Parir e nascer: mulheres e homens empoderando-se

February 28, 2017

 

 

 

Recebi recentemente um belíssimo depoimento de parto de uma ex aluna dos cursos ONG Amigas do Parto. Cariny se formou o semestre passado como Educadora Perinatal. Já grávida e reflexiva trocamos uns poucos emails sobre seu processo.

 

Fiquei feliz em constatar que as coisas estão melhorando. Anos atrás, quando o movimento de mulheres da humanização ganhou visibilidade houve um verdadeiro embriagamento racionalóide. As mulheres se tornaram viciadas em informação científica, decoravam manuais de obstetrícia e desafiavam seus médicos, sonegando exames e evadindo informações e visitas. O parto domiciliar, que certamente é em muitos casos o melhor dos partos possíveis, se tornou o ideal universal e absolutista, e a força de vontade foi considerada, com verdadeira cegueira psicológica, a alavanca para mudar a realidade das gestantes.

 

A força de vontade é uma função psicológica importantíssima, mas não invencível. Nada

 

mais superficial e arrogante do que supor que pela força de vontade se obtém tudo o que se quer, muito menos parir em segurança e satisfação. Seria o mesmo que dizer que basta força de vontade para ter orgasmos. Muitas vezes, a força de vontade não é sequer suficiente para terminar de ler um livro! É por esse motivo que mais de um século atrás surgiu a psicanálise (para quem ainda não atinou para esse fato), a qual demonstrou amplamente que existem processos inconscientes que driblam e sabotam qualquer "força de vontade".

 

O parto não é um ato heróico do ego e de sua vontade férrea ou mole que seja, mas um processo do ser inteiro da mulher, o que inclui suas emoções, sentimentos e profundezas. Uma mulher unida internamente é lguém cuja vontade pode funcionar na direção escolhida pela razão consciente. Mas uma vontade sem raízes no ser interior, é grito histérico cujo fracasso é garantido.

 

Finalmente, essa simples lição, isto é que somos seres psicológicos e que devemos nos tratar de forma orgânica, está ganhando pé entre as mulheres brasileiras. Prova é o depoimento que convido vocês a lerem, "Cassiano Tadiotto Cielo, o bem nascido. Um parto místico". Cariny mostra em seu relato o percurso conflituoso mas saudável e carinhoso da tomada de decisão e amadurecimento interior rumo ao que ela já sabia era o "certo", mas que precisava ser conquistado. E o foi, em beleza e grandeza.

 

O marido de Cariny é exemplo para todo homem e pai. Nada de vacilos, de medo de sangue, de obsequiosidade para com as instituições. Ele foi companheiro e amigo no nascimento desassistido de seu terceiro filho. Cassiano nasceu em casa, entre pai e mãe, e só. Mãe e filho funcionaram em perfeita harmonia, como dois parceiros bem adaptados. Todos puderam descansar e dormir, retomar o parto, parir e nascer. Sem estresse, medo ou sufoco. 

 

Esse feliz processo e final emocionante é o resultado do caminhar feminino, da mulher em primeiro lugar. Cariny relata parte dessa conquista quando estava em pleno trabalho de parto. Ela se refugia no mato já com 3/4 centímetros de dilatação. Anda pela natureza buscando centrar-se, indagando em seu coração e acalmando sua mente. É assim que se faz. Mulher que se empodera não é uma Mulher Maravilha, mas uma pessoa que sabe estar só e, com a humildade e o tremor que toda decisão verdadeira comporta, anda com suas pernas apoiando-se em sua consciência. Assim, Cariny pôde assumir seu parto, abraçar seu homem e agora serem parceiros na jornada do nascimento.

 

Toda mulher que pare, já pariu sua decisão e sua nova versão de mulher antes de dar à luz. Esse processo é evidente no parto de Cariny, imagens vêm à sua mente como estrelas guias. Ela está focada mas não obsessiva. Em sintonia e presente ela acompanha o parto e se entrega ao marido quando ele se torna seu doulo e finalmente às poderosas contrações finais, o tsunami chegando que a leva consigo. No lugar do choque porém, há o arrebatamento de amor e dádiva.

 

O bebê nasceu, sem choro, sem barulho. Por que bebês devem chorar ao nascer? Começar a vida chorando?

 

Cariny termina esse parto com um bebê de três quilos e meio, cinquenta e um centímetros de comprimento e uma circular de cordão em volta de pescoço, em plena saúde e em paz. Um homem, uma mulher e um bebê, três pessoas que jamais esquecerão essa linda e renovadora experiência em suas vidas.

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