ASPECTOS DA SATISFAÇÃO DAS MULHERES COM A ASSISTÊNCIA AO PARTO: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O DEBATE

 

1 Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

2 Departamento de Endemias Samuel Pessoa, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.
3 Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Brasil.

 

Introdução


Gravidez e parto são eventos marcantes na vida das mulheres e de suas famílias. Representam mais do que simples eventos biológicos, já que são integrantes da  importante transição do status de “mulher” para o de “mãe”. Embora a fisiologia do parto seja a mesma, em nenhuma sociedade ele é tratado de forma apenas fisiológica,
pois é um evento biossocial 1, cercado de valores culturais, sociais, emocionais e afetivos.


Vigora no Brasil um modelo de atenção ao parto em que este é definido como um evento
médico, carregado de risco potencial. Nesse modelo, denominado médico ou tecnológico, a gestante é tratada como paciente, os partos ocorrem, em sua maioria, em ambiente hospitalar, sendo o médico o profissional responsável pela assistência, com utilização intensiva de intervenções obstétricas. Essa visão médica abstrai a gravidez do restante da experiência de vida da mulher, tratando-a como episódio médico isolado 2. Os significados que as mulheres atribuem às experiências de gravidez e nascimento são ignorados e seus sentimentos e sua satisfação com o cuidado são considerados menos
importantes do que sua segurança e a de seu bebê 2,3. Ao longo das últimas décadas, tem-se observado um movimento crescente de críticas ao modelo brasileiro de assistência ao parto e aos seus resultados, endossado mais recentemente pelo próprio Ministério da Saúde 4. Esse movimento, denominado “humanização da assistência ao parto e ao nascimento”, surge em vários serviços que buscam a implantação de uma atenção menos intervencionista, baseada em uma participação ativa da mulher no processo, com maior ênfase nos aspectos sociais e emocionais da parturição, incorporando a possibilidade de presença de acompanhante familiar na rotina de assistência ao parto.


Apesar dessas experiências e dos bons resultados perinatais relatados 5,6, a produção
nacional relativa aos modelos de atenção ao parto é ainda modesta, e existem poucos trabalhos científicos que avaliem a implantação dessas práticas 7 e a percepção dos usuários em relação às mesmas 8,9. Na literatura internacional, verifica-se a existência de trabalhos que têm avaliado e criticado as práticas obstétricas 3,10,11,12, contribuindo
para a implantação de modelos de atenção que privilegiem condutas reconhecidamente
benéficas. Observam-se também estudos que abordam questões relacionadas à autonomia
e à satisfação das mulheres durante a assistência à gestação e ao parto, mas que têm sido realizados em contextos sócio-culturais e assistenciais diversos do brasileiro, o que dificulta uma transposição de seus resultados para a nossa realidade.


A produção científica nacional necessita ser ampliada nessa área temática, contribuindo
para a implantação de serviços de atenção ao parto menos intervencionistas, que atuem
na perspectiva de propiciar a vivência do trabalho de parto, parto e nascimento como experiências positivas e enriquecedoras. É importante que esses estudos incluam unidades de saúde voltadas para o atendimento das mulheres de menor nível sócio-econômico, já que alguns profissionais de saúde resistem a mudanças no modelo assistencial, atribuindo os bons resultados obtidos em outros países às melhores
condições de vida, de saúde e de “educação” das mulheres atendidas.


Uma pesquisa que estudou a prática do acompanhante familiar em uma maternidade
pública da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, com um projeto-piloto de humanização da assistência ao parto e o nascimento, também aferiu o grau de satisfação das mulheres com a assistência. Acreditava-se que uma baixa satisfação com a assistência ao parto pudesse dificultar uma avaliação positiva da prática do acompanhante 13. 

O objetivo deste artigo é analisar os fatores associados à satisfação das mulheres com a
atenção ao parto normal na maternidade em estudo, que presta assistência a uma clientela de baixa renda, residente em sua própria área de abrangência.

 

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