AS DEUSAS ÁRTEMIS E PERSÉFONE NA POSTURA EXEMPLAR DE UMA ENFERMEIRA

February 12, 2017

 

 

 

 

Este é o relato de Ana Paula SalgadO, que foi minha aluna no curso de Psicologia da Gravidez, Parto e Pós-Parto. Ela é enfermeira no Rio de Janeiro. O que conta merece ser divulgado, lendo todo mundo vai entender o por que.

 

“O que eu mais gosto de Ártemis é seu estreito contato com a natureza. Isso a faz conseguir perceber a sua própria natureza, aguçar os sentidos, aprender a ouvir seu próprio corpo e assim, entender seus sinais, sua comunicação. É algo brilhante. O conhecimento do corpo nos faz entrar em contato com o inconsciente coletivo, com nosso conhecimento ancestral, com a sabedoria feminina. Não é o corpo a expressão mais densa do nosso inconsciente? E isso é simplesmente brilhante. Para quê o conhecimento racional, às vezes equivocado, se é possível conhecer com o corpo, com todos os sentidos! A Natureza é mesmo uma biblioteca da vida e estar em sintonia com o corpo através dos nossos sentidos nos ajuda a acessar esse conhecimento.

 

Vou contar uma coisa que me aconteceu, acredito que a coragem de Ártemis estava comigo neste momento.

 

Eu cuidei de um bebê recém-nascido na UTI que nasceu com uma doença chamada epidermólise bolhosa, uma menina. Tanto pele quanto mucosa criavam bolhas como uma queimadura e descamavam. Os dedinhos das mãos e pés tinham que ser separados pois senão colavam. Onde tivesse qualquer atrito com a pele, formava bolha e abria carne viva. Tínhamos que ter um cuidado muito delicado com ela, não podíamos usar a chupeta para consolar a dor, pois os lábios, a língua e o céu da boca feriam, não podia usar touca, nem roupinhas. Os medicamentos pra dor e a alimentação eram feitos por via oral com uma sondinha que prendíamos com muito cuidado e o acesso venoso na cabecinha. Colocávamos vaselina no corpo todo dela com algodão. Havia um risco para infecção, desidratação, hipotermia muito grande. Era um tormento para ela quando íamos limpar suas fezes e urina. Nem podíamos pensar em colar adesivo em sua pele. Muito difícil cuidar dela. Ela era tão linda. Reclamava tão pouquinho das dores... Chegou um momento que ela agravou muito a extensão das lesões, não absorvia bem a dieta, sentia muita dor. Começou a fazer apnéia (é quando o bebê pára de respirar por instantes). Tínhamos que ficar de olho nela porque não conseguíamos monitorizá-la, não dava para colar nenhum eletrodo em sua pele. Eu não conseguia sair de perto dela. Toda hora olhava para ver se ela estava respirando e ela sempre quietinha. Às vezes chorava um chorinho bem tímido. De vez em quando ela fitava meus olhos. Eu gostava muito de cuidar dela e se eu pudesse não deixava ninguém encostar nela. Tinha a impressão de que ninguém cuidava dela direito. Teve um dia que fui dar um banho nela na banheira. Achamos que iria aliviar o cheiro que exalava das secreções das bolhas e iria fazer ela relaxar. Éramos eu, mais duas enfermeiras e uma psicóloga ajudando a gente a segurar ela para dar o banho. Foi uma banho de quatro horas. Ela interagia muito pouco com o meio. Abria os olhos só até a metade. A sensação era que ela mantinha essa mínima atividade para economizar energia para os órgãos principais. Eu estava bem quando, não sei como, olhei para a menina, ela abriu os olhos e me fitou docemente depois fechou os olhos como se fosse dormir, descansar. Eu olhei para o lado e me invadiu uma onda no peito, fiquei com uma vontade irrepresável de chorar. Senti um calor bem forte dentro do meu corpo, senti meu corpo todo queimar e as lágrimas escorríam à baldes. Ela devia estar  sentido muita dor e lutar pela vida naquelas condições não devia ser  nada fácil. Senti que seu olhar era de lamento pelas dores tamanhas e ao mesmo tempo um olhar de agradecimento pelo banho. As enfermeiras e a psicóloga me viram chorar e choraram juntas. Todas ficaram em silêncio e choraram sileciosamente comigo. Estávamos enchaguando seu corpinho ferido. Terminamos o banho, colocamos ela na incubadora, passamos a vaselina por todo seu corpo. Eu me sentia a sua guardiã. Não deixava ninguém encostar nela depois do banho. Velava seu descanso. Eu era só uma residente e não deixei ninguém cuidar dela nos plantões em que eu estava, exceto duas pessoas que cuidavam muito bem dela, essas duas enfermeiras que deram banho comigo. Eu tinha de dar o melhor de mim para que ela sofresse menos. Não sentia que as pessoas faziam isso. Me sentia corajosa, não tive medo de enfrentar ninguém e só cuidavam dela se eu estivesse junto. Ela faleceu dias depois como a médica especialista já havia previsto, para bebês que desenvolvem essa doença o prognóstico é muito desfavoráfel, vivem muito pouco. Acho que tive a coragem de Ártemis. Pensando bem, acho que quem teve essa coragem foi esse bebê.

 

O que acham?

 

Em relação ao parto, Àrtemis é realmente a deusa imprecindível. Temos que aprender a dar as mãos para ela, a confiar e se entregar. Não precisa saber o que fazer, ela já sabe pois tem acesso ao conhecimento do corpo. È preciso aprender a escutar o corpo.

 

Beijos,

 

Ana Paula”

 

 

Querida Ana Paula,

 

Chorei, como essa história que contou me tocou! Podia sentir o que sentiu, sentir e ver a menina como se estivesse na minha frente...

 

Isso é Perséfone, Paula. Sim, Ártemis está presente, mas o fundo da perspectiva na qual vc está é Perséfone. Eu havia respondido ao teu email anterior, desde o yahoogrupos, mas não chegou. Aproveito agora   para responder às duas mensagens.

 

Perséfone necessita de duas figuras para dar-lhe suporte: Deméter, a mãe, o chão. E Héstia, o lar, o aconchego. Em Héstia ela se "recompõe", reequilibra. O lar é como um espaço de meditação. A mãe a conexão com a realidade material que dá bases para as muitas vivências interiores e "diferentes e profundas" de Perséfone.

 

Voltando à tua história. Muito lindo o que vc conta, tristíssimo e lindo. Muito linda tua postura. Sofrida e linda. Perséfone conhece a dor, aprendeu a estar nela. Por isso, ela sente a dor do outro. A comunicação DE ALMAS que vc teve com a menina vem da interioridade de Perséfone. A coragem de lidar com a situação, sim, é de Ártemis. Ártemis está ligada ao corpo. Perséfone à alma.

 

E, sim!, o corpo é a expressão densa do inconsciente. Daí, me dá vontade de indagar que feridas da alma que a pequena bebê carregava e que se refletiram em seu corpinho inocente. Penso no bem que vc fez no pouco tempo que ela viveu. Quem sabe, vc tenha ajudado a apaziguar uma alma ferida e a superar um trauma espiritual...

 

Saber "mexer" com o corpo sem medos é de Ártemis, sim. Acho que toda enfermeira deve ter Ártemis. E com certeza, toda parteira.

 

Abraços



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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