A PAIXÃO DE LILITH


O que gente como eu tinha

a fazer com gente como Adão?

E no entanto por algum capricho

ou mesmo por obra de Seu humor negro

fomos atirados juntos, a terra

polida e o brilho da lua...

Então Adão quase me deixou

louca - meu primitivo e boquiaberto

homem, dócil como pilão

e brando como a lógica

vivia ostentando o direito divino

de suas propriedades

perante minha óbvia carência

de bens.

A princípio, tentei agradar,

abri minha caixa de milagres para ele,

ele só queria moldar as ervilhas.

Queria seus pássaros em sua mão.

Usei, de bom grado, de todos os rodeios.

Fiz um abrigo de folhas, trepadeiras e veneno para anjos,

ele não quis entrar.

Não quis se deitar sob minha improvisada

colcha de retalhos. Preferia morrer.

Ele tinha a Palavra,

recebera-a do alto, enquanto eu,

anterior aos alfabetos, inútil como um &,

permanecia mergulhada no redemoinho do caos.

Jardins foram feitos para ordenadores,

jardineiros foram feitos para ordenar,

mas eu não sou ordenável, sou a primeira transgressora.

Por isso, enquanto Adão cercava cuidadosamente suas bestas

e apertava a sebe,

e enquanto anjos guerreavam e buliam

com os nervos de Deus,

inadaptada e fora do lugar, fugi.

Xinguei Adão.

E deixei meu primeiro amor

chupando o dedão.

#Lilith

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