EDUCAÇÃO DE BEBÊS É DISCUTIDA PARA QUE SE EVITEM OS EXCESSOS

July 12, 2017

 

por Débora Yuri
Agência Folha

 

     Até que ponto é bom estimular seu filho desde os primeiros meses de vida? João Vitor tem apenas 11 meses e já elegeu sua música preferida. É a canção de abertura do CD que ‘deu de presente’ no Dia dos Pais chamada “Coraçãozinho”. “Toco a canção todo dia. Ele a reconhece desde os primeiros acordes e começa a sorrir e a mexer os braços”, conta a mãe, Adriana Ranzatti, psicóloga.

 

     Depois da febre da fabricação de ‘superbebês’ nos anos 90, que tomou os Estados Unidos, os especialistas têm voltado suas atenções para a questão de maneira mais consciente e saudável. Hoje, é ultrapassado pensar que um bebê deve ficar quieto no berço ou no colo, recebendo apertões nas bochechas. Mas defender a superestimulação é igualmente antiquado.

 

     “Para o desenvolvimento adequado de uma criança, os estímulos são necessários”, diz Luiz Vila Nova, chefe do departamento de neurologia infantil da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Mas o excesso de estímulo é tão prejudicial quanto a falta deles”, alerta.

A cada estímulo multisensorial (auditivo, visual ou tátil) recebido, o bebê forma ligações no cérebro. Armazenadas, essas ligações originarão seu repertório cognitivo (de conhecimentos). No futuro, quanto maior for esse repertório, mais capacidade de aprendizado a pessoa terá.

 

     A curto prazo, a estimulação pode gerar bebês mais ‘espertos’. Desde os três meses, João Vitor passa o dia no berçário do colégio Magno, que adota técnicas de estimulação há cinco anos. “João chega sempre com uma novidade. Ele se movimenta mais e tem mais sentido de direção, além de ser mais regrado e mais concentrado que o irmão, que ficava com a avó”, diz Adriana, comparando seus dois filhos.

 

     Entre os métodos de estimulação utilizados no Magno estão exercícios         físicos direcionados e uma série de vídeos importados dos EUA.

 

     “Baby Mozart”, “Baby Bach” e “Baby Einstein” são alguns dos títulos de vídeos a que os bebês assistem – uma série de colagens de estímulos em forma de imagens, com som ao fundo. “Não queremos criar         superbebês”, diz a diretora do berçário do Magno, Cláudia Tricate. “Nosso objetivo é ajudar pais que não têm tempo de trabalhar as potencialidades de seus filhos.”

 

     No berçário, a carga de exercícios é supervisionada pelo psicomotricista Sérgio Nacarato. “O bebê que não se movimenta adequadamente não desenvolve o lado intelectual”, explica, lembrando que a overdose de estímulos, mais do que perigosa, é muitas vezes desejada pelos pais. “Tem mãe que pergunta se não dá para aplicar mais exercícios ao bebê, pensando que assim ele vai andar mais rápido”, conta.

 

     Segundo Daniela Teperman, psicóloga da USP, colocar o filho num berçário voltado para estimulação não é prejudicial. Mas ela frisa que o melhor estímulo é aquele que faz parte da realidade da criança. O tema foi bastante discutido no “2º Congresso Nacional sobre Bebês” que aconteceu no Recife, semana passada. “Para um recém-nascido, é muito mais produtivo ouvir música popular com os pais, em casa, do que ver um vídeo que toca Mozart.”

 

     Passada a neurose americana que pregava que o mais importante era o bombardeio de estímulos, a ciência e os educadores trabalham agora com o estímulo vinculado à afetividade. “O afeto é mais importante que o estímulo. O ideal é estimular de maneira afetiva”, diz o neuropediatra Luiz Vila Nova.

 

     O médico da Unifesp usa o exemplo dos CDs de estimulação auditiva, muito populares nos EUA nos últimos anos: “eles não são ruins, mas sozinhos não são suficientes. É melhor não tê-los e brincar com a criança”.

 

     Já inscrever o bebê na natação ou aplicar massagens específicas, como a Shantala, pode ser bom. No primeiro caso, é indicado que a mãe ou o pai fique na água aquecida com o filho. A Shantala, técnica indiana que estimula músculos e nervos, deve ser aplicada por um terapeuta corporal ou pelos pais.

 

     Deixar o bebê o dia inteiro deitado no berço, ou aos cuidados de um profissional, deve ser evitado. Os pais têm de levá-lo a lugares arborizados, dar banho de sol, conversar com ele, demonstrar carinho, propiciar a sua convivência com outras pessoas. “Nada substitui o carinho da família”, comenta a psicopedagoga Ana Maria Magioli. “Imagine como cresceria um bebê criado por um robô que não fizesse nada além de despejar estímulos nele.”

 

     CUIDADOS ESPECIAIS – No Rio de Janeiro, a escola-berçário Andrews Baby faz um trabalho de estimulação direcionada desde 94. Magda Bouças, a diretora, sabe que o tema é controverso: “É por isso que temos muito cuidado com a exaltação”. Ela conta que sempre recebe pais perguntando se há aula de música, de mímica ou de alfabetização precoce. “Não dá, é muito cedo. Lidamos com crianças normais.”

 

     A impossibilidade de os pais cuidarem de uma criança em seus primeiros meses de vida é um problema sério, já que é nessa fase que ela mais precisa de cuidados especiais. Atraente pela comodidade, a opção por um berçário também permite o contato – sempre saudável – com outros bebês.

 

     Na hora da escolha, preste atenção se o local possui um bom espaço. O ideal é que ele seja adequado para o bebê explorar o mundo, com brinquedos pedagógicos, colchões, e sem quinas.

 

     Repare também na maneira como os profissionais lidam com a criança. Eles devem ser afetuosos e pacientes. Nada pode ser feito contra a vontade do bebê. Nos primeiros dias, os berçários devem permitir que o pai ou a mãe fique por perto, acompanhando o comportamento do filho.

 

     A presença de psicopedagogo, pediatra, psicomotricista e nutricionista também é necessária. O que não significa que o ‘staff’ do berçário tenha de ser grande. “Gente demais atrapalha. O universo do bebê é pequeno, ele não consegue se relacionar com muitas pessoas”, pondera a psicóloga Daniela Teperman.

 

     Se os estímulos são necessários, mas passada a barreira do excesso, prejudiciais, até que ponto estimular o bebê? “É uma questão de bom senso”, explica Luiz Vila Nova, para quem a criança não pode ter experiências desconfortáveis. “Ele deve ter prazer e curtir o que está fazendo.”

 

     Eula Tanaka, médica, também deixa seu filho – Leonardo, nove meses – no berçário do Magno. Ela aprova os métodos utilizados por considerá-los espontâneos e ‘na dose certa’. “Nos primeiros meses, dava um aperto no coração deixar o Léo lá. Eu queria fazer tudo, mas não tinha tempo. Não dá para parar a vida.”

 

     SUGESTÕES – Os especialistas dão uma série de conselhos para que os bebês sejam estimulados de uma maneira saudável. Eles dizem que deve-se deixá-los brincar com outros bebês e com crianças maiores, passear em locais tranqüilos; contar e ler histórias, assim como brincar de teatrinho ou fantoche, permitindo a interação.

 

     Também é importante dar aos pequenos um brinquedo novo de cada vez, cantar músicas de ninar quando forem dormir, deixá-los ouvir músicas calmas; conversar com eles o tempo todo: quando estiver dando banho, trocando fraldas e roupas e os alimentando.

 

     Uma das dicas mais importantes é o respeito às vontades do bebê. Se ele quiser dormir, não o force a brincar ou ficar acordado; nem o deixe sozinho em frente à TV (assista com ele); se ele já consegue sustentar a cabeça, brinque com ele de barriga para baixo, estimulando-o a rastejar e a engatinhar. E, um dos melhores conselhos é: faça ele se tocar, sorria e o acaricie sempre. O maior estímulo para um bebê é o afeto que recebe dos pais.

 

Fonte: http://www2.uol.com.br/JC/_2000/0110/br0110c.htm

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