AGNODICE: A LENDA DA PARTEIRA SALVA PELAS MULHERES

July 26, 2017

 

Ou seja: como a medicina teve que abrir as portas às mulheres

Agnodice é uma personagem frequentemente mencionada na história antiga quando se fala em medicina, mas sua vida não é familiar aos demais. Se conta que ela conseguiu se tornar médica apesar de ser-lhe proibido por lei. É imporvável que ela tenha sido uma figura histórica real do terceiro século a.c. em Atenas; mais provavelmente, ela pertence ao reino do mito e das lendas. Sua história nos chegou através de Hyginus, un autor latino do primeiro século d.C.


Uma certa vírgem chamada Agnodice desejou aprender medicina e foi por isso que cortou seus cabelos, vestiu roupas masculinas e se tornou um estudante de Herophilos. Após 

aprender medicina, ela ouviu uma mulher gritando com força em meio ao trabalho de parto e correu para lhe dar assistência. A mulher, achando que se tratasse de um homem, recusou sua ajuda; mas Agnodice levantou sua roupa e mostrou que era uma mulher e pôde atender a paciente. Quando os médicos homens descobriram que seus serviços não eram solicitados pelas mulheres, eles começaram a acusar Agnodice, dizendo que ela havia seduzido as mulheres e acusaram as mulheres de se fingir doentes [para serem visitadas por Agnodice]. Quando ela foi levada até o tribunal, os homens começaram a querer condenar Agnodice. Agnodice mais uma vez levantou sua túnica para mostrar que ela era realmente uma mulher. Os doutores homens começaram a acusá-la com maior veemência ainda [por quebrar a lei que proibia as mulheres de estudar medicina]. Nessa hora chegaram as mulheres dos homens que estavam conduzindo a acusação e disseram “Vocês, homens não são esposos mas inimigos uma vez que estão condendando aquela que descobriu como nos devolver a saúde.” Foi assim que os Atenienes  modificaram a lei, de modo que as mulheres nascidas livres pudessem estudar medicina.


Desde o século dezessete até os dias de hoje, as parteiras têm usado essa lenda para se defender contra a dominação masculina em obstetrícia que levou à medicalização do nascimento e parto. Agnodice têm sido invocada como um fato, e citada como uma parteira pioneira, o precedente para as mulheres em todos os campos da medicina.


Todavia, apesar da história médica tradicional focar indivíduos pioneiros que lutaram contra seus pares e venceram - e certamente Agnodice cabe bem nesta tradição - é altamente improvável que o conto de Hyginus estivesse baseado em fatos verídicos. O ato de levantar a saia para revelar o próprio sexo é um tema comum nos contos, e pode ser encontrado em outras estórias. Figuras femininas de terra cotta levantando suas vestimentas (link para a imagem 2), que datam do quinto ao terceiro século a.c., são geralmente interpretadas como gestos que servem para espantar as forças negativas ou demoníacas. A estória de Agnodice pode ser simplesmente uma explicação para uma dessas figuras. Além disso, o nome Agnodice literalmente significa “pura em frente à justiça,” uma coincidência que sugere que seu nome origina-se desse conto - um expediente não incomum da literatura grega.


O conto de Agnodice frisa um dos maiores problemas com relação ao tratamento de pacientes mulheres. Como o autor dos tratados hipocráticos As doenças das mulheres (De morbis mulierum; 1.62) explica, as mulheres não gostam de confiar no saber médico masculino, e isso frequentemente interfere no sucesso do tratamento. De qualquer forma, não é surpreendente que as mulheres fossem pouco cooperativas quando se considera o fato que elas eram educadas no isolamento e ensinadas a terem vergonha de seus corpos.


A ginecologia nem sempre foi um território de médicos homens. Antes do quinto século a.c. e do advento da medicina de Hipócrates, o parto era confiado aos cuidados informais de mulheres da família ou da vizinhança que já haviam parido. Algumas dessas mulheres se tornaram conhecidas por suas habilidades e lhes foi dado o título informal de maia ou “parteira”. Conforme trabalhavam, elas foram acumulando saber sobre outros aspetos da vida reprodutiva das mulheres, como a fertilidade, o aborto, a contracepção, e até (na imaginação, se non na realidade) a determinação do sexo.


Mas, na época em que os tratados hipocráticos foram compostos, no final do século quinto a.c., este tradicional monopólio feminino do parto foi quebrado; médicos homens foram assumindo sempre mais os casos ginecológicos, como fica evidente pela creação de texto que tratam desse assunto.


A transição do controle feminino para o envolvimento masculino aconteceu sobretudo porque os homens olhavam com desconfiança para a autonomia reprodutiva das mulheres. As pacientes femininas descritas nos tratados hipocráticos, e sempre quando se fala desse assunto na literatura grega em geral, são frequentemente vistas com olhar de suspeita pelos homens. A possível sabotagem da descendência masculina pela esposa era uma grande fonte de ansiedade para os homens. Assim, a luta das mulheres para controlar seus próprios corpos era um tema instável e volúvel na antiguidade, assim como o é nos dias de hoje.


Fonte: University of Virginia - Acesso em Junho de 2006
Tradução: Adriana Tanese Nogueira

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