MADAME DUROCHER. UMA PARTEIRA DIPLOMADA

July 25, 2017

 No final de 1834, Maria Josefina Matilde Durocher anunciava pela primeira vez seus serviços, pelos jornais do Rio de Janeiro. Tinha acabado de concluir o Curso de Parto, na Faculdade de Medicina. A partir de então a parteira se tornou uma figura popular na cidade, não só pela competência profissional, e como resultado enorme clientela, como pelo aspecto viril e trajes usados. Logo após a formatura, adotou os acessórios masculinos casaca e cartola. Alfredo Nascimento a coloca entre as figuras bizarras que circulavam pelas ruas do Rio de Janeiro de então. “Nao se sabia à primeira vista, a que sexo pertencia essa personalidade original”, diz o médico. “Pelo aspecto físico e pelas vestes era um misto mal definido de homem e de mulher.” O estudo da trajetória pessoal e profissional da parteira Mme. Durocher suscita questões sobre a contribuição das mulheres na construção do conhecimento científico no Brasil. Maria Josefina Matilde Durocher nasceu em Paris. Em 1816, aos sete anos, acompanhou a mãe, a florista Ana Durocher, que se estabeleceu como comerciante no Rio de Janeiro. Neste ano houve um aumento considerável do número de franceses no Brasil e de comércio com a França. Se inicialmente a abertura dos portos realizada pelo príncipe regente d. João beneficiou os ingleses, depois de 1814, com a queda de Napoleão e a volta dos Bourbons ao trono francês, o quadro se transformou. Usos, costumes, cultura e idiona na Corte passaram a ter novo sotaque. Nem mesmo nas lojas eram encontrados os tradicionais tecidos ingleses. Todas as pessoas de alguma posse tinham aderida à moda francesa.


Assim, ao chegar no Brasil, Ana Durocher já encontrou inúmeros compatriotas estabelecidos. Sua loja em pouco tempo prosperou. O comércio varejista da Corte, visto como miserável pelo comerciante inglês Luccock em 1808, com a chegada dos franceses foi substituído por lojas mais sofisticadas. As das modistas, chamavam a atenção pelas vitrines, espelhos, iluminação, além de balconistas do sexo feminino, novidade na época.

A loja de Ana Durocher se localizava na Rua dos Ourives, entre a Rua do Ouvidor e a Rua do Rosário, no centro comercial da cidade, e vendia fazendas, armarinho fino, vestidos e artigos para completar a toilette feminina, como luvas e chapéus. Ao lado de mercadorias importadas, tinha confecção e vendia manufatoras nacionais, como flores de pena, da Bahia.

Mas o sucesso não durou muito. Talvez devido à doença prolongada da proprietária, a loja de Ana Durocher entrou em decadência. Josefina, que tinha pouco mais de vinte anos e lá trabalhava como caixieira, passou a dirigir o negócio da família. Em novembro de 1829, Ana Durocher morreu. A fiha manteve ainda a loja por dois anos. Nessa época ela vivia com Pedro David, negociante francês, mas por pouco tempo: em julho de 1832, ele foi assassinado


O perfil mais conhecido de Mme. Durocher foi construído quando decidiu abandonar a profissão de modista. Anos mais tarde, ao relembrar fatos de sua vida, revelou que, devido à decadência da loja, sendo ela mãe de dois filhos “sem pai” e dispondo “de parcos recursos”, teve de refletir seriamente sobre como mantê-los. Vale destacar que aquilo que ela chama de parcos recursos daria para comprar cerca de dez escravos. Ocorreu-lhe então se dedicar à profissão de parteira, a partir dos exemplos de Mme. Piplar, que havia se hospedado em sua casa no final dos anos 1820, e de Mme. Berghou, parteira da Santa Casa da Misericórdia, ambas francesas.


Seguindo o modelo das parteiras do seu país de origem, que obtinham a formação em esoclas que ensinavam a profissão, Josefina se matriculou, em 1834, no Curso de Partos recém-criado na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Paralelamente ao curso regular completou a formação com aulas particulares de importantes médicos da Corte.


A escolha da profissão de parteira foi acompanhada de duas decisões extremamente significativas: a opão pela nacionalidade brasileira e a adoção de roupas de estilo masculino. Mme. Durocher achava o vestuário mais cômodo para os trabalhos da nova profissão e mais decente para uma parteira. Julgava que esse aspecto experior deveria inspirar confiança na parturiente, distinguindo a parteira das demais mulheres. Certamente era também uma necessidade na época, quando as poucas mulheres que se aventuravam a sair à noite sozinha eram tomadas por prostitutas.


Talvez aqui serja necessário fazer um parêntesis e lembrar que o período em que Mme. Durocher se tornou parteira pode ser considerado como o início de uma nova época na assistência ao parto no Brasil. Até então as únicas exigências para o ofício eram provar experiência e passar por um exame, o que, aliás, nem sempre era cumprido. Os partos eram realizados quase que exclusivamente no domicílio da parturiente, assistidos por outra mulher. Não havia maternidades e dar à luz fora de casa, na enfermaria da Santa Casa, era apavorante. O recurso era usado apenas em casos de partos complicados, pois as mortes eram frequentes, pela falta de controle das infecções. Ajudar no parto e dar os primeiros-socorros aos recém-nascidos fazia parte das atribulações do sexo feminino, cujos conhecimentos eram transmitidos de geração para geração. Tanto as senhoras faziam o parto de suas escravas, parentes e vizinhas, como as escravas partejavam as senhoras.


A partir do início do século XIX, os médicos passaram a taxar como ignorantes e a perseguir não só as parteiras, mas todos os práticos que se dedicavam à cura, como sangradores, boticários, dentistas, numa tentativa de uniformizar o saber e evitar a concorrência. Para poder exercer essas atividades, passou-se a exigir diploma, obtido nas duas únicas faculdades de medicinas existentes no país, a do Rio de Janeiro e a da Bahia, criadas em 1832. No caso das parteiras, a formação deveria ser obtida no Curso de partos, anexo à Clínica Obstétrica (então nomeada Cadeira de Partos, Mulheres Pejadas e Recém-Nascidos). Os médicos eram responsáveis pelo regulamento e ensino, o que reforçava a posição de autoridade em relação às parteiras e legitimava normas de conduta segundo os preceitos por eles estabelecidos. Porém, eles ainda tinham muita dificuldade em ter acesso ao quarto das parturientes: só eram chamados em partos difíceis, quando era necessária alguma operação.


O número de parteiras formadas no Brasil, no século XIX, foi pequeno. Para a inscrição, exigía-se que as alunas fossem alfabetizadas e soubessem francês. A maioria das parteiras continuou a exercer a função sem diplomada. Boa parte das parteiras diplomadas vinha de outros países. Muitas, além de fazerem o parto no domicílio das parturientes, recebiam clientes em casa. Aí eram atendidas em geral escravas, negras livres, e mulheres que por alguma razão estavam impedidas de dar à luz em suas próprias casas, como por exemplo as provenientes do interior, as mães-solteiras e as viúvas. Esses estabelecimentos não possuíam boa fama, pois havia rumores de que também faziam abortos.


Até onde se sabe, Mme. Durocher não recebia parturientes em casa. Mesmo assim fez clientela muito rapidamente. Já no ano seguinte à formatura atendeu cinquenta mulheres, e um ano depois o número de atendimentos quase duplicou. Atendia nos vários bairros da cidade, sem restrição social. Se partejava escravas e negras livres, atendeu também a familiares de comerciantes, militares, jornalistas, políticos e até mesmo de membros da nobreza. Em 1866 foi nomeada parteira da casa imperial e atendeu a princesa Leopoldinha, filha de d. Pedro II.


Apesar de atender famílias ricas, Mme. Durocher continuou a assistir à população mais pobre. O médico Vieiria Souto lembra que, no tempo em que a parteira viveu, “não eram tantos nem tão aparelhados os meios de assistência à parturiente”, sendo muitas vezes obrigados (ela octogenária, e ele jovem médico) “a entrar em casebres, por escadas tortuosas, arredando móveis e removendo-os do quarto da paciente, para assisti-la”.


Além de partos Mme. Durocher fazia também atendimento clínico e tratava de problemas ginecológicos, cuidava de doenças do recém-nascido, era convocada para perícia médico-legal, aconselhava na escolha de amas-de-laeite. Ocasionalmente, prestou serviços médicos quando as epidemias de febre amarela (1850) e cólera-morbo (1855) atingiram a cidade do Rio de Janeiro.


Vale ressaltar que a prática da ginecologia estava proibida a quem não fosse médico. Mme. Dujrocher justiciava-se alegando que muitas mulheres preferiam morrer a serem examinadas por homens e por isso ela se viu obrigada a estudar as moléstias uterinas, “nao para parecer médico, como os antagonistas espalhavam”, mas para justificar a confiança que alguns colegas depositavam nela, mandando-lhe clientes ainda refratárias “ao progresso civilizado”.


No que diz respeito à perícia médico-legal, a nossa parteira participava de exames para verificar atentedo ao pudor, defloramento, estupro, condições do feto, infanticídio etc. Em suas memórias, contou que um dia foi chamada pela polícia para dar parecer sobre um defloramento. Para o mesmo fim, também foi chamada uma parteira leiga, que trazia um ovo, o “fala verdade”. Intrigada, Mme. Durocher perguntou para que servia, ao que a comadre respondeu: “Olha cá eu trago o tirateima”. Assim, se o ovo entrasse na vagina significava que a o moça já não era donzela. Com ironia, Mme. Dorcher afirma ter dito para a colega: “Vê que foi bom você não se servir do ovo, agora pode aproveitar para a gemada”.


Quando à escolha de amas-de-leite, Mme. Dorcher fazia exame clínico nas candidatas para verificar se possuíam constituição física própria para a amamentação, quantidade de leite, e se não eram portadoras de alguma doença grave que as impossibilitasse do exercício daquela atividade. Em 1849, ela publicou um livreto aconselhando como escolher amas-de-leite e os cuidados sobre a amamentação, e mandou um projeto de inspeção de amas-de-leite para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Com o passar dos anos, Mme. Durocher se tornou uma especialista, atendendo partos considerados complicados, nos quais parteiras diplomadas, comadres e até mesmo médicos precisvam de uma segunda opinião ou se viam impossibilidados de agir. Ela executou a maioria das operações obstétricas mais usadas no período, como aplicação do fórceps, a versão, a embriotomia, a “encerebração”. Sabia cuidar de parturiente com eclampsia e hemorrargia, complicações muitas vezes fatais, e como reanimar o feto, restabelecendo a respiração.


Mme. Durocher realizou mais de 5 mil partos em quase sessenta anos de atividade profissional. No Rio de Janeiro não foi a única parteira a ter uma carreria tão longa. Mas certamente é a que teve maior reconhecimento e prestígio. Em 1871, foi convidada para ingressar na Imperial Academia de Medicina, sociedade que tinha entre suas finalidades dar parecer em Obstetrícia. Foi, e ainda é, a única parteira a ser admitida como sócia.


Desde a admissão na Academia ele teve uma importante participação. Apresentou várias observações de sua clínica, fez sugestões sobre políticas públicas de saúde, condenou e aprovou o uso de determinados medicamentos, participou de comissões e publicou mais de vinte textos na revista da agremiação, destacando-se o artigo “Considerações sobre a clínica obstétrica”, onde apresenta fatos e resultados colhidos durante mais de cinquenta anos de clínica, que pode ser considerado o trabalho mais completo sobre a prática obstétrica no Brsil no século XIX.


A trajetória de Madame Durocher evidencia que, pela instrução e pelo  acesso ao espaço público, a francês esteve bem à frente de seu tempo, seguindo um caminho que só mais tarde seria compartilhado por outras mulheres. Por mais paradoxal que possa parecer, sua trajetória também é prenúnio de fim de uma época em que ainda havia reconhecimetno profissional das parteiras. Quando ela morreu, em 1894, o processo de absorção da Obstetrícia pelos médicos caminhava a passos largos. Cinco décadas depois, as parterias e o parto normal realizado no domicílio se tornariam “coisas do passado”.


Maria Lucia Mott é doutora em História pela Universidade de São Paulo e pesquisdora do Núcleo de Memória da Saúde do Instituto de Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. E-mail: cucamott@uol.com.br

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