Quem cuida da casa?

 

 

Uma das primeiras coisas que a libertação feminista questionou foi o encadeamento das mulheres às quatro paredes domésticas. Elas queriam trabalhar fora, realizar-se numa profissão, ganhar dinheiro e ser autônomas. Há quem diga que o movimento pela libertação feminina foi o maior evento do século XX.


A divisão de papeis passou para o banco dos acusados, foi questionada e, no final, disputada – todos queriam o papel principal, o do homem. A igualdade de direitos é um valor incontestável, um ganho irreversível na história da consciência humana. Estamos todos de acordo que as mulheres não podem e não devem ser amarradas ao lar. Mas a revolução não terminou.


Quem então cuida da casa?


O espaço no qual moramos tem um sentido maior do ser o teto sobre a cabeça, o conforto do sofá na frente da televisão, a mesa de jantar e a cama macia. A casa é o ambiente físico no qual construimos nossa identidade. É no lar que a pessoa em seu início de vida encontra as condições para florescer (ou não). Ele é o pano de fundo sobre o qual criamos quem somos e queremos ser. O jeito da casa reflete a identidade de quem nela mora, assim como o trabalho que faz, as relações que tem e as decisões que toma.


Hoje em dia, nossas casas parecerem, muitas vezes, abandonadas. São habitadas mas desalmadas. Conter mobília cara ou barata não faz diferença alguma, ser grande o pequena também. Televisões e geladeiras, metros quadrados e peças de arte podem decorá-la e supri-las de alimentos e diversões. Mas nada de alma.


A alma da casa ganha vida pelas mãos de quem dela cuida. Vem do amor que é insuflado através da dedicação e do trabalho braçal. Acontece uma mágica ao colocarmos nossa energia produtiva no que fazemos, as coisas ganham uma espécie de luz e olhando para elas respiramos aconchego e gratidão. Elas se tornam convidativas, nutrem. Essas coisas o coração reconhece por instinto.


O abrigo que a casa oferece acalenta nossos sonhos e nossos corpos. A calma do lar alimenta a alma, renova as energias, permite baixar a tensão, e preparar-se para um novo dia. A limpeza da casa substancializa a dignidade do viver, promove a auto-estima e o valor próprio. A ordem da casa organiza nossos pensamentos, seleciona e distingue, estimula a clareza mental. O silêncio da casa restaura mentes e corpos cansados, acaricia os ouvidos e o coração.


Isso é tão verdadeiro que quem não está de bem consigo próprio não aprecia sua própria companhia, e não sabe cuidar de si e de sua casa. Quem, cujos fantasmas gritam no ouvido interno, não suporta o silêncio do lar, usa televisão, visitas e agito para abafar o peito cativo.


E quando se têm filhos em casa essas questões são gritantes. Eles com certeza precisam de um lar. Mas um ambiente seguro ainda não é um lar, se não chamaríamos de lar um cofre. Ele deve ser também tranquilo, acolhedor e organizado para que as crianças possam começar a abrir os olhos sobre o mundo e si mesmas segundo seus próprios rítmos, tendo a chance de ver, descobrir-se, entender, crescer. Barulho e diversão a todo custo nascem da agonia de adultos confusos e inquietos, incapazes de lidar com a calma e o silêncio que somente quem é dono de si sabe viver. Muitas atividades, festas e alvoroço reduzem-se facilmente a meios para desviar a atenção, esconder-se, fugir, atordoar-se para não pensar e sentir. Atropeladas, sem compreender, as crianças crescem achando que é assim que se vive, que isso é o normal e perdem as pistas de sua própria trajetória interna. Elas até parecerão divertir-se e desejar a bagunça porque estarão viciadas nela. Para saber se estão bem de verdade, basta conferir quantas vezes adoecem, como vão na escola, se fazem muita “manha”, se são irritadiças, se suas coisas estão jogadas, se não sabem entreter-se sozinhas e precisam de uma atividade pronta vinda de fora. Exatamente como uma plantinha só se fortalece no canto protegido e tranquilo de nosso jardim, os filhotes humanos desenvolvem-se ao terem as condições ambientais externas que permitem seu floresciento assim como sua poda.


As mulheres, muito certeiramente, querem ser mais do que donas-de-casa (ou até donas-da-casa). É preciso então resolver o que fazer com a casa. Se um homem cansasse de ser o único provedor e resolvesse simplesmente abandonar seu trabalho e ir estudar Geofísica ou Tecnologia Espacial, ele seria considerado um irresponsável. Por “pudor feminista” não se cobra às mulheres que resolvam a questão pendente da casa. Isso leva ao descaso e ao fingimento. Entretanto, assim como o homem deverá discutir seus novos projetos com a esposa e/ou colocar limites nos gastos, a mulher deverá resolver suas responsabilidades dentro do lar ao querer ir trabalhar, estudar, e garimpar um novo caminho profissional.


Cabe a elas educar a família para uma questão fundamental: que as xícaras não levitam para a pia, que quando um prato é usado ele deve ser lavado, que as camas não se refazem sozinhas, que o chão precisa ser mantido limpo, que muitas vezes é melhor uma comida caseira do que a congelada ou de restaurante e lanchonete. Cabe a elas dar-se ao trabalho de começar a desmimar a criançada que acredita que o mundo é um Disney World infinito sem responsabilidades, limites e compromissos. Ao invés da rotina: joguinho eletrônico, video game, TV, futebol e natação, que tal dar responsabilidades caseiras e ensinar o que é fazer parte de uma coletividade? Cabe às mulheres sacudir as consciências e mostrar que vencer a resistência ao trabalho doméstico recompensa porque nenhuma casa é mais gostosa daquela cuidada por mãos amorosas e trabalhadoras. E mesmo quando há uma empregada que faz por nós, não nos exime de saber cuidar de nossas coisas.


O mal estar de mulheres, casais e famílias se revela na desordem da casa e de seus rítmos, no sons altos demais, nas vozes e gritos, nas olheiras de crianças hiperativas ou evasivas, na dominância da televisão, na falta de relação real. Denuncia um lar ao avesso, isto é a revolução incompleta. Seria culpa das mulheres? Não somente. Entretanto, a faísca da mudança do paradigma familiar cabe a elas acender e, aí sim, espalhar-se-há beneficamente sobre toda a família.

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