O SACRIFÍCIO DA MATERNIDADE

 Queremos ser mulheres modernas, fazer muitas coisas, e não sermos detidas por nada. Queremos amar, ter vida social, estudar, trabalhar - e ter filhos. Rebelamo-nos contra o que limite nossos desejos, e acreditamos que uma mentalidade nova nos permita ter uma experiência diferente daquela das mães do passado.


A maternidade tem sentado no banco dos acusados por décadas. Por culpa dela as mulheres foram presas em casa. Por causa dela não puderam trabalhar, ganhar seu dinheiro e com ele sua liberdade (porque a liberdade no sistema capitalista está à venda, sim…). Nada disso queremos para nós, mulheres modernas. Temos inclusive, uma relação mais paritária com nosso companheiro e acreditamos que tudo será diverso em nossa vida. E nos preparamos para engravidar.

 

Se os meses da gravidez foram superados com leveza, driblando alterações físicas desagradáveis e sentimentos estranhos, o parto é a prova do x e aí entramos na maternidade. Então, descobrimos que a “nova” mentalidade que adotamos esbarra vigorosamente contra o obstáculo irremovível: o bebê. Descobrimos que não havíamos feito as contas com o bebê de carne e osso. E com o fato que, independente da época histórica, bebês são iguais desde o início da era humana.

 

Menor o ser humano for, menor espaço ele ocupar, maior espaço em nossa vida exigirá e maior será a dedicação que lhe devemos, o que no início da vida significa nada menos que 24 horas por dia. Nem mais, nem menos.

 

A maternidade consiste em viver exclusivamente para o bebê e ir ao longo de anos e anos transmutando a dedicação física em psicológica, os cuidados materiais com a atenção para o desenvolvimento do caráter, conversas e percepções mais sutis (do que aquela: quer fazer xixi? Está com fome?). É como um gigantesco mecanismo que vai lentamente deslocando seu baricentro do corpo para o espírito, sem mudar porém o fato de que uma vez entrado em sua vida, o filho permanece lá para sempre. Filhos são como sóis. Aquecem nossa alma ou a irritam na base de exigências e preocupações. Sem eles, porém, não se vive, nunca se poderá voltar atrás.

 

O maternidade é o sacrifício do ego da mulher, num longo rito de passagem que a leva a abarcar um universo maior e, se fizer as coisas direito, a se transformar numa mulher melhor e maior do que era antes de engravidar. Alcança-se este resultado se e somente se o  sacrifício inicial tiver sido cumprido. Sacrificar é isso: doar a parte melhor para os deuses, o que na identidade pré-maternidade significa abrir mão do domínio absoluto sobre si mesmas, do controle sobre a própria vida e entregar-se de alma e corpo ao que der e vier. Quem experimentou diz que vale a pena.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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