AS EMOÇÕES E SEU PAPEL NA VIVÊNCIA DE UMA GESTAÇÃO SAUDÁVEL

February 12, 2017

 

 

A gestação e, consequentemente, o parto devem ser tratados como eventos que englobam fatores psicológicos, fisiológicos e sociais, pois não se trata apenas de mudanças físicas, mas sim, de fenômenos complexos, rodeados de influências culturais e, mais importante ainda, de desejos, medos e expectativas.


INTRODUÇÃO

 

Geralmente a gestante não encontra apoio social para que sua gestação se torne uma possibilidade de crescimento e acaba sendo tratada apenas como uma paciente que necessita ter sua integridade física preservada. O tornar-se mãe, no sentido mais amplo e singular, é geralmente levado a um segundo plano. Gerar um filho implica gerar uma mãe, portanto, o contexto em que essa gravidez acontece irá influenciar de uma forma muito importante o decorrer da gestação e, finalmente, o parto e o pós- parto. Nesse trabalho, estarei abordando os aspectos emocionais da gravidez e a forma como eles podem influenciar a vida da mulher gestante.


LINDANDO COM EMOÇÕES E MUDANÇAS 

 

Durante a gravidez ocorre uma mistura muito grande de emoções. Elas decorrem das inúmeras transformações físicas e psicológicas próprias  desse acontecimento. Tais sentimentos permeiam esse momento tão singular e são vivenciados durante os três trimestres de gestação, e continuam existindo no pós-parto. A mulher, que até então ocupava apenas o papel de filha, torna-se mãe e com isso passa a lidar com sentimentos ambíguos, como a alegria e o medo, a responsabilidade de cuidar e a insegurança ao lidar com o desconhecido. A vivência dessas bivalências permite à mulher caminhar ao encontro do crescimento individual, mas para que tenha sucesso, é necessário que ela experiencie cada etapa com consciência e tome conhecimento de todas as faces da maternidade.

 

Na gravidez, as emoções afloram de uma forma mais forte, mexendo com o “eu”, e algumas mulheres experimentam uma dificuldade em lidar com essas emoções. O conceito de inconsciente coletivo e suas implicações inicialmente tratadas por Carl Gustav Jung podem nos ajudar a compreender um pouco desta dificuldade. Segundo Jung, nossa psique é fortemente influenciada pelas experiências da humanidade. A maneira pela qual lidamos com as situações é condicionada por conteúdos inconscientes arraigados em nossa cultura.  Para ele, quando nascemos, algumas linhas básicas de nossa conduta já estão traçadas quer pela sociedade e/ou pela família de origem. Dessa forma, as leis sociais acabam sendo conservadas de uma maneira praticamente instintiva através de condutas que são mais sociavelmente aceitas. Sabemos de uma forma natural que devemos controlar nossas emoções e que devemos agir de forma racional quando ocupamos o nosso papel social, seja ele de mãe, de pai ou de filhos.

         

A meu ver, é por causa desse controle emocional tão cobrado pela sociedade que se desenvolve o grande conflito existente na gestação. A mulher acaba reprimindo todos os sentimentos novos que vão surgindo no lugar de experiência-los e usá-los como forma de crescimento individual.


O INCONSCIENTE

 

As emoções fazem parte de nosso dia a dia, mas são fortemente reprimidas pela supremacia da razão instituída pela nossa sociedade patriarcal. Aprendemos que devemos ser seres racionais e que as emoções servem para tirar o nosso equilíbrio e que, portanto, devem ser controladas.    


Para lidar com as emoções é necessário compreender que existe um lugar em nós que não podemos manipular e que está fora de nossa consciência. Esse lugar é chamado inconsciente e é de lá que surgem as emoções.      

 

Jung, com sua psicologia analítica, nos fala sobre o diálogo entre o  consciente e o inconsciente mostrando que as emoções são tão importantes quanto a razão consciente e que devem ser ouvidas e trabalhadas para que sejam um instrumento de auto conhecimento e auto crescimento. É interessante tratar o inconsciente como interlocutor rico em contribuições para o nosso crescimento. Ouvi-lo nos coloca naturalmente em processo de individuação. Abre-nos à possibilidade de evoluir e amadurecer, modificando nosso ponto de vista e nossa forma de agir.


O DIÁLOGO E A FALA COMO INSTRUMENTOS DE AÇÃO 

 

O inconsciente nos fala de forma sutil, através de sonhos, sensações e intuições. Muitas  vezes deixamos passar essa mensagem tão preciosa e acabamos racionalizando, ou seja, encontramos uma maneira de nos defender da sensação de que algo está saindo do controle. Essas racionalizações parecem compreensíveis a primeira vista. 

Passam a falsa impressão de que tudo está bem, mostram certa fortaleza, pois satisfazem as cobranças e expectativas sociais.

 

A gestante necessita de apoio para que consiga lidar com todo esse turbilhão de emoções e com suas conseqüências. Em minha opinião, falar e ser ouvida é uma forma muito importante de a gestante encontrar esse apoio. Transmitir oralmente a sua experiência, experiência essa tomada pelos mais variados sentimentos, pode ser uma preciosa oportunidade de colocar a gestante frente a frente com seus conteúdos inconscientes estabelecendo um diálogo que possibilite discernir e crescer.

 

Um grupo de apoio a gestantes pode ser uma das formas da mulher grávida encontrar atenção e acolhimento, pois lhe dá a possibilidade de falar e compartilhar experiências com outras gestantes e ser orientada por uma formadora. A profissional será uma facilitadora, convidando a mulher a se atentar mais para si mesma, tornando-se mais forte e independente. Através da fala e da orientação direcionada, a gestante tem a possibilidade de focar em suas emoções, desconfiando das racionalizações e atentando para os sinais do inconsciente. Esse diálogo com a realidade de cada gestante dá espaço para o diálogo interior e subjetivo e é capaz de dar sentido e elaboração aos conteúdos internos, resultando em auto conhecimento e consequentemente em crescimento individual.

 

No meu ponto de vista, este tipo de atendimento nos abre a uma visão e atuação mais humanizadas da gestação e consequentemente, do parto. 


CONCLUINDO A PARTIR DA MINHA HISTÓRIA PESSOAL

 

Quando engravidei sonhava em ter um parto normal. Nunca havia lido nada sobre humanização, mas eu tinha a sensação de que apenas o meu corpo e o corpo do meu bebê saberiam a hora certa em que o nascimento deveria acontecer. Apesar de tão pouco tempo de gravidez, me sentia em total sintonia com a criança que estava gerando.

 

Essa sensação com certeza já era um sinal do meu inconsciente me mostrando que a gestação é um processo natural e sua finalização também deveria acontecer de forma natural.


Sofri um aborto espontâneo que me causou muito sofrimento e que se repetiu na minha segunda gestação. Essas perdas me colocaram em uma situação de muita ansiedade. Eu e meu esposo juntamente com uma equipe médica, realizamos uma grande investigação e descobrimos que existia um problema imunológico entre eu e meu marido que seria resolvido com o uso de vacinas e anticoagulantes.

 

Engravidei pela terceira vez e, do ponto de vista fisiológico, tudo estava perfeito. Me sentia muito feliz por saber que não existiam problemas, mas, ao mesmo tempo era como se por dentro eu estivesse toda em pedaços. Sentia uma ansiedade horrível, parecia que  aquele momento tão especial havia perdido todo o sentido. Procurei de todas as formas não deixar transparecer nada do que eu estava sentindo, pois cada vez que eu pensava em falar sobre o meu sentimento, era como se eu estivesse querendo demais, como se eu estivesse sendo ingrata, já que a gravidez caminhava tão bem. Como se fosse quase um pecado reclamar de alguma coisa frente à vitória de levar a gestação adiante. Hoje compreendo que pensar assim era uma inútil tentativa de me livrar daquele desconforto.

 

O meu tão sonhado parto normal havia ido por água abaixo, já que com o uso de anticoagulantes era mais seguro optar por uma cesárea. Novamente eu me sentia fracassada. Minha filha nasceu forte e saudável às trinta e oito semanas de gestação. Eu imaginava que após o seu nascimento toda aquela angustia passaria, mas não foi bem assim. Sofri muito. Me sentia triste e desencorajada.

 

Hoje consigo compreender que o pós-parto não pode ser tranqüilo se a gestação não foi tranqüila, falo do ponto de vista emocional. Percebi que não podemos determinar que os sentimentos desapareçam, pois eles estão ali, numa realidade viva e presente e, de uma forma ou de outra, vão dar os seus sinais. Portanto, é necessário dar-lhes a atenção merecida para que possam ter sentido e contribuir para o processo natural de individuação, principalmente no que diz respeito ao papel do feminino e da maternidade.

 

Tudo está muito recente ainda para mim, mas me sinto plenamente no caminho de crescimento e valorização do meu papel de mulher e de mãe. A cada dia estou me auto-descobrindo, e já consigo enxergar uma força que é minha e que me pertence de uma forma natural, mas que até há pouco eu não conseguia ver. Lidar com a maternidade está se tornando mais simples na medida em que estou procurando aceitar todas as mudanças que a envolvem. Estou procurando me atentar para minha intuição e confiar mais em tudo aquilo que eu acredito e sinto. Estou começando a perceber que todo e qualquer sentimento deve ser explorado, sendo ele bom ou ruim, fortalecedor ou ameaçador.


Sei que o caminho a percorrer é muito longo, mas me sinto muito bem em saber que estou me descobrindo e me valorizando. Sinto urgência e sede de crescer e isso me mostra que minha consciência está se abrindo e que logo poderei me doar para outras pessoas sendo aquele ouvido atento e acolhedor que tanto me fez falta no momento de minha cegueira.

 

A luta pela mudança da realidade na qual a mulher gestante está inserida não está nem perto de ser resumida por estas palavras, mas aprendi que para se chegar ao outro, devemos antes conhecer a nós mesmos. Somente pela tomada de consciência de nossa própria força é que podemos exportá-la ao mundo e fazer alguma diferença.

 

Marina de Melo Crepaldi de Santana tem 28 anos, é psicóloga e mora em Brasília (DF). Email de contato:  nicrepaldi@yahoo.com.br

Este trabalho foi realizado como monografia de conclusão do módulo Gestação do Curso Humanização Online 2009.

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