Libertação das Mulheres. Sociologia, Psicologia e Cristianismo

 

 

 

 

 

 

Para se orientar no infinito

 

é preciso primeiro distinguir

 

para depois unir.

 

Goethe

 

 

O machismo existe e é suportado pelos dois gêneros. Todo mundo sabe disso. Apesar do sofrimento que sentem, muitas vezes as mulheres não conseguem se libertar do que sabem estar errado. Há uma insegurança interior radical que as prendem. De onde ela vem?

 

Do ponto de vista da Sociologia, as mulheres foram ganhando espaços sociais na base da luta, do grito e da inteligência. Com coragem e perseverança ela abriram espaços sociais antes só masculinos. O século passado marcou um enorme avanço nesse sentido. Não podemos esquecer disso. Se hoje você tem um computador e pode ler este artigo que eu pude escrever, é porque alguém antes de nós lutou para que esta liberdade de pensar e se expressar fosse possível. Esse alguém foram mulheres. Honremo-as, hoje e sempre. 

 

O que o feminismo histórico conquistou no plano social e privado (família, relações, casa, estudos, etc.) resultou das condições do tempo e das sociedades nas quais se desenvolveu. Esse momento histórico está refletido no determinado nível de consciência que essas mulheres tinham.

 

A percepção e o entendimento das coisas depende de diferentes variáveis, entre elas o momento histórico, a cultura e a formação subjetiva de uma pessoa. Nem tudo pode acontecer em qualquer momento e com qualquer um. Há de estar prontos. Isso se chama consciência. Em função dela é que algumas pessoas apoiam o sistema ou o criticam. Mas todas estão em sintonia com seu tempo, porque não existe tempo estático, tudo é movimento (Heráclito). Dependendo da perspectiva e da formação pessoal, alguns caminham para frente, outros pisam nos freios.

 

Entramos na Psicologia. A psicologia é o discernimento do mundo interior, assim como a sociologia trata daquele exterior. Faz parte da velha cultura desconsiderar isso como fosse coisa “pouco importante”. E é por isso que temos hoje LINDAS éticas filosóficas, tivemos FANTÁSTICOS ideais políticos e humanitários e SENSACIONAIS valores espirituais e estamos ainda nesse mundo caótico, anti-ético e corrupto. Filósofos, sociológos e religiosos ainda se dão conta que sem trabalhar a psicologia individual (começando por eles mesmos), ideais e objetivos acabam no emaranhado sórdido e obscuro daquele mundo esquecido e não cultivado que chama-se “realidade interior” (ou subjetividade).

 

Voltadndo às mulheres. Do ponto de vista psicológico, a divisão do trabalho (veja Engels, Marx e Montefoschi) levou à divisão de papeis entre homens e mulheres. Não há nada de mal com isso. Qualquer mulher que desenvolva mais de um papel sabe da benção que é poder dividir. Aliás, estamos, nós mulheres, nesse momento histórico, coletivamente, lutando com esta situação: como ser tudo ao mesmo tempo? Mulher 360 graus?

 

A divisão do trabalho e dos espaços sociais levou à construção de identidades internas. Habituadas a só fazer filhos, as mulheres se entenderam (e foram entendidas) como só mães. Os homens, habituados a caçar, entenderam-se (e foram entendidos) como somente caçadores. Uma domina os sentimentos, a ternura, os cuidados e os espaços internos – corolário da maternidade. O outro domina a ousadia, o atrevimento, o espaço externo, as estratégias, a coragem (ela também tem coragem: ao parir; mas depois torna-se conservadora para proteger a prole). O problema surge quando um e outra são impedidos por dogmas internos e preconceitos sociais a serem mais do que o papel prevê.

 

Num segundo momento, enquanto a mulher continuou procriando – pois quem mais poderia fazer isso? – e com a evolução da sociedade, os homens tiveram tempo livre para pensar sobre a vida. É preciso ter tempo livre para pensar. Não se criam teorias trocando fraldas e amamentando (ou passando o dia no shopping e na manicure), não se escrevem livros e debatem idéias em meio a crianças, comida e casa para arrumar. Agora, é inegável que – do ponto de vista da evolução humana – as primeiras descobertas do Pensamento, as perguntas sobre a Existência, as Leis, sobre o Ser Humano e sua essência são de enorme valia. O que seria de nós todos sem isso? Eu mesma já teria minha vida cortada pela metade sem os Pensadores Gregos. Nossa civilização estaria pouco mais evoluída do que os conquistadores romanos.

 

Agora, se muitas mulheres hoje desistem de ter filhos pela carreira... por que haveriam os gregos antigos de considerar mais importante ter filhos do que desenvolver o Logos? A “produção material” sempre foi considerada menos importante do que a intelectual. Filhos, qualquer um pode ter. Idéias NÃO. E de fato, ter filhos é tanto mais valioso não porque é resultado de um ato sexual que qualquer mamífero pode cumprir, mas porque dá nascimento a um Ser Humano – o qual se define pela sua Consciência.

 

É assim que temos que entender o machismo dos gregos antigos. Se as mulheres faziam parte de um grupo social inferior era somente porque cuidavam de atividades corriqueiras, banais, “as de sempre” (como ainda fazemos, só que junto a muito mais). En contrapartida, as mulheres que não tinham filhos, as éteras, podiam ser filósofas e uma delas, Diomede, foi quem ensinou a teoria do Amor (de onde vem o Amor e o que é) a Sócrates. É dela que ele aprende.

 

A religiosidade grega demonstra que o machismo de sua sociedade não era absoluto quando tem Deusas em seu Olimpo. Atena é a protetora – vencendo Poseidon – de Atenas, a mais iluminada e importante cidade da Grécia, a Nova Yorque daqueles tempo. É um dos lados femininos da divindade que rege a inteligência, a audácia, as artes da civilização. Não Áres o deus da guerra inflamada, corpo a corpo, violenta e cega. Não Zeus, o Pai de todos os Deuses. Mas Atena. Assim como é Afrodite a deusa do amor e da sexualidade, não Eros (seu filho). Querendo, uma mulher tinha uma Deusa à qual olhar e rezar. Uma Deusa que suscita admiração e paixão.

 

Agora, com o Cristianismo foi introduzido um machismo muito mais duro e inapelável. Deste antes havia machismo, mas o que o tornou sólidamente sufocante foi o Cristianismo, que vem do Judaismo.

 

O Judaismo era uma religião tipicamente masculina. Já vinha há séculos lutando contra os outros cultos. Os repetidos ataques de ira de Javé devem se imputar à permanência de rastros das religiões co-existentes na mesma época, em particular aos cultos das deusas. Javé quer fazer limpeza geral disso tudo e condena sem piedade quem sai do trilho. Jesus nasce nessa tradição e, apesar de os evangelhos canônicos, darem sinais que ele não era machista, como é que há somente “evangelistas” e “apóstolos” homens? Limite de Jesus? Limites de quem escreveu os evangelhos? Limites dos que decidiram quais evangelhos eram aceitáveis e quais não? Por que a idéia de que Jesus pudesse ter tido amor carnal é tão repudiada? Entretanto, sinalizando as mudanças dos tempos, essa idéia apareceu publicamente com o livro “A Tentação de Cristo” que virou filme, deixando a Igreja Católica e parte da opinião pública no alvoroço, e agora com “O Código Da Vinci” desta vez melhor recebido pela opinião pública.

 

Quando a inferioridade da mulher não é social mas “espiritual” é que ela está tragicamente declassificada. Se o problema fosse somente social, se luta contra. Mas para lutar contra é preciso sentir-se digna de obter o que se quer. Para isso precisa ter consciência das correntes que prende num nível não racional. E a raíz última de toda “inferioridade” feminina está na dimensão religiosa.

 

A religião segura o que é válido acima das subjetividades humanas e da temporalidade. Supostamente dá o norte do que é imperituro e supremo, eterno e absoluto. É em nome da religião que o homem se torna superior à mulher. O social espelha o que o religioso sustenta. Sua raíz está no céu.

 

É o que diz a psicologia analítica de Jung. Se a mulher “não tem representação no parlamento de cima” o que acontece com sua auto-estima? Ela é inferior na essência. Isso é muito pior de ser inferior por lei! Leis se mudam, como se muda a essência? Só questionando que seja real. Mas para isso, precisa questionar... Deus! É (aparentemente) um cheque mate.

 

Com esta idéia introjetada durante séculos na psique feminina, a mulher é castrada num nível que ela mesma não percebe mas que se reflete claramente em sua vida, escolhas e limites. Há uma fraqueza, como um vazio básico, profundo, mudo, que faz com que ela possa falar muito, sonhar alto, gritar e chorar, mas não agir efetivamente e transformar.

 

Na hora h ela volta pro rebanho, submete-se ao homem, às regras, ao grupo, à família. Mesmo quando o grupo é de mulheres, há um homem de referência ou há um pensamento rígido que define os limites e a identidade do grupo.

 

A libertação feminina só ocorrerá de verdade quando as mulheres se outorgarem o direito a seguir sua “natureza” interna. Vou tentar explicar melhor tentando não cair em estereótipos. Quando o feminino "subir ao céu" como expressão do divino, a mulher terá a benção para Ser. Para que o feminino seja entronado legitimamente, as mulheres de carne e osso devem fazer o duro e corajoso trabalho psicológico sobre si mesmas resgatando o que ficou mudo e reprimido durante os séculos. Elas precisam dar valor e expressar o que seu corpo fala (desde a dor de barriga da menstruação à angústia do coração), suas intuições, sentimentos e emoções (Silvia Montefoschi). O homem conheceu o real e o transformou em idéias, conceitos, entendimenos, filosofia e ciência. De todo o real que o homem conheceu, o único que ficou de fora é seu próprio mundo interior. É a história do olho que não se enxerga (Paul Davies, físico) Os homens têm residência no lóbulo frontal do cérebro. O resto do corpo em sua presença física e simbólica mergulha na escuridão. Ele o manipula a partir de suas concepções e através de seus instrumentos mecânicos ou artificiais, nunca pelo caminho interno. Para apoiá-lo nessa postura ele tem as ciências e as religiões que, tendo sido criadas por ele, só poderiam espelhá-lo! Ora bolas.

 

A mulher vem para revolucionar. Ela traz um paradigma totalmente outro. Pelo menos, ela tem condições de fazer isso. É a hora dela. Como foi a hora dos filósofos gregos jogarem as fundamentas do pensamento ocidental 2500 anos atrás, seria a hora das mulheres lançarem um jogo totalmente novo, a partir de sua carne traduzida em Logos, eu seja em conhecimento universal e válido.

 

 

 

 

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