Maternidade: a trêmula conquista do poder

 

 

 

 

 

Uma aluna do meu curso “Psicologia da Gravidez, Parto e Pós-Parto” escreveu:

 

“Não se permite à mulher ser mãe. Quer-se uma mulher sempre esbelta porque a magreza se compara à juventude. Minha filha (de 4 anos) adora minhas curvas, minha barriga redonda, rechonchuda e macia. A distorção permanente da sociedade atual escraviza ainda mais a mulher. Hoje em dia, a mulher que dá à luz deve perder sua barriga logo após o parto e todo sinal da gravidez deve sumir como se algo de ruim que tivesse acontecido.

Fala-se de “pronta recuperação” como se ela tivesse passado por uma doença. Tampouco se permite à mulher ser sensível, isso é visto como algo fraco que não deve acontecer. Sensibilidade não combina com força. À mulher se pede que seja forte para carregar tudo o que precisa: trabalho, filhos, casa e etc.”

 

 

Creio que muitas mulheres se identifiquem com essa perspectiva. De fato, a identidade feminina é culturalmente moldada para que a mulher se encaixe numa camisa de força que só uma louca vestiria de espontânea vontade ou uma pessoa psicologicamente mutilada(graças à educação desde o berço).

 

Mas reconhecer o problema não basta, é como olhá-lo de longe, problemas sociais se mudam na pele individual. É preciso analisar pelo microscopio e identificar os nós que atam e as questões em pauta. A mulher habituada a ajustar-se a um papel, sequer o percebe mais, apesar de sofrer pelas consequências. E este papel é visível sobretudo na relação com o complementar dele: o homem (não é por causa dele que a mulher se estereotipa? Tudo é um jogo a dois).

 

Uma mulher sonha:

 

“Ela está numa casa com o marido, mas os dois estão separados. Há duas outras mulheres: A, uma conhecida do casal considerada pessoa burra e B, representada por uma atriz conhecida que tem um corpo perfeito. No sonho, o marido havia estado com A e agora estava com B. A sonhadora, que ama o marido, está desesperada. Num ciclo vicioso, ela sai da casa pelo quintal, entra num barquinho de papel sobre o canal de água passava por baixo da casa e rema contra a correnteza para poder entrar novamente na casa e pedir ao marido para voltarem juntos.”

 

O amor entre homem e mulher, no padrão atual, continua sendo uma gangorra que pende mais para um lado. Se ficarmos somente com o sonho, iremos já entender a situação. Há três mulheres: A a burra, B a gostosa, e a sonhadora, a abandoned, porque ela não sabe onde colocar-se. O marido havia estado primeiro com A e agora está com B. Mas B não é a sonhadora, ou melhor, não é mais…

 

A sonhadora na vida real admira o saber do marido (uns 10 anos mais velho do que ela) que é, conforme ela fala, um homem “inteligentíssimo”. Ela sempre gostou de homens assim e encontrou o certo. Com qual pé terá começado uma relação assim? Advinhem… Exato, A representa a versão inicial da sonhadora.

 

A sonhadora malhava muito no passado, não tanto para ser uma Barbie, porque não é o tipo dessa mulher (pelo menos não conscientemente), mas para ter um corpo forte e esculpido. O resultado é parecido, porém, com o da Barbie, logo ela era a B do sonho. Nele porém ela não é B, por que? Por uma questão simples: a sonhadora é mãe de uma criança de dois anos. Ter um corpo malhado para quem cuida de um bebê (e de uma família) é um sonho do passado.

 

Por outro lado, a sonhadora também não é mais A. Resultou que a maternidade é muito mais do que o ato físico de dar à luz e nutrir um filho. Quem a exercita de forma ativa e presente desenvolve um saber que nenhum livro ensina. Assim, a sonhadora que não tem consciência da profundidade de sua questão vive o seguinte dilema: qual é seu lugar, quem é ela frente ao marido (que não quer perder) uma vez que ela não cabe em nenhum dos papeis anteriores?

 

A precariedade de transporte (o barquinho de papel) mostra a insuficiência dos meios que ela tem à disposição (do ponto de vista consciente) para ir adiante na situação em que se encontra. O “jeitinho” que ela encontram para ir levando é frágil demais. A repetição do ato de voltar para pedir para o marido ficarem juntos indica a angústia que ela sente diante do enígma: como estar com ele agora? Agora que ela não é mais A e nem B?

 

O “problema” é que toda mulher adquire junto à maternidade (consciente) duas coisas: sabedoria e quilos. O que faz surgir um problema de identidade, que é tão pessoal quanto coletivo. A resposta que cada mulher vai dar a essse conflito pessoal formará a gigantesca onda que subvertirá o atual paradigma cultural a respeito da maternidade - e o transformar.

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