AUTORIZAR-SE DOULA: UM PERCURSO INTERNO

 

Como nasce um profissional? O que nos torna profissional em determinada área ou assunto?

 

Tecnicamente pode-se responder a estas perguntas com rapidez e certeza: uma graduação em alguma universidade, um curso técnico ou profissionalizante, uma especialização e tantas outras formações. Um certificado ou diploma são seus documentos comprobatórios.

Porém, estas respostas não se fazem tão óbvias quando falamos de profissões que lidam com a emoção humana e suas histórias.

 

Trabalhar com a saúde mental e emocional do ser humano nos exige, antes de qualquer técnica ou teoria aprendida, um grau de auto-responsabilização muito grande, ou seja, não ter a consciência das nossas escolhas subjetivas da vida profissional pode gerar, no mínimo, um grande desperdício de toda técnica e teoria que aprendemos nos cursos de formação.


Quando lidamos profissionalmente com as emoções humanas do outro, por questões éticas, devemos ser e estar conscientes dos nossos caminhos. Uma doula que permiti-se tomar pela identificação com a profissão e não se questiona ao menos o porque escolheu acompanhar e apoiar uma mulher em sua gestação, parto e pós-parto, corre o risco de cometer graves erros com esta. Por isso, é fundamental haver um trabalho de questionamentos dos porquês que levaram esta mulher a ser doula. Não existe formalmente um código de ética que regularize tal profissão, mas ainda que este existisse, sabemos que nada garante um trabalho de qualidade se não tivermos a ética, o respeito, o amor, a doação, a humildade como ferramentas para uma conduta favorável. Tais sentimentos, desenvolvemos desde momento de nosso nascimento, ao longo de nossa história pessoal e profissional e são estas que devem ser muito bem trabalhadas no nível psicológico, corporal e espiritual, pois deixam marcas.


Antigamente, as doulas, na hora do parto, eram as mães, amigas, madrinhas e comadres mais experientes no assunto. Hoje, a doula virou profissão. E muito embora, observemos e encontremos algumas doulas que construíram seus percursos naturalmente, ou seja, que realizam o trabalho de apoio e preparação para o parto muito antes de nomearem esta mulher de doula, não deve-se perder de vista o quão importante é, cada uma, trilhar o seu próprio percurso interno.


Dentro do âmbito da humanização do parto, se formos compreender do que se trata poder nascer com dignidade, respeito, sem violência e com o protagonismo dado a mãe e o bebê nesta cena única, podemos melhor visualizar a verdadeira importância do papel de uma doula com equilíbrio emocional, humildade, sem vaidades ou racionalizações.


Do ponto de vista fisiológico, o obstetra francês Michel Odent, cita o parto e o nascimento como um momento onde está a trabalho no corpo da mulher um verdadeiro coquetel de hormônios. Um dos principais hormônios e responsável pelas contrações uterinas que favorecem a dilatação do canal de parto, a expulsão do bebê e da placenta é a ocitocina. 

Este também conhecido como hormônio do amor está presente e relacionado aos momentos de prazer, alegria, experiências sexuais e  na amamentação. Porém, para que o mesmo seja liberado no momento do parto e sua produção não seja interrompida, são necessárias algumas condições: pouca iluminação, ambiente tranquilo, seguro e privado e redução térmica. Tais fatores que favorecem a produção da ocitocina também afastam a interferência de um outro hormônio que bloqueia a produção de ocitocina e por consequência, torna-se o antagonista no trabalho de parto, a adrenalina.


Nos seres humanos, o neocórtex, estrutura cerebral responsável pelas atividades intelectuais como a linguagem e o raciocínio lógico, por exemplo, tem a função de controlar nossos instintos e nossas estruturas cerebrais mais primitivas. Portanto, para que a mulher alcance níveis de relaxamento ideais e consiga passar por um trabalho de parto sem estresse e sem sofrimento, faz-se necessário que o neocórtex esteja em descanso, ou seja, a parturiente precisa sentir-se confortável com as pessoas que ela elegeu lhes transmitir tranquilidade e apoio, estar num ambiente físico que ela considere seguro e calmo, com pouca luz e temperatura agradável.


Para tanto, o papel da doula é o de trazer paz e tranquilidade para o trabalho de parto. Deve proporcionar à mulher o preparo deste ambiente seguro e confortável, auxilia-la com massagens no corpo, banhos de imersão ou chuveiro, vocalizações, ritmos respiratórios, visualizações, musicoterapia, aroma terapia, cromoterapia, ou seja, neste aspecto fisiológico do trabalho de parto, a doula deve fazer uso com consciência e sabedoria dos recursos que aprendeu, de suas técnicas e posições para alívio de dor. Enfim, tudo que possa viabilizar o contato da parturiente com o relaxamento, com o prazer e com seus instintos mais primitivos e naturais. Contudo, atualmente, com a medicalização e hospitalização do nascimento e com tantas intervenções, manter o neocórtex “adormecido” torna-se praticamente impossível no trabalho de parto. Sendo assim, a doula torna-se mais importante neste momento, procurando trabalhar em conjunto com a equipe médica, favorecendo e acatando os desejos da mulher que deve sempre ser priorizada e respeitada. Porém se a doula não estiver tranquila e não souber  qual é o seu papel e função, de fato, não favorecerá a produção de hormônios necessários e poderá se tornar inútil ou até prejudicial na cena de parto.


Diante dos aspectos psicológicos, as grandes escolas teóricas que estudam a psique humana, afirmam que carregamos em nossas histórias emocionais, marcas e traumas, muitas vezes, constituídos e formados, da época da gestação e do nosso nascimento. Isto comprova o grau de importância e cuidado psicológico que devemos dar a estes momentos. 


E por conta desta mesma razão, devemos compreender o quanto acompanhar um parto tanto do lado dos profissionais envolvidos, quanto do lado da família e da parturiente, mobiliza diversos sentimentos e emoções conscientes e inconscientes.


Para a doula, faz-se necessário que ela compreenda a história de seu nascimento e que consiga fazer uma conexão entre este e seu próprio parto. Ela deve trabalhar seu psicológico para conseguir elaborar suas escolhas subjetivas enquanto mulher, o quanto isso reflete em sua sexualidade e no seu parto. E, principalmente, poder entender que estas escolhas podem servir-lhe de referência, ainda que não tenham sido boas experiências. Uma profissional atenta e que está em constante trabalho para seu equilíbrio emocional, pode dar apoio verdadeiro e despoluído de conteúdos pessoais psicopatológicos, sabe escutar e identificar os problemas de sua cliente com mais clareza, reconhece suas capacidades e limites diante do que esta deseja. Uma doula consciente de suas potencialidades e do que realmente significa a humanização, é capaz de lutar pelo protagonismo do parto de sua cliente em paz e sabendo se posicionar com respeito, afeto e humildade. Aliás, na “bolsa da doula” podemos encontrar diversos utensílios que facilitam suas técnicas, porém estes são itens fundamentais e que não podem faltar! Não ocupam espaço e não pesam nada perto do peso que tem o “pré-conceito”, a vaidade e a razão.


Durante a gestação da mulher, cabe a doula desenvolver um trabalho efetivo de esclarecimento e orientações de dúvidas e medos para que estes não venham refletir no momento do parto. Sem dúvida nenhuma, a informação reduz a tensão e esta reduzida minimiza a dor, pois muito da dor vivenciada no trabalho de parto vem da desinformação e do medo do desconhecido. Porém é importante que se saiba que informações e técnicas sozinhas, sem o apoio emocional, sem a energia que acolhe o medo e a insegurança no abraço, na troca de olhares e no aperto de mãos, não dão conta de deixar que a natureza da mulher fale e aja, que seu corpo, instintivamente, seja a melhor voz a ser seguida, como diria Mara Freire, doula há 25 anos.


Vale lembrar que uma doula que compreende bem seu papel de coadjuvante e “invisibilidade”, sabe que não lhe compete ocupar lugares de outros profissionais e, muito menos da família. Ao contrário, seu trabalho é também o de dedicar-se ao fortalecimento do vínculo familiar e o de procurar tranquiliza-los e trazer-lhes paz.


Se pudermos observar o trabalho de parto e o nascimento sob a ótica da natureza e de que estes nos permitem estar diretamente conectados a ela, podemos enxergar o quanto de energia espiritual feminina estes momentos reservam às mulheres. Há quem pense que o que é da ordem da natureza não se mistura com o espiritual, porém é exatamente aí, onde a fisiologia da natureza nos faz lembrar o quanto somos também puro instinto, que podemos encontrar o ponto em comum com a essência espiritual do ciclo evolutivo da natureza e da mãe Terra. Entrar em contato, através do trabalho de parto e do nascimento com a nossa natureza é aproximar-se, chegar e evoluir no significado mais puro e tênue do que é ser humano, do que é passar de figurante a personagem principal, do que é transformar-se alquimicamente, talvez, de menina para mulher, no sentido mais verdadeiro da palavra. É deixar que o mundo nasça de dentro de cada uma de nós e é também, ao mesmo tempo, dar a luz e dar-nos a luz! É poder, a cada parir da natureza e na natureza, responder a pergunta do Doutor Freud sobre o que quer uma mulher. Queremos ser parte, dignamente, do ciclo evolutivo, queremos gerar, fazer nascer e deixar morrer naturalmente, assim como a terra que nos alimenta.


Este ponto que une a natureza do espírito feminino é também o ponto unificante de todas as mulheres e mães que com amor, benevolência e acolhimento sabem-se e reconhecem-se solidárias na transmissão da força e da aposta no corpo feminino no momento do trabalho de parto. A doula com sua espiritualidade trabalhada e desenvolvida consegue ser força física, ainda que pequenina, ser força emocional, ainda que profundamente emocionada e ser força mágica ainda que não tenha formação de bruxa. Consegue incentivar, estimular a mulher a seguir em frente a cada contração, faz questão de lembra-la do quanto aquele momento é transformador tanto para ela quanto para seu filho e do quanto aquela união e vínculo construído entre doula e cliente representam fielmente o mais puro da alma e do espírito feminino.


A responsabilidade social humanizadora da doula, unificando todas estas evoluções, construções e transformações, é para com um mundo melhor. Contribuir em cada gestação, parto e pós-parto com informações, apoio emocional, físico e paz é  participar da construção de um mundo sem violência, de pessoas mais respeitosas, mais seguras, mais amorosas e solidárias.


Autorizar-se doula é uma consequência natural para todas as mulheres que, com a aprendizagem técnica e teórica, a dedicação, a compreensão e respeito a si mesmas, o trabalho de manter-se atualizada estudando e levando em conta seu papel espiritual e social na luta pela humanização do parto, fazem verdadeiramente a sua parte. Mas é, sem dúvida, como o parto e como tudo na vida que é bom e valioso, trabalhoso!

 

BIBLIOGRAFIA


1) Adriana Tanese Nogueira

- ”PARTO ALQUÍMICO - Entre individuação feminina e transformação social”

- ”A DOULA A GESTANTE E O PARTO DE AMBAS” em: Guia da Doula Parto, Biblioteca24x7.com.br, 2010

- “A RESPEITO DA DOULA”

2) ODENT, Michel

- “O CAMPONÊS E A PARTEIRA: uma alternativa a industrialização da agricultura e do parto.”- São Paulo, Editora Ground, 2003.

- “O NASCIMENTO DOS MAMÍFEROS HUMANOS”

FONTE: http://www.bionascimento.com/index.php?option=com_content&task=view&id=96&Itemid=37

3) FADYNHA – “A DOULA NO PARTO: o papel da acompanhante de parto especialmente treinada para oferecer apoio contínuo físico e emocional à parturiente.” – São Paulo, Editora Ground, 2003.

4)    Mara Freire , “ A CONDUTA E ÉTICA DA DOULA”.

 

Fernanda Meireles da Silva, 34 anos, mãe do João de 3 anos,  psicóloga e doula. Contato de email: fenypsy@gmail.com. Telefone: 21 94683504 – monografia apresentada para conclusão do curso de “Capacitação de doulas parto” – segundo semestre de 2010 - da ONG AMIGAS DO PARTO. DEZEMBRO 2010.

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