A MULHER E A ESCOLHA DO PARTO

 

 

De maneira geral, o que temos são discussões sobre o parto vaginal e a cesárea. O parto, ao longo da história, passou por mudanças, até para atender às necessidades de mercado, quando, por exemplo, o parto vaginal passou a ser realizado pelo médico e, em seguida, adentrou o hospital pelos riscos que oferecia à mulher e à criança quando realizado em casa. Por esse caminho, a cesárea foi se tornando popular e hoje ganha dimensões catastróficas e precisa ser repensada.


Nesse trajeto de “evolução” do parto, muitas nuances foram despercebidas por quem atuava junto à mulher. O foco foi se mantendo em ações e técnicas que davam o protagonismo aos profissionais. 


O alívio da dor do parto foi também evoluindo. E assim deixa a questão: quem disse que o parto tinha que ser sem dor? Quem pediu intervenção para acabar com a dor do parto? Mas uma vez que se oferece um produto, comparando somente seus benefícios, em uma sociedade onde a tradição do parto tem sido revista, pode ser um risco termos uma nova tradição: parto bom é parto sem dor e sem esforço; é aquele que você vê um tempinho na agenda e marca para receber seu neném bonitinho

quando é trazido do berçário. 


Nesse sentido, vale fazer o contraponto. As técnicas de alívio da dor nem sempre são invasivas e podem ser até prazerosas. Como, por exemplo, a massagem, a aplicação de óleos, a promoção de um ambiente acolhedor e confortável. Porém essas técnicas nem sempre são a primeira escolha. A anestesia na maioria das vezes é o que garante um parto “sem dor” às mulheres em hospitais.


E por falar em partos hospitalares, vale ressaltar o quanto as rotinas ainda são agressivas à mulher e bebê. É o puxa, aspira, corta, injeta e uma série de ações prontamente realizadas, seja em partos vaginais ou em cesáreas. Pode até ser confuso para um leigo sobre o que realmente está acontecendo ali: uma ressuscitação ou um nascimento? Mas as rotinas também são necessárias: aquelas que prevêem que a mulher deve ser alimentada durante o trabalho de parto, aquelas que garantem a amamentação na primeira hora, aquela que garante a assepsia correta dos locais onde acontece o parto ou aquelas que garantem um material esterilizado ou limpo de acordo com as necessidades.


Então, sobre essas rotinas, o que temos são aquelas que contribuem para um parto bom e aquelas que comprometem o bom andamento do trabalho de parto. Talvez o consenso esteja na flexibilidade das rotinas, assim como das pessoas que a executam. Além das técnicas e rotinas, os profissionais também foram passando por mudanças, quando o protagonismo do profissional foi se caracterizando. 

 

Hoje, não só os médicos exercem esse papel junto à mulher, temos as enfermeiras obstetras, as parteiras formadas e as parteiras tradicionais. Porém na atuação vêem-se as diferenças de um para o outro. Os médicos e enfermeiros obstetras ainda muito intervencionistas e pautados pela atuação clínica junto à mulher. Por outro lado, as parteiras que auxiliam a mulher no parto, mas com sua ação mais integral em relação aos outros profissionais. Seja com qual profissional for, as mulheres dividem com eles seus momentos do parto atualmente.


E dividindo esse espaço surge uma outra categoria profissional: a doula.

Apesar de não reconhecida como profissão, sua ação junto à mulher é reconhecidamente importante. A meu ver porque os outros profissionais foram se especializando de tal forma que sua ação junto à mulher desconfigura o que antes era crucial: o vínculo, o apoio, a ternura, a compreensão, o estar ao lado... É mais uma pessoa/profissional para atender às necessidades da mulher, entretanto não como em suas origens: pela dedicação. Não sou contra a presença da doula, nem que mais pessoas se formem para doular (até eu mesma penso em ser uma doula), entretanto ressalto a questão comercial que pode envolver a ação e futuramente gerar os mesmos conflitos já vivenciados por outras categorias.

Qual seria então o princípio para a atuação desses profissionais junto à mulher em seu trabalho de parto? A humanização pode estar sendo banalizada por alguns e até relegada a mudanças estruturais, porém ela é um ponto de partida para buscarmos nos profissionais uma assistência de ser humano para ser humano, em que todos sejam vistos como tais e não pelos falsos poderes conferidos por títulos. Muitos são os caminhos para humanizar a assistência: cursos, congressos, simpósios, programas... mas a mudança, a meu ver é mais interna que externa. Temos profissionais que mesmo antes de existir essa campanha pela humanização da assistência já a faziam como tal. Assim como temos aqueles em que foi preciso um pequeno estímulo para se humanizarem e assistir humanamente. E infelizmente há aqueles, que apesar do discurso, ainda não foram tocados para promover uma assistência humanizada.


E é nesse contexto que quero discutir a escolha da mulher pelo parto. Com as inseguranças afloradas nesse período, suas condições físicas, os riscos para ela e para o bebê, as crenças que a envolvem sobre o parto, os medos, a dificuldade de ser protagonista... Muitas mulheres tendem a seguir padrões para que tenham seus riscos minimizados e as conseqüências de exposição ao novo também não questionadas. A mulher nesse período passa a ter seu instinto maternal desenvolvido, até pela ação dos hormônios, mas não deixa de ser mulher e tem suas características pessoais e sociais preservadas. Por um lado, o discurso dos profissionais oferecendo os partos vaginais com mínimas intervenções e exarcebando o protagonismo da mulher (ainda com poucas ofertas, diga-se de passagem), ou então cesáreas eletivas em que quando a mulher menos espera o bebê já está em seu colo com a roupinha que ela escolher. 

 

Há também os meios termos, aqueles partos que mesmo sem a mulher decidir é um parto vaginal com múltiplas intervenções ou até uma cesárea “humanizada”. Do outro lado, estão as mulheres que escolhem em meio às vitrines aquele que mais lhe agrada.


Do meu ponto de vista, a mulher ao escolher o seu parto faz inúmeras  considerações, como discutimos no desenvolver dos temas no curso. Ela pode ser conduzida a uma cesárea eletiva pela falta de conhecimento sobre os riscos que isso oferece a ela e seu bebê. Entretanto, estar informada sobre esses riscos não garante que ela terá um parto natural, pois aí sua escolha pela cesárea pode estar pautada na relação que tem o parto com sua sexualidade, e permitir o nascimento por via vaginal

a ela é inconcebível. Assim como, os medos que a aflige desde a descoberta da gravidez, se é capaz de gestar, se é capaz de parir, como cuidar de seu bebê, como seria um parto vaginal pela sua concepção, o que já ouviu falar sobre parto e tipos de parto e muitos outros mais.


Além dessas considerações, existe também a questão da oferta e busca por profissionais que lhe dão segurança. Algumas mulheres decidem o tipo de parto que querem ter e ao buscar por profissionais sentem-se  frustradas. Eles com seus saberes descrevem como sendo ou arriscado, ou inusitado, ou precipitado demais a escolha, tanto para a cesárea quanto para os partos vaginais. E a mulher pode escolher seguir o que o médico decidir. Isso seria errado? Sim e Não, em meu ponto de vista. Por ser um momento tão único a mulher deve saber considerar aquilo que mais lhe conforta. Um médico marcar uma cesárea para a mulher pode ser tão agressivo quanto impor a esta mulher um parto vaginal.

 

Portanto a escolha pelo tipo de parto é da mulher, independente de onde ela se pauta para escolher. Cada um de nós tem seus preceitos para realizar as escolhas. Podemos ter buscado um pouco mais sobre o tema, mas isso ainda não garante que a nossa prática seja a melhor, mas sem dúvida é a melhor aos nossos olhos. Os estudos científicos têm contribuído para que as escolhas sejam realizadas de acordo com as melhores evidências disponíveis, mas mesmo assim podemos cerrar os olhos para o que não queremos ver e atentarmos para aquilo que consideramos o melhor.

Sabermos considerar a mulher em sua individualidade, com as nuances do medo, da autonomia, da sexualidade, da segurança, poderá fazer de nós melhores profissionais para atuar junto à mulher em seu trabalho de parto. Lembrando acima de tudo que o que sobressai na assistência é o respeito que temos por quem cuidamos.

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