Mães reprodutoras ou criadoras?

 

 

Historicamente, as mães nunca foram consideradas sujeitos socialmente importantes a não ser pela sua função de gerar novos cidadãos. Elas produzem crianças, o sistema as molda. Elas cuidam de seus pequenos, o sistema os informa. O que quer dizer isso? Que os valores e a visão de mundo que irão dar sentido à vida de uma pessoa não vêm das mães, mas do sistema e seus representantes: escolas, mídia, trabalho e relações sociais.

 

       Você poderá dizer “minha mãe ensinou-me isso e aquilo” ou “eu devo a ela se hoje entendo certas coisas”. Não é o que a afirmação acima quer dizer. É evidente que todas as pessoas têm algo a ensinar e aquelas com as quais temos os laços mais profundos de afeto terão não só mais acesso a nós, como receberão nosso reconhecimento mais facilmente. Mas a questão não é ensinar “alguma coisa“.

        Historicamente, a função de pensadores e transformadores do sistema foi, em sua enorme maioria, masculina. Os homens pensam e criam no plano simbólico. Os homens criam livros, prédios, revoluções, religiões, descobrem continentes, novas espécies e repertos arqueológicos. Sua criação não é material pois até para criar um prédio, um avião, uma bomba é preciso antes projetá-los, e isto é obra da mente, ou seja das ideas. Enquanto isso, historicamente, as mulheres desenvolviam sua criação no plano físico: as crianças, isto é toda a humanidade.

         Apesar desta função ser efetivamente importantíssima, não é conferida tamanha consideração a nenhuma mãe, como qualquer uma de nós pode notar no trabalho, ruas e instituições. Quem valoriza uma mãe são seus filhos e, às vezes, o pai dos mesmos. Por que?

       Porque a geração material segue o rítmo da fisiologia e, em seguida, da força de trabalho feminina que acode, cuida, lava, cozinha, prepara sem parar. Não é preciso estudar ou ter preparação intelectual para isso. A função maternal consiste em levar um indivíduo até a idade adulta em saúde e pronto para ingressar no mundo, ou “mercado de trabalho”.

       Na história, não cabia a uma mãe perguntar-se se o mundo está bom do jeito que está, muito menos passar valores aos filhos para que eles possam ter visão crítica e transformdora. Não cabia a elas questionar as relações de poder e transmitir à sua prole uma diferente perspectiva sobre a sociedade. Uma mãe não segue utopias e não cria filosofias, somente produz as pessoas que irão encaixar-se no sistema do jeito que ele está, para que o mesmo se reproduza ad infinitum. Logo, a função maternal era a de reprodutora do sistema, pois através dela o próprio se perpetua em novos indivíduos.

Os tempos mudaram - ainda há muito chão pela frente, mas já podemos nos perguntar se não há outra maneira de sermos mães. Além de livros excelentes, aconteceu algo de interessante num campo inimaginável antes: o parto.

         A humanização do parto estimula o senso crítico das mulheres. Ao questionarem o modelo obstétrico, elas estão sacudindo estruturas de poder. O debate sobre a forma de nascer reflete-se naquele sobre a forma de cuidar do recém-nascido e em seguida sobre come criar uma criança. São pequenos passos rumo a uma tomada de atitude por parte das mulheres que deixam de ser conduzidas e utilizada para se tornarem verdadeiramente sujeitos na criação de um novo mundo.Livros e ideas por si só não são suficientes pois devem estar ancorados na vida vivida, na consciência encarnada, na realidade carregada de emoções e relações. Ou seja, naquele mundo feminino que tem se perpetuado o tempo, mudo e silencioso, e que dá o chão a todos nós.

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags