DOULAR E DOAR

 Nascimento de uma doula

 

A figura da doula pode aflorar em vários momentos na vida de uma mulher. As características essenciais que revelam esta presença podem vir desde o nascimento e ir crescendo ao longo da vida fazendo que a mulher oferte a sua presença e o seu apoio sem nunca ter freqüentado um curso de capacitação de doulas, e sem ao menos saber que o que faz ali tem nome, registro e história. Esta doula é formada na escola do amor, da intuição, da fraternidade e da gratuidade. E, por incrível que pareça, em tempos modernos ela ainda existe, em lugares não urbanos por exemplo.


O que qualifica uma Doula e a diferencia é o quanto ela pode, generosamente, doar nos

cuidados dirigidos à outra mulher. E isto originalmente vem de dentro, do coração e da alma. Isto vem da compreensão da mulher do seu papel de “estar junto”, oferecendo apoio. Estar junto, no fundo, significa sobretudo saber olhar e tocar com respeito; saber se colocar como presença humilde e serena naquele ambiente sagrado onde uma nova vida é esperada; significa ser forte e firme para acolher com amor materno, a emoção daquela mulher-mãe que também está nascendo.

 

Ser doula tem muito mais a ver com o que a mulher é, e com a forma com que ela se doa, do que com o tipo de formação que ela teve. Por outro lado se, essencialmente, dentro da mulher não houver espaço para a presença de doula, não serão diplomas acumulados que a conceberão. 

Atualmente, doular também é um trabalho remunerado. Muitas mulheres têm como renda secundária ou principal a prestação deste serviço. A grande maioria das mulheres-doula considera que sua oferta de apoio seja mais importante do que a renda financeira, facilitando bem a forma de pagamento, de modo que a família não seja desassistida por fala de condições de pagar pelo serviço. Algumas são voluntárias, e mesmo as que prestam serviço remunerado, fazem alguns trabalhos voluntários, por terem consciência da sua importância e do seu valor.


Doular mulheres modernas e urbanas pode ser tarefa mais complexa, necessitando compreender melhor sobre a situação histórica e institucional que este trabalho está inserido, de modo a orientar e facilitar o auxílio. De acordo com Adriana Tanese Nogueira em “A doula, a gestante e o parto de ambas”:


“A função da doula é melhorar a vivência de parto de uma mulher. Ela obtém esse resultado usando diferentes recursos, tais como dando informação, apoiando emocionalmente, providenciando conforto físico durante o parto, etc. Seu papel é o de co-adjuvante da protagonista da cena, a parturiente.” [...] (grifo meu)


“O dar à luz de uma mulher urbana e aculturada é hoje um fenômeno muito mais complexo do que é entre povos indígenas, que seguem rítmos naturais e alheios à civilização. Por este motivo, é de consciente humildade que a doula precisa. Ela deve adotar uma persistente postura de aprendiz, observando com atenção e abrindo mão de toda e qualquer idealização sobre como deveria ser o parto, para que sua ação seja pontual e benéfica para aquela determinada mulher.” [...]


“Entretanto, à doula cabe saber o que é melhor em termos de fisiologia do parto e do que se entende por humanização. Ela deve promover o protagonismo feminino, o parto ativo e a liberdade de escolha. Por isso mesmo, ela deve saber se colocar de lado quando for necessário, sem ressentimento e sem culpa.”


(Em: Guia da Doula Parto, Editora www.biblioteca24Horas.com)


Hoje, a doula que vem de uma formação moderna, e que vai auxiliar mulheres urbanas inseridas nesta cultura, necessita também atentar para outras questões alheias à mulher gestante/parturiente. É preciso tomar certos cuidados e investir em informação para ter condições de oferecer um atendimento devidamente humanizado, diante de uma cultura e de instituições que supervalorizam e sobrepõem valores materiais aos humanos. Entretanto, há que se tomar cuidado pois, a qualidade do “serviço” prestado pela doula não deve ser medido apenas pela voluptuosa formação/capacitação que ela investiu. Seria o mesmo que comprar um produto mais pela etiqueta que nele está impressa, do que pela qualidade que ele oferece.


Para saber se uma mulher está ou não pronta para doular é preciso sentir pelo coração. É preciso ter afinidade e um coração aberto para que a doula possa ser revelada. É uma avaliação relativa, não depende diretamente de uma coisa ou outra, mas de um conjunto de fatores subjetivos.


A sabedoria para doular uma mulher em trabalho de parto, assim como a sabedoria para doular também as dificuldades do mundo moderno, nasce da capacidade da generosamente de DOAR-SE ao outro, no sentido maior de servir ao próximo. Doar presença, amor, compaixão, compreensão, aceitação, atitude, quietude, uma palavra, o silêncio, o perdão. 


A doula pode ser percebida não só na ocasião de uma gravidez, ou de um parto, mas também diante dos seus atos perante à vida. Não tem como separar um comportamento que é tão inerente à essência da pessoa. Este comportamento carinhoso e caridoso da acompanhante Doula é o que a mulher gestante mais carece no mundo moderno e urbano, para ter condições de conduzir um bom final de gravidez para dar condições que em trabalho de parto ela possa ter paz para receber essa nova vida e realizar os melhores registros no início desta relação de mãe e de filho.


O mundo precisa de doulas


A Humanização do parto deve ser resultado do nosso comportamento no mundo, precisamos abrir nosso coração e nossa consciência para o humano, para o outro. O outro é imperfeito como nós somos, e somente com respeito e amor é que poderemos plantar sementes boas, e cultivá-las também.


Há que se identificar o que nos move na vida. Para se falar em humanização é preciso saber se quem fala é o coração. Os bens materiais, os acúmulos monetários, o conforto exagerado, o status e o poder devem ser repensados, não podem ser o principal. Não no projeto de humanização.


Todavia, este comportamento tão convencional, tão aceito pela sociedade é facilmente assumido por traz da “bandeira” da causa, sujeitando a pessoa a se afastar das razões do coração e, assim, se afastar da Humanização. É preciso ter firmeza nos propósitos fundamentais da Humanização. Assim, nas palavras da Adriana Tanese Nogueira, eu seu texto “Humanizar, o que é isso?”:

 

“Humanizar é individualizar a pessoa atendida através de um comportamento também individual. Precisamos estar atentos para não seguir padronizando, ignorando o indivíduo humano.


“Humanização é saber questionar o que foi aprendido, averiguando e inovando, seguindo o que faz sentido agora, e não porque uma autoridade assim falou. Humanizar o profissional é individualizá-lo para que ele seja capaz de agir em primeira pessoa, não como um repetidor de informações dadas e nunca conferidas. Humanizar a gestante é dar-lhe condições de ser autônoma e independente, e não assustada e dependente. [...]


O que fazer para fomentar a conscientização? Obtém-se esse resultado quando se encoraja o pensamento crítico, isto é o questionamento e a reavaliação de idéias, práticas e hábitos. O debate aberto e franco das idéias é um dos caminhos mais propícios. [...]


Em síntese, humanização do parto e nascimento significa atitudes crítcas e autônomas que não justificam saberes autoritários para esconder o medo da mudança. Significa atitudes corajosas e honestas que possibilitem a individualização de todos os envolvidos. Cada mulher, cada parto, cada profissional, cada relação, cada dia é um dia, uma relação, um profissional, um parto, uma mulher diferentes. [...] (grifo meu)


O único jeito se sobreviver nesse cenário sem ter uma crise de nervos é abandonar comportamentos padrão e ser também tão únicos quanto únicas são as situações e as pessoas que se encontramos. Isso não quer dizer, desconsiderar os saberes já adquiridos. Ao contrário, isto permite seguir criticamente saberes, crenças, intuições, conhecimentos, tradições. Assumi-los com olhar crítico, averiguando na prática, observando, analisando, conferindo e aprimorando o conhecimento dado em confronto direto com a vida, tendo em vista sua complexidade de aspectos. Atitude científica corresponde a isso.”


(Fonte: Humanização: o que é isso?)


Dificilmente conseguimos ofertar a intenção do coração se não a ofertamos à nós mesmos em atitudes cotidianas. É preciso nos individualizar em cada atitude, e se colocar na condição de aprendizes diariamente. Desde os governantes mais influentes e poderosos até cada um de nós podemos todos ser Doulas, acolhendo, respeitando, apoiando, estando junto, humanizando as relações.


E como diz o pediatra Carlos Eduardo Corrêa: “precisamos propiciar melhores nascimentos, melhores vínculos mãe-bebê ao nascimento, melhores vínculos familiares, para que as crianças possam se tornar melhores adultos, e o mundo possa ter mais paz”.


Paz!

 

Kelly Mamede Junqueira Silva, formada em Direito, mãe, doula e fotógrafa. 

Texto extraído de sua Monograifa final para o Curso de Formação de Doulas Parto, II semestre 2010.

30/12/2010

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