Ativismo radical e inteligente, é possível?

February 17, 2017

 

É preciso que haja um ingrediente essencial para que o ativismo numa causa seja radical e inteligente, ao mesmo tempo. O elemento que permite essa combinação mais do que desejável é o senso crítico, ou seja a capacidade de manter independência de pensamento (e de sentimento) do que a mídia passa, os líderes sustentam e o guru da vez prega, como também distância das idiosincrasias de amigos, parentes e co-legionários da causa. Um pouco de educação também não estraga, porque a verdade é que quanto mais uma pessoa é estudada e leu livros (não artigos na internet) mais é capaz de enxergar além dos discursos ideológicos e das propagandas coletivas. Somente com isso, que eu chamo de "senso crítico", é possível analisar as coisas com objetividade, ou pelo menos com honestidade.


Objetividade e honestidade são coisas diferentes. Por exemplo, posso analisar algo que não me diz minimamente respeito e aplicar na análise todo o conhecimento e a

experiência que tenho à disposição. Mas posso não ter objetividade suficiente para analisar o comportamento de alguém que desprezo, ou que amo. Há pessoas das quais não me interssa saber, nem os méritos nem as faltas. E há pessoas que não quero ver falhar. Nesse caso, honestidade é dizer: fulano não me agrada, não tenho condições de julgá-lo, nem quero saber dele. Ou: fulano é meu xodô, deixe-o em paz. Entretanto, há pessoas que constróem raciocínios elaborados e "científicos" para destroçar o argumento de alguém que desaprovam de antemão, não importa o que diga. Desonesto é quem não computa seus sentimentos no próprio julgamento. Enquanto isso, há pessoas que são aplaudidas independentemente das bobagens que falam, porque apelam às paixões e ao ego de seus ouvintes através de discursos aparentemente racionais e belas palavras. O mundo está cheio delas, chamam-se demagogas. 


Há ainda algumas pessoas que conseguem ser objetivas e honestas apesar de seus sentimentos. Quem tem mente e coração bem oleados e conscientes consegue visualizar o sentimento e a razão ao mesmo tempo. É perfeitamente possível amar alguém e conher em detalhes sua sombra, como é possível não gostar de alguém e saber reconhecer seus méritos. Essas pessoas não são comuns e se perdem no meio da multidão que clama saber o que fala sem ter fontes ou experiência de primeira mão, ou mesmo pensamento próprio dos assuntos sobre os quais palestram.

 

Nesse cenário, ativismo vira radicalimos fanático. Lembro-me dos idos 2001-2002 quando surgiu o movimento de mulheres pela humanização do parto, do qual eu fui uma das fundadoras. Vindo de uma tradição filosófica e psicológica de muitos anos, comecei a debater em público a idéia de "radicalismo" no sentido de ser radicais, ir à raíz das coisas. Essa me parecia e me parece a única forma de exercer pensamento crítico e cidadania. Somente mudando as coisas lá no fundo e de dentro para fora é possível obter mudanças significativas. Há todo um embasamento histórico para esse conceito. Infelizmente, mentes rapazes colheram a palavra no ato e a transformaram num slogan para as massas. Sem bases educacionais algumas, mas com muita vontade de "conquistar, vencer e aparecer", radicalismo se tornou fanatismo. E fanatismo é psicologica e socialmente atitude muito pouco saudável. Querer curar males individuais e coletivos via o fanatismo a uma causa é, desculpem, simplesmente ridículo no ano do Senhor de 2011. A história ocidental está cheia de experimentos sociais, políticos e religiosos desastrosos nesse sentido, e devemos aprender com a história no lugar de repeti-la obtusamente.


Demonstrando como massificar conceitos de forma superficial prejudica a mente do público, basta dizer que o tal movimento começou a falar em ser "xiita", como expressão máxima de mulheres "guerreiras invencíveis". Xiita é "Indivíduo mulçumano seguidor de Ali,primo e genro de Maomé,que sustenta que as únicas tradições autênticas do Profeta são aquelas transmitidas pelos membros da família do próprio Ali." Além de ser uma idéia radicalmente (no sentido próprio) machista, destoando assustadoramente com o intuito do movimento de "empoderar a mulher", chamar-se xiita é um contrasenso lógico. Xiita é alguém de mente estreita que segue à letra o chefão patriarca do qual recebe os mandamentos, não tem cabeça, coração e vontade próprios. E não era uma mulher livre dos obstetras "algozes" e interesseiros que se queria promover? Como se pode empoderar um indivíduo qualquer sem educá-lo para o livre pensamento? Como se pode fortalecer uma população trocando-lhe o dono, desta vez coberto pela fanfarra da libertação feminina?


A incongruência da linguagem e das atitudes desse movimento reflete sua ambiguidade interna, que oscila entre educar e autonomizar as mulheres ou moldá-las e controlá-las usando novos e atraentes recursos. O lobo perde o pêlo mas não o vício. A história ensina. É nesse sentido que precisa ser radicais, e desmascar o lobo. Mas ninguém gosta de ouvir que o Rei está nú. O Rei que é idolatrado, o grande sacerdote do grupo, a voz da liderança é pelos seguidores fieis protegido. Assim, apedreja-se quem ousa apontar para o traseiro deselengante do Rei e se jura fidelidade à bandeira. Nasce o xiita, melhor, a xiita.

 

Pertencer a um grupo é uma necessidade humana, mas o grupo não pode substituir o indivíduo e sua sensibilidade. Fraqueza moral leva à identificação com a gangue onde uma pessoa pode se sentir importante e reconhecida, mas em troca ela deve seguir e defender o grupo. Não só, como Paulo Freire muito bem mostrou, o "oprimido" (todo indivíduo subjugado a outro física, emocional ou intelectualmente) ao tentar se libertar não dá o salto para a sociedade livre e democrática que se imaginaria. Não, ele salta para o lado oposto: ele se identifica com o opressor e se torna ele mesmo um opressor. Seu ídolo era o opressor, nada melhor que, jogando as correntes de lado, ser ele mesmo poderoso como seu modelo. Romper esse ciclo vicioso requer muita paciência e educação. Muita educação. É por esse motivo que nunca me lancei em campanhas "radicais". Nunca chamei a episiotomia de "mutilação vaginal", nunca condenei uma mulher porque fez cesárea (apesar de ser uma das pioneiras no Brasil do parto domiciliar), nunca criei slogans e fico bem longe de quem os pratica.

 

Numa sociedade como a brasileira onde as mulheres são historicamente oprimidas de várias e complexas maneiras, e onde a cidadania é uma dimensão social em via de desenvolvimento, apelar para a raiva recalcada das mulheres e para sua sede de liberdade com slogans e discursos prontos é perigoso. O vulcão por baixo das boas meninas sopra poderoso sua fumaça. Se queremos que essa lava se transforme em força inteligente e efetiva, em coragem e estratégia, em conhecimento e ousadia é preciso não cutucar a onça com vara curta, ou seja não querer lucrar sobre a ferida delas. Ativismo radical, no século XXI, requer mais psicologia e menos músculos, mais sutileza e menos berros, mais honestidade e compaixão e menos gritos de guerra.

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