O “JURAMENTO DE HIPÓCRATES”

July 25, 2017

 

Hipócrates e sua Escola não se limitaram a dar à medicina o estatuto  teorético de ciência, mas também chegaram a determinar com lucidez verdadeiramente impressionante a estatura ética do médico, o ethos ou identidade moral que deve caracterizá-lo. À parte o pano de fundo social bem visível no comportamento expressamente tematizado (antigamente, a ciência médica passava de pai para filho, relação que Hipócrates identifica com a existente entre mestre e discípulo), o sentido do juramento se resuma numa proposta simples que, em termos modernos, poderíamos expressar assim: médico, lembra-te de que o doente não é uma coisa ou um meio, mas um fim, um valor, e portanto comporta-te conseqüentemente.


Eis o juramento integral:


“Por Apolo médico, por Esculápio, por Higéia, por Panacéia e por todos os deuses e deusas, invocando-os como testemunhas, juro manter esse juramento e este pacto escrito, segundo minhas forças e meu juízo. Considerarei quem me ensinou esta arte como a meus próprios pais, porei meus bens em comum com ele e, quando tiver necessidade, o pagarei do meu débito e considerarei seus descendentes como meus próprios irmãos, ensinando-lhes esta arte, se desejarem aprende-la, sem compensações nem compromissos escritos. Transmitirei os ensinamentos escritos e verbais e toda outra parte do saber a meus filhos, bem como aos filhos de meu mestre e aos alunos que subscreverem o pacto e juraram segundo o uso médico, mas a mais ninguém. Valer-me-ei do regimento para ajudar os doentes, segundo minhas forças e meu juiz, mas me absterei de causar dano e injustiça. Não darei a ninguém nenhum preparado mortal, nem mesmo se me for pedido, e nunca darei tal conselho; também não darei às mulheres pessários para provocar aborto. Preservarei minha vida e minha parte puras e santas. Não operarei nem mesmo quem sofre do ‘mal de pedra’, deixando o lugar para homens especialistas nessa prática. Em todas as casas em que entrar, irei para ajuda os doentes, abstendo-me de levar voluntariamente injustiça e danos, especialmente qualquer ato de libidinagem nos corpos de mulheres e homens, livres ou escravos. Tudo aquilo que possa ver e ouvir no exercício de minha profissão e também fora dela, nas minhas relações com os homens, se for algo que ao deva ser divulgado, calar-me-ei, considerando-o como segredo sagrado. Se mantiver este juramento e não rompe-lo, que me seja dado desfrutar o melhor da vida e da arte, considerado por todos e sempre honrado. No entanto, se me tornar transgressor e perjuro, que me suceda o contrário.”


Extraído do livro de REALE, GIOVANNI – ANTISERI, DARIO. História da Filosofia – Filosofia pagã antiga, Vol.I, São Paulo, Paulus, 2003, págs. 126-7

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