FECHANDO O CORPO APÓS O PARTO

July 23, 2017

 Durante a Reunião Nacional de Parteiras Tradicionais, que aconteceu em Oliveira dos Campinhos (Salvador – BA), entre os dias 21 e 24 de Setembro de 2004, participei da oficina “Rituais e Tradições”, ministrada pela Naoli Vinaver, parteira tradicional mexicana. Esta oficina teve o objetivo de realizar um intercâmbio entre os rituais e as tradições que fazem parte da prática das parteiras tradicionais de diferentes regiões do Brasil e do México. 

 

Foram apresentadas várias técnicas que facilitam o trabalho de parto e o nascimento (expulsão do bebê), muitas delas com o uso do “rebozo”, uma espécie de xale muito resistente, feito provavelmente no tear. A oficina foi finalizada com a explicação e demonstração de um ritual realizado pelas parteiras tradicionais no México, onde se faz o “fechamento” do corpo da mulher após todo o processo de gestação e parto. Neste ritual o principal elemento utilizado é o calor (chás de ervas, banho quente de ervas e aquecimento do corpo com toalhas e cobertores) e o contato físico, através de massagens (com óleo, ervas, seixos e pedacinhos de madeira, ambos polidos) e compressões, sendo o rebozo utilizado em sete partes do corpo da mulher: cabeça, peito, parte alta do ventre, quadris, coxas, tornozelos e pés.


Acredito que para muitas de nós que estavam ali presentes, assim como para a grande maioria das mulheres modernas, o corpo permanece “aberto” após a gestação e o nascimento de um filho. Muitas das que estavam presentes se emocionaram, chegando às lágrimas. Principalmente as que não eram parteiras tradicionais ou que não tiveram seus filhos com uma delas.

 

A nós, mulheres urbanas, nos falta esse cuidado que está intimamente relacionado ao período do resguardo (puerpério), que acaba sendo objeto somente das orientações médicas. Falta o cuidado para com as emoções, a mente e o espírito. Precisamos de tranqüilidade e de receber cuidados especiais, precisamos reconhecer que é necessário desacelerar para assimilar esse novo papel de mãe e nos recuperarmos da longa jornada que foi a gestação e o parto.

 

Sem esquecer que este período de resguardo exige também de nós muita  força, pois temos ali a realidade de um filho para cuidar, alimentar, acarinhar e acolher. Pessoalmente senti o quanto o meu corpo, mente, emoções e espírito permaneceram “abertos” depois do nascimento da minha filha. Compreendi o porquê daquela sensação de abandono, de “baby-blues” e de cansaço sentidos após o parto. Compreendi que deixei de ouvir os apelos da mulher em mim que queria parir o seu filho - quando concordei com a cesárea escolhida pela médica.

 

Acabei lutando contra o meu instinto de mulher que sabe e quer parir querendo ser, na medida do possível, aquela “mulher forte”, disposta e feliz que “nem parece que pariu um dia desses”, que é o que atualmente esperam de nós. Compreendi o real significado do “cuidar” tão praticado pelas parteiras, que envolve também o cuidado depois do parto. Elas sabem que não é só o corpo, não foi apenas um útero que trabalhou muito, foi uma mulher que esteve envolvida no poderoso (e dispendioso) processo físico, emocional e, sobretudo, espiritual de gerar e dar à luz.

 

Encerramos a oficina “Rituais e Tradições” em meio a muita emoção e gratidão, pois além dos conhecimentos trazidos pela Naoli, pudemos compartilhar as experiências das parteiras ali presentes. Comecei a assimilar de forma mais profunda a concepção que elas têm do seu trabalho. Para elas “fazer” o parto significa “dar uma força”, compartilhar a experiência e o conhecimento adquiridos com outra mulher, cujo saber específico e individual elas não ignoram. As parteiras tradicionais se colocam como companheiras da mulher que está dando à luz.



* Liliana Silveira é biologa, doula e estudante de enfermagem. Foi co-fundadora da ONG Amigas do Parto.

 

Ilustração: NGUYEN THANH BINH

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