treinando profissionais e prestadores de serviços, adequando as habilidades obstétricas, favorece-se que se repense a atenção a família e se reconheçam situações de risco obstétrico quando não há possibilidade de participação de um membro da família.

 

Espirito Santo citando Osava, relata que em Campinas em 1993 criou-se a Rede Humanização do Nascimento (REHUNA), e em 1995, a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia foi indicada como a base institucional para implantar o Projeto do Ministério da Saúde denominado “Maternidade Segura”, que consta de oito passos a serem seguidos, entre eles “permitir a presença de familiares na sala de parto e / ou pré-parto (quando possível)” (1997, p.25). Apesar de o Ministério da Saúde intervir nessa assistência, pouca coisa mudou até os dias de hoje, quando a maioria das maternidades continua sem permitir a presença do pai na hora do nascimento, alegando “rotinas”  de controle de infecção, médicos que não aceitam, enfermeiros (as) que não autorizam etc..., esquecendo, assim, o essencial de tudo isso: o nascer de forma digna, natural, humana.

 

Sabe-se também que nos hospitais do Rio Grande do Sul, encontram-se hoje poucos hospitais que garantem a presença do pai para os usuários do Sistema Único de Saúde. Somado a essa realidade, tem-se o poder “médico” de solicitar a saída do pai que ele entende não dever ficar acompanhando nesse período de nascimento do filho, e a submissão dos enfermeiros a esse profissional. Assim, o médico se considera e é visto como aquele a quem compete permitir ou não a presença do pai no parto, especialmente nas maternidades públicas e hospitais-escola, que são os principais formadores de médicos ( ESPIRITO SANTO, 2000).

 

Com certeza, se questionados, sobre o nascimento de seus próprios filhos, esses profissionais gostariam de vivenciar esse momento maravilhoso da maternidade. Então, por que não repensar as práticas assistenciais? Por que não mudar as formas de ensinar e preparar os novos profissionais de saúde e, acima de tudo, orientar esses pais sobre seus direitos na participação do nascimento de seu filho?

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Biologicamente, o homem sempre teve status de ser o principal envolvido na propagação da espécie, no entanto, essa concepção vem se modificando por vários fatores influenciados pelas novas posições do ser humano na sociedade, principalmente dos aspectos sócio-econômico-culturais. Vive-se atualmente, constantes e profundas transformações no cenário social em que se está inserido. Em razão disso, os papéis do homem e da mulher tem se transformado, ou seja, a mulher participa cada vez mais no sustento da casa, em contrapartida o homem tem participado mais das atividades domésticas e do cuidado dos filhos, ocupando desta forma, os mesmos espaços na estrutura familiar. 

 

Gestação, parto e nascimento são eventos pertencentes à família.  Entendendo desse modo, o pai deve estar presente em todos esses momentos, participando efetivamente, não como mero espectador, mas apoiando e tendo o prazer de presenciar o momento magnífico do nascimento de seu filho(a) seja ele domiciliar ou à nível hospitalar.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEE, Helen. O ciclo vital. Porto Alegre: Artes Médicas,1997.

BECKER, Nara: ZORZI, T. Nelci: SELBACH, Sabrina; Participação: sentimentos e reações do pai diante do nascimento do primeiro filho, enquanto aguarda na sala de espera. São Leopoldo, 1999. Monografia (Especialização em Enfermagem Obstétrica), Universidade Vale do Rio dos Sinos,1999.

BRASIL, Ministério da saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Parto aborto e puerpério: assistência humanizada á mulher /Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Brasília: Ministério da Saúde, 2001.

ESPIRITO SANTO, Lílian Cordova do: O desejado e o vivido pelo pai durante o processo de parto e nascimento de seu bebê. Porto Alegre, URGS,2000. Dissertação  (Mestrado em Enfermagem). Universidade do Rio Grande do Sul. 2000.

HENTSCHEL, Flávia Beatriz Lange: OLIVEIRA, Dora Lúcia Leidens Correa de e ESPIRITO SANTO,Lílian Cordova do. Sentimentos e percepções do pai quanto a sua presença na sala de partos. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, v. 14,n.1, p.34-39,jan.1993.

WANGEN, Amélia Charlotte; Baldi, Fernanda Maria Wolff: SCHENAIDER, Vânia: Métodos não medicamentosos usados no manejo de desconfortos no processo da parturição. São Leopoldo: UNISINOS,1999. Monografia (Especialização em Enfermagem Obstétrica) Universidade Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo,1999.

PAPALIA, Diane E.; OLDS, Sally Wendkos. Desenvolvimento Humano. 7ª ed. Porto Alegre: Artmed,2000.

RAMIRES, Vera Regina. O exercício da paternidade hoje. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.

RAPHEL-LEFF, Joan. Gravidez: a história interior. São Paulo : Artes Médicas, 1997.

ROHDE, Luis Augusto et al. A função paterna no desenvolvimento do bebê. Revista de

Psiquiatria, Porto Alegre, v.13, n.3, p.127-135, set/dez. 1991.

* Diário Oficial da União, Edição Número 67 de 08/04/2005, disponível em http://www.aleitamento.com/a_artigos.asp?id=7&id_artigo=868&id_subcategoria=13, acesso em 16/04/2007.

 

Artigo elaborado para conclusão de curso Atendimento Obstétrico Domiciliar 2009 da ONG Amigas do Parto.

 

Nelci Terezinho Zorzi é enfermeira, especialista em Obstetrícia, especialista em Administração em Serviços de Enfermagem
Docente do CEM (Centro de Ensino Médio da Universidade de Passo Fundo) do Curso Técnico de Enfermagem, Docente do Curso de Enfermagem da Universidade de Passo Fundo. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Fone: 54-33272268 – nelcizorzi@upf.br

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