Minha mãe e sua nova casa. Ou a importância de honrar as conquistas da vida.

 

 

 


 

Recentemente, minha mãe comprou um apartamento. É o primeiro na vida dela. Em 1969, ela perdeu nossa casa, não era de propriedade. Porém era “nossa”, a melhor casa desde que havia se casado com meu pai. Era um belo e espaçoso sobrado na Lapa, em São Paulo. Fugimos de lá, por causa da perseguição policial. Meses depois acabamos indo à Itália e lá, ela comeu o pão que o diabo amassou. Uma moça educada a ser boa esposa e mãe, a ter um pai que garantia o sustento da casa, teve que, de repente, trabalhar e muito para poder dar de comer para seus filhos, sendo que um, ainda por cima, vivia com bronquite asmática. Essa situação durou por 6 meses, até meu pai, então clandestino na Itália, conseguir um emprego num lugar amigo, e assim fomos começando a nova vida em outro país.


Comprar um apartamento pode parecer uma coisa de nada, mas se prestarmos atenção às circunstâncias podemos perceber o valor real que está por trás desse gesto. Nós mulheres ainda somos educadas a esperar do homem esse tipo de coisa. Cuidamos da casa, mas as paredes, o piso e o teto, é ele quem dá. Assim foi criada minha mãe, que nasceu em 1941.

Ainda outro dia, eu percebi em mim uma “mancha rosa no cérebro” como simpaticamente a definiu um sonho meu. Se trata da expectativa romântica de que um homem venha salvar, ajudar, contribuir, resgatar. Enfim, fazer algo de bom e duradouro, além de tirar (como muitas vezes acontece)! Por quanto “liberadas” possamos ser, a fantasia do romance é praticamente irresistível. Está em toda a mídia, em livros, em revistas, em fofocas, em sonhos infantis, adolescentes e maduros.


Os homens também têm suas fantasias, não vamos ser ingênuas de achar que eles estão acima ou além desses modelos. Sua fantasia é a de uma mulher que apazigue e acalme suas tensões e dores, eles buscam uma enfermeira, amante, feiticeira, mãe, filha... Mas não é deles que quero falar agora.


A grandiosidade do fato de uma mulher de 68 anos comprar um apartamento por conta própria, deve ser reconhecido. Ela buscou por meses a fio, perturbando todos os corretores do bairro, sem se importar com o que eles continuavam dizendo, isto é, que o dinheiro de que ela dispunha não era suficiente para comprar um apartamento de dois quartos naquele bairro que é o melhor da cidade onde ela vive.


Minha mãe não deu tregua, nem a si mesma nem aos outros. Ela continuou procurando. Resolveu contentar-se com um quarto só, mas não descansou até que uma série de circunstâncias aparentemente fortúitas lhe trouxeram a chance de fazer um super negócio. De repente, tudo se ajeitou. Pintor, mudança, devolução de aluguel antigo, móveis novos. Entrou tudo nos eixo e outro dia ela retirou a escritura da casa. É dela.


Não vai precisar mais de homem algum para ter uma casa. Melhor ter um homem para ser amado, não para dar a casa, certo? Ela está inaugurando uma nova era. Ela hoje tem o espaço dela, e ninguém pode tirá-lo. Esta é uma grande conquista, para todo ser humano, mas sobretudo para uma mulher que veio de família pobre, que perdeu várias casas, que trabalhou em fábrica, que teve mais dois companheiros após meu pai, superando todos os modelos de relação que teve com cada um deles. Ela foi além.


Hoje, eu nos EUA, ela no Brasil, fizemos um ritual de benção da casa. Era preciso agradecer, reconhecer, chorar e abraçar essa conquista. Essa experiência da busca da casa e da conquista de uma, é uma evento que tem alma, ou melhor, que se enraiza na alma. Um ritual dá a possibilidade da alma expressar-se, espelhar-se na realidade material e respirar fundo. É um ato de amor conosco. Parar o mundo, interromper a visão material da vida e perceber a profundidade dos fatos.


Cada uma de nós acendeu uma vela. Eu sentei-me confortavelmente no meu sofá, fechei os olhos e comecei a meditar e orar, projetando-me para junto dela. Isso não é difícil, pois nossa ligação é tão forte que até me parece de ver o que ela está vendo. Enquanto isso, ela andou pela sua casa de vela acesa na mão. Cada canto foi reconhecido e saudado. Demos as boas vindas ao seu novo ciclo de vida, agradecemos pelo que foi conseguido, reconhecemos a longa trajetória, honramos sua força, sua luta, sua vitória.


Este ritual não apaga a tristeza de não ter tido os filhos pertos festejando esse evento. Mas este ritual dá uma contenção, um lugar de acolhida do valor existencial e feminino desse evento. Não se pode passar por cima dessas coisas.

Todas vezes que nós mulheres fazemos algo que nos custou trabalho, determinação e crescimento pessoal, devemos fazer quinze minutos de silêncio, mergulhar em nós mesmas, agradecer à vida e à nosso espírito que obteve o que fez por merecer.


Aquelas paredes, agora, espero estejam repletas dos raios de luz que enviei de longe.

Parabéns, mãe! Você é uma mulher de valor!

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