A METODOLOGIA DA ATUAÇÃO DA DOULA

 

     A doula, nos dias atuais, deve contar com uma metodologia de atuação que deverá abranger conhecimentos modernos juntamente com o resgate de aspectos antigos de sua função, adaptando a partes umas às outras e aplicando-as às necessidades de cada mulher. 

 

     O parto é um momento único e sublime, e a doula deve estar psicologicamente, tecnicamente e também fisicamente preparada para lidar com sua responsabilidade. A estrela principal sempre será a mãe, e a doula deverá atuar de forma discreta e efetiva para que a experiência seja positiva para todas as partes incluídas no processo.


     Segundo Adriana Tanese Nogueira, "existem atividades que lidam, mais do que outras, com experiências humanas. Há profissões que diretamente agem no sentido de melhorar a qualidade de vida de outra pessoa. Mede-se o sucesso de uma tal profissão quando a outra pessoa consegue um experiência positiva do momento de vida em questão. A doula é uma dessas profissões."


     O entendimento do parto como mecanismo fisiológico


     Entender o parto como mecanismo fisiológico é parte importante de todo o processo. A gravidez é um fenômeno fisiológico, que não indica, de forma alguma, condição de doença ou agravo de saúde. Inicia-se na união dos gametas e evolui, gerando modificações corporais como forma de preparar o cenário perfeito para a formação de uma nova vida. As alterações corporais observadas são também fisiológicas, e também devem ser encaradas como parte do processo, algo natural e benéfico. Não como uma patologia que deve ser escondida atrás de intervenções médicas.


     Segundo a obstetriz Maíra Bittencourt (fórum – anatomia e fisiologia do parto), "é muito importante para quem trabalha com saúde da mulher nas suas diversas formas e num certo sentido conhecimento e consciência corporal ajudam muito na vida e na saúde como um todo, cuidar do períneo inclusive exercitando esta musculatura é ajuda a prevenção de prolapsos nesta região a longo prazo o que é razoavelmente comum em idades avançadas entre as mulheres e depois de algumas gestações isto pode ser mais comum ainda." 


     Com a consciência corporal, a mulher entende melhor o processo, quais partes do corpo trabalharão, e quais devem ser ajudadas com exercícios de preparação. Neste caso, o medo do desconhecido poderá ser enfrentado através do esclarecimento e eliminação de possíveis dúvidas.


     O parto hoje em dia passou a ser tratado como uma doença, como algo que deve ser resolvido em um hospital, com excesso de técnicas e pouca humanização. Mas, na verdade, é um mecanismo natural e fisiológico, evento para o qual o corpo se prepara durante meses. Essa consciência deve ser transmitida à mulher, juntamente com o resgate do parto como parte da vida da mulher, com naturalidade e não como um sofrimento desnecessário que deve ser evitado.


     A família nesse caso tem extrema importância. É relativamente comum percebermos influências muitas vezes negativas, principalmente contando com experiências ruins relacionadas a partos anteriores. Assim, é fundamental que a família seja trabalhada e conscientizada, pois pode se caracterizar como elemento prejudicial.  É importante também que o parceiro esteja de acordo com as decisões da gestante.

 

     A preparação para o parto

 

     A preparação para o parto deve ser iniciada com o máximo de antecedência, preferencialmente no primeiro trimestre da gestação. Desta forma, os vínculos estabelecidos se tornam mais efetivos e mais fortes, e a Doula tem uma abertura maior para trabalhar. A confiança constitui fator importantíssimo para a assistência, pois é nela que todo o trabalho se baseia. Ao confiar, estamos mais propensos e temos maior facilidade para expor nossos medos e inseguranças. A Doula deve ter a sensibilidade de perceber e trabalhar cada ponto observado, sanando os medos e tornando a mulher dona de seu próprio parto.


     A gravidez é um fenômeno que deve ser encarado sob o ponto de vista fisiológico e psicológico. Não é feita apenas da união dos gametas, mas de sonhos, metas, desejos, amor e uma história que iniciou-se antes mesmo do surgimento da vontade de ser mãe.


     Devemos respeitar acima de tudo a vontade da mulher. Por mais que saibamos a importância do parto natural, jamais devemos forçá-la se esta não for verdadeiramente a sua vontade. Ouvir seus desejos e sutilmente demonstrar a sua opinião a respeito do assunto é fundamental para uma boa relação de confiança. Argumentos sólidos, sensibilidade e respeito devem fazer parte da Metodologia de Atuação da Doula.


     A doula deve ter confiança no seu trabalho, e saber enxergar a si própria como profissional capacitado. Dessa forma, o conhecimento poderá ser transmitido de forma eficaz, tornando possível a atuação livre de barreiras.


     A confiança no próprio corpo e o entendimento do parto como episódio fisiológico e natural são mecanismos facilitadores para a mulher ser empoderada. Cabe à Doula tornar este processo possível. Para isso, é necessário que o conhecimento científico esteja sempre atualizado, e a confiança no próprio trabalho.


     Através do conhecimento científico aprofundado, pode-se elaborar e buscar formas de preparação através de elementos simples, que possuem a única função de auxiliar o processo que o organismo é capaz de realizar por conta própria.


     Porém, tal preparação vai muito além de simples exercícios. É o momento que a mulher cria intimidade com o próprio corpo, passa a descobrir as funções, entende como o parto vai transcorrer e o mais importante: passa a confiar nos processos naturais.


     O medo da dor é o principal motivo que leva as mulheres a optarem pela cesárea.  E este é um dos principais pontos onde a Doula deve atuar. Ela deve conscientizar a mulher a respeito desse mito que está na cabeça de muitas gestantes. Para tal, é importante o conhecimento apurado dos mecanismos fisiológicos e dos métodos não farmacológicos que propiciam o alívio da dor. E, nos meses que antecedem os grandes dias, é de grande valia que a gestante conheça os métodos disponíveis para o alívio da dor e venha a escolher quais lhe parecem mais agradáveis.


     Um importante instrumento a ser utilizado nesse momento é o Plano de Parto. Com ele, a mulher pode estabelecer aquilo que deseja e aquilo que não deseja que aconteça durante e após seu parto. É importante que tudo fique bem claro e, os procedimentos, devem ser decididos juntamente com o obstetra responsável e, se possível, também com a equipe (em caso de parto hospitalar) previamente para evitar surpresas desagradáveis em um momento tão importante.


     Segundo a doula María Vergara, "lamentablemente en el modelo obstétrico actual y en la mayoría de las instituciones publicas y privadas, debemos encontrar estrategias que defiendan a las mujeres del sistema de rutinas y de mal trato generalizado e impersonal."


     Sabendo que a maioria das instituições defende o modelo intervencionista, a doula deve estar atenta e procurar parcerias com instituições e profissionais de saúde que defendem o modelo assistencialista, onde a humanização é prezada e, a vontade da mulher, respeitada.  Para isso, observar a si mesma como profissional capacitado e competente abrirá portas e terá grande importância para si própria e também para todas aquelas que vier a atender.



     O transcorrer do parto e a assistência da doula


     Segundo Rezende e Montenegro, o estudo do parto analisa três principais fases: Dilatação, Expulsão e Secundamento. Em cada uma dessas etapas, a doula pode e deve atuar.


     Durante a dilatação, a atuação deve girar em torno do movimento. A doula deve procurar estimular movimentos ativos e passivos, como as massagens, a dança, caminhada, exercícios respiratórios, etc. Deve lembrar sempre de que a atuação deve ser pautada em como a própria gestante gostaria de ser tratada, usando de sensibilidade para perceber ou simplesmente perguntando aquilo que gostaria de ser feito. O período de dilatação é importantíssimo e deve ser encaminhado com muita tranqüilidade. Um período de dilatação difícil  muitas vezes resulta em expulsivos complexos.


     O período expulsivo é o momento mais esperado. As muitas horas que o antecedem são importantíssimas para o bom andamento. A mulher deve estar tranqüila e relaxada, respirando adequadamente e garantindo a boa oxigenação do bebê.


     Não se deve forçar a expulsão do bebê, o ideal é esperar o momento da mulher. O corpo pedirá que ela faça a força naturalmente e, se ela sentir vontade, deverá ser orientada a fazê-la.


     Neste momento, muitas intervenções são possíveis. Um espelho bem direcionado permitirá a mulher observar os primeiros momentos do tão  esperado bebê, e acompanhar de perto com a visão privilegiada todos os acontecimentos de seu parto. Orientar para que toque a região genital também ajudará a sentir como está o andamento e, em muitas vezes, dá-lhe novas forças quando já se sente desmotivada para prosseguir.


     Palavras de conforto, toques, ou apenas o silêncio e um olhar motivador. Muitas vezes é o que falta para a entrega ser completa e o parto transcorrer de forma tranqüila e prazerosa. Neste momento, a  mulher sente aquilo que mais a fará bem. Os instintos irão guiá-la, e ela buscará a posição mais confortável, as atitudes mais motivadoras e os momentos mais adequados para cada procedimento.


     Ao nascer, deixar que a mulher toque seu bebê, colocá-lo sobre o ventre e deixar acontecer a primeira amamentação. Neste momento é importante respeitar e ter calma. É o momento mais esperado. A mãe finalmente conhece o rosto do bebê, sente o cheiro, aprecia os primeiros movimentos. Não devemos interromper com intervenções apressadas. É iniciado o terceiro período do parto: a dequitação. A placenta se desprenderá do útero e se exteriorizará. É desejável deixar que saia sozinha mas, se não ocorrer, massagens no ventre feitas com suavidade ajudarão o momento. Sem pressa. Nesse momento, o cordão será cortado, conforme o desejo da mãe O pai corta? Espera parar de pulsar? Tudo isso será decidido por ela.


     Análise de dados


     A pesquisa realizada foi do tipo bibliográfica, com abordagem qualitativa.  Os dados colhidos foram respaldados em artigos encontrados no Curso de formação de doulas – Parto e em livros relacionados ao tema.


     Um parto ocorrido de forma harmoniosa, onde os desejos maternos são respeitados,  leva à resultados imensamente satisfatórios, por exemplo a Disposição para maternidade melhorada, Definida como Padrão de provimento de ambiente para os filhos ou outro(s) dependente(s) que é suficiente para apoiar o crescimento e o desenvolvimento e que pode ser melhorado, diagnóstico observado por NANDA.


     Para que tais resultados sejam alcançados satisfatoriamente, é necessário que a doula esteja devidamente preparada para assumir tais responsabilidades. Para que isso seja possível, antes de se envolver com os aspectos psicológicos da gestante, ela deverá estar em dia com seus próprios aspectos psicológicos.


     A prioridade da atuação deverá ser sempre atender as reais necessidades da gestante/parturiente. Para isso, é necessário enxergá-las com olhos livres de qualquer conceito pessoal pré-formado que possa interferir na relação.  A doula deve servir como apoio e guia para que a mulher encontre o caminho que seu próprio corpo já conhece, exercendo a profissão com seriedade, responsabilidade e ética, se respeitando como profissional e buscando sempre a excelência.



REFERÊNCIAS

  • BITTENCOURT, Maíra. Anatomia e fisiologia do parto

  • NANDA – Diagnósticos de enfermagem da NANDA – Definições e Classificação – 2007 / 2008

  • TANESE NOGUEIRA, Adriana. A doula, a gestante e o parto de ambas, in Guia da Doula Parto, Editora Biblioteca 24horas.com

  • REZENDE & MONTENEGRO. Obstetrícia fundamental

  • VERGARA, María. Estratégias e Plano de Parto


Gabriela Savelli dos Santos Pereira é Enfermeira, tem 23 anos, e apresentou esse trabalho como monografia de conclusão de Curso Online de Formação de Doula Parto, 2011, ONG Amigas do Parto. Contato: gabi.savelli@hotmail.com

 

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