QUEM É A DOULA?

July 3, 2017

 

 

Primeiras pesquisas

 

Em seu livro “O camponês e a parteira”, Michel Odent, obstetra francês pionero do parto na água e de cócoras na França, radicado em Londres onde fundou o Centro de Pesquisa Primal, aborda, entre outras questões, a da inserção da figura da doula na sala de parto. A isso dedica um capítulo onde, citando os primeiros estudos norte-americanos realizados na década de 70, conta de como as “auxiliares de parto” que falavam tanto espanhol quanto inglês contribuíram para ótimos resultados ao acompanhar os partos de mulheres hispânicas imigrantes. Essas acompanhantes preenchiam, de fato, a falta de uma presença materna, familiar e feminina.


Segundo Debra Pascali, doula americana do DONA (uma das organizaçõeso das Doulas Norte-Americanas), o Doula Program Conecticut de 1996, (sempre nos EUA), demonstrou o êxito da presença de uma “Mother assistent” nos hospitais. O projeto foi tão bem sucedido que incentivou o desenvolvimento e a difusão das doulas até chegar à sua organização e profissionalização, através de associações e estatutos que regulamentam as atividades, o treinamento, os títulos e a ética.


A palavra


A palavra, apesar de grega, foi estabelecida nos EUA. Segundo Odent, na Grécia moderna não seria bem aceita já que, significando “mulher que serve outra mulher”, a doula na antiga Grécia era uma escrava. Uma parteira grega chegou a sugerir uma alternativa : “paramana”, que significa “com a mãe”.

De qualquer forma, deveríamos nos perguntar qual modelo cultural estamos escolhendo ao incorporar sem discussão e reflexão uma palavra (e um conceito) escolhida na sociedade norte-americana, precisamos avaliar se estamos nos identificando com seu sentido original e com a visão de mundo que traz. Toda palavra carrega sempre uma certa densidade de significado, devido à sua etimologia - ou seja, à história: aos sentidos que foi incorporando no decorrer dos séculos de seu uso.



O que é hoje

Independentemente do significado originário da palavra, podemos tentar delinear o perfil dessa figura moderna que tenta resgatar uma identidade antiga, a de uma mulher além da parteira (e hoje, além do pai, do/a médico/a ou da enfermeira obstétrica) assistindo outra mulher.


Ela é uma mulher, voluntária ou paga, treinada especificamente para o parto ou é uma profissional ligada geralmente à preparação de gestantes como professoras de ioga, educação física ou de cursos diversos que implicam algum tipo de acompanhamento psicológico e/ou físico no pré-natal.


Hoje, no Brasil já existe uma associação, a Ando, que assume o modelo da “DONA” norte-americana em sua proposta de treinamento técnico e de suporte emocional. Segundo Odent, porém, o termo “treinamento” sugere que o que a doula faz é mais importante do que “quem ela é”. Este questionamento não quer desvalorizar a importância do conhecimento até técnico, mas ajuda a permanecermos focados numa questão central: o que uma parturiente, ou aquela parturiente específica, precisa realmente?



Os contextos de atuação


Atualmente no Brasil as parteiras encontram-se em regiões afastadas dos centros urbanos, com poucos recursos hospitalares, em lugares onde a tradição de parteira resiste, enquanto na maioria das realidades urbanas as parteiras foram extintas, substituídas por obstetras, dos quais poucos estão realmente interessados em partos respeitosos (em geral estes são os médicos chamados de “humanizados” que apóiam o movimento geral de humanização e que foram pioneiros em partos de cócoras, Leboyer, domiciliares já há mais de duas décadas).


Nas grandes cidades, principalmente no Rio de Janeiro e em S.Paulo, a novidade mais recente talvez seja aquela representada por algumas enfermeiras obstétricas que estão resgatando os conhecimentos das parteiras tradicionais tentando fundi-los com os conhecimentos modernos.


A doula se insere neste panorama de formas variadas. Basicamente há três situações onde hoje ela pode atuar mais freqüentemente:


- em hospital público;

- em atendimento particular (em casa ou na maternidade) chamada a pedido da mulher que estabeleceu com ela um vínculo anterior (em algum curso ou por ser amiga etc.);

- em equipe médica, onde há uma parceria com o/a médico/a .


Mais uma pessoa na sala de parto?

Se seguirmos o raciocínio do Odent a respeito do “cocktail de hormônios” necessários ao desencadeamento do parto e ao delicado mecanismo de produção de ocitocina que pode ser perturbado pela liberação de adrenalina, pelo local, pelo número de pessoas presentes, pelas videocâmaras etc., conseguims entender por que ele teme que a doula se torne simplesmente mais uma pessoa que entra na sala de parto e que acaba sendo inútil, senão prejudicial.


Por isso, é interessante perceber qual é o diferencial que a mulher-doula possui dentro dos favoráveis à produção de ocitocina.


Um dos fatores propícios parece ser o fato de ser uma presença feminina, apesar de não ser interessante ela ser desconhecida à parturiente, principalmente em caso de partos particulares. Portanto, torna-se importante, nesses contextos, o estabelecimento de um vínculo anterior. Vem aqui à tona uma qualidade humana da mulher-doula: o equilíbrio pessoal, ausente de vaidade, junto à a capacidade de compreender se de fato o vínculo se estabeleceu ou não e de deixar à parturiente, até o fim, a sensação de poder realmente escolher.


Creio que um outro aspecto essencial seja o de entender a presença de uma doula ou acompanhante treinada como um apoio de mulher a mulher, a técnica só vem para incrementar e ampliar as possibilidades, e cuja essência está na solidariedade feminina, na identidade consciente e clara da mulher-doula como mulher que sabe transmitir a alegria e a força do corpo feminino, da sexualidade, dos ciclos vitais.


Seria interessante, nos treinamentos para doulas, assim como é para os psicanalistas ou para profissionais de técnicas psico-corporais - aqueles que têm uma formação rigorosa e obtêm os devidos títulos – introduzir um trabalho pessoal e subjetivo, de tipo psico-corporal, por exemplo, que permita à futura doula elaborar seus partos, seu nascimento, deparar-se com seus tabus, sua sexualidade, sua visão do corpo feminino, além das posturas relacionais e de comunicação.


Um outro requisito interessante pode ser o de ter vivenciado algum parto apropriadamente elaborado. Nos grupos de apoio à amamentação “Amigas do peito” por exemplo, o requisito  de ser mãe que amamentou é fundamental, enquanto a profissão das participantes varia muito. A experiência pessoal, a participação, a troca de informações, a capacidade de se informar sempre mais, de dar apoio, de escutar, de identificar os problemas, de afirmar somente o que se sabe e admitir os limites, a lucidez sobre o contexto histórico e social, a disponibilidade de se questionar o tempo todo, de se relacionar de forma madura com os outros e a consciência de si própria como pessoa e como mulher constroem a identidade de uma mulher que quer dar apoio a outra em qualquer área.


Estas são algumas reflexões para serem ampliadas e discutidas. Contudo me parece importante não desvalorizar o fato que: “O futuro do fenômeno doula depende de como se entende a palavra doula. Se o enfoque for no treinameno da doula e não na sua maneira de ser e na sua personalidade o fenômeno doula será uma oportunidade perdida.” (ODENT: 2002, 142-144)


 

Anna Basevi é professora de italiano no Rio, formada em Antiginástica - Thérèse Bertherat. Está engajada no movimento pela humanização do parto e faz parte do grupo de apoio Amigas do Peito. Participou do projeto “Amigas da Luz” para o treinamento de doulas, em 2002. Teve dois filhos, o primeiro nascido de cesárea e a segunda de parto normal, seus relatos foram publicados no livro “Mulheres contam o parto 2” (SP, Ed. Biblioteca24x7.com.br).



Bibliografia consultada:


ODENT, Michel. O camponês e a parteira. São Paulo, Ed. Ground, 2002.

FADYNHA. A doula no parto , Ed. Ground, 2003

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