GINE-GAIA-ECOLOGIA. TRANSCENDENDO O PASSADO SEMEANDO O FUTURO

Marcos Leite dos Santos*[1]

"The mechanistic world view, taking the play of physical particles as ultimate reality, found its expression in a civilization which glorifies physical technology that has led eventually to the catastrophes of our time. Possibly the model of the world as a great organization can help to reinforce the sense of reverence for the living which we have almost lost in the last sanguinary decades of human history." (Bertanffy, 1969:49)

Um pouco de história

O parto, que sempre foi considerado como “coisa de mulher”, somente abriu suas portas aos homens em meados do século XVII. Ao entrar neste mundo inerentemente feminino, sendo chamado somente em casos extremos, o homem o fez pela porta da patologia, gradativamente ocupando mais e mais espaço, rechaçando o conhecimento milenar acumulado pelas parteiras, com isto perdendo o fio da fisiologia e, finalmente, expulsando as mulheres e a própria família do recinto.

A história da obstetrícia é a história de uma luta em busca de poder. É a história da

exclusão da mulher, da depreciação do universo feminino, da transformação, sob a ótica masculina, de uma atividade inerentemente feminina, natural e fisiológica em um ato médico, androcêntrico, tecnocrático e cheio de riscos imanentes.

A reflexão sobre a história da obstetrícia ajuda a compreender o caminho percorrido, os tropeços, os desvios que levaram à inadequada utilização da tecnologia, assim como nos ajuda a escolher novos caminhos que possam vir a contribuir para a adequação do uso destas tecnologias a um modelo construído sob uma nova ótica, sob um novo paradigma.

Um pouco de antropologia

A antropologia, por sua vez, abre um novo universo para o entendimento das forças que contribuíram para a gênese do modelo hegemônico de assistência ao parto e nascimento. Neste modelo o corpo humano é tratado como uma máquina que pode ser dividida em partes cada vez menores e depois reconstruída para seu melhor funcionamento. Em nossa sociedade, sob a influência do catolicismo que colocava a mulher em condição inferior ao homem, mais próxima da natureza e mais frágil, física e intelectualmente, o corpo masculino foi assumido enquanto o protótipo, e o feminino, por se desviar do padrão masculino, foi conseqüentemente abordado como anormal, inerentemente defeituoso e perigosamente sob a influência da natureza, ou seja, o mais fraco.

Desta forma, os obstetras alicerçaram seus conhecimentos em uma visão mecanicista do universo, que segue leis previsíveis, as quais podem ser descobertas através da ciência e manipuladas pela tecnologia, com o intuito de diminuir a dependência do homem em relação à natureza e, em última instância, controlá-la.

Os obstetras ao alicerçarem seus conhecimentos nesta visão mecanicista assumem que os procedimentos obstétricos são fundamentados pela ciência e baseados na fisiologia da gestação, parto e nascimento. Ao contrário, podemos sugerir que a transferência da atenção ao parto e nascimento do domicílio para o hospital e, conseqüentemente para o controle dos médicos, resultou em uma proliferação de rituais em torno desse processo fisiológico, muito mais elaborados do que se conhecia até então no “mundo primitivo”.

Esses rituais, também conhecidos como rotinas para atenção ao parto, contribuem efetivamente para transmitir à mulher os valores nucleares de nossa sociedade.

A tecnocracia

Ao observar os rituais em torno do parto conclui-se que a visão de mundo que forma a base filosófica tanto da biomedicina quanto da sociedade ocidental é a tecnocracia. Esta visão de mundo fundamentada em um sistema de organização política e social baseada na predominância dos técnicos, em uma sociedade que os supervaloriza e é organizada nos termos de sua tecnologia, é burocrática, autocrática e hierarquizada.(Davis-Floyd e St.John, 1998)

O hospital foi transformado em um fábrica detentora de sofisticada tecnologia (representada pelas ferramentas construídas ou mesmo pelas máquinas que substituem muitas vezes a presença humana). Quanto mais sofisticada for a tecnologia disponível, melhor é o conceito do hospital, que por ser uma instituição constitui uma unidade social mais importante que a família. Logo, em nossa sociedade [ 2 ], espera-se que o processo do parto deva preencher as necessidades desta instituição e não da família, que é sempre obrigada a se adaptar às rotinas e procedimentos hospitalares. Isto justifica a crescente padronização da assistência, que não leva em conta a individualidade, as necessidades pessoais e a diversidade de nossa cultura.

A maioria das pessoas em nossa sociedade, incluindo a maioria dos obstetras, enfermeiras, assim como das mulheres atendidas por estes profissionais, vê estes procedimentos como necessidades médicas, como a ordem natural das coisas!

Assim como para a puberdade, o casamento e a morte não há sociedade conhecida onde o parto e o nascimento sejam tratados pelas pessoas envolvidas como uma função meramente fisiológica. Ao contrário, em qualquer lugar são socialmente construídos.(Gennep, 1960)

No Brasil a maioria das mulheres é hospitalizada (após uma romaria em busca de vagas), é separada da família antes e do bebê logo após o parto, recebe rotineiramente uma episiotomia, é submetida à indução do parto, dá à luz deitada de costas e em 26,4% dos partos é submetida à cesariana! (Mulheres atendidas no SUS em 2003).

O sabor do açúcar

O parto (ao contrário do apresentado nos livros-texto que o descrevem em termos exclusivamente mecânicos – “conjunto de fenômenos mecânicos e fisiológicos que levam à expulsão do feto e seus anexos do corpo da mãe; parturição”(Houais, 1991)) também pode ser considerado como “um trabalho realizado pela mulher, que com as contrações uterinas e o seu esforço voluntário favorece a saída do bebê de um mundo interno e privativo, no interior de sua barriga, para um mundo de maiores dimensões, o da sociedade.”(Barfield, 1996)

Autores como Fleck (1936)(Fleck, 1935) e Khun (1996)(Kunn, 1996) sugeriram que os valores de uma sociedade não são periféricos à ciência e à tecnologia, mas constituem sua própria força motriz. Estes autores nos ensinaram que os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanos, ou seja, de um estilo de pensamento, de um paradigma ou de uma visão de mundo.

Ao adotar o paradigma cartesiano também foram criadas as condições de exploração da Terra e da Mulher. E esta foi uma estratégia vitoriosa, muito bem sucedida ao longo de toda a ciência moderna, mas, nos alerta Laing (1972), a nossa obsessão com a quantificação e com a medição também nos tem cobrado uma pesada taxa.

“O programa de Galileu oferece-nos um mundo morto: extinguem-se a visão, o som, o sabor, o tato e o olfato, e junto com eles vão-se também as sensibilidades estética e ética, os valores, a qualidade, a alma, a consciência, o espírito. A experiência como tal é expulsa do domínio científico. É improvável que algo tenha mudado mais o mundo nos últimos quatrocentos anos do que o audacioso programa de Galileu. Tivemos de destruir o mundo em teoria antes que pudéssemos destruí-lo na prática.”(Laing, 1972)

Como chegar ao sabor do açúcar analisando o carbono, o hidrogênio e o oxigênio isoladamente?

Indivíduos cibernéticos

Mas, se por um lado este estilo de pensamento resultou no inquestionável avanço obtido na ciência em geral (como, por exemplo, na cibernética, na computação, na biologia molecular, que ao mapear o genoma humano contribuiu para avanços na genética, medicina, fisiologia celular e em muitos outros campos do saber), por outro, nos obrigou a novas reflexões: os perigos destes novos conhecimentos já se fazem presentes. O novo mundo “cibernético” já não se preocupa com as pessoas, mas com sistemas; o ser humano se tornou substituível, ou mesmo descartável. Para os engenheiros de sistema, p.ex., é exatamente o “elemento humano” aquele que é considerado o não confiável em suas criações. Isto leva a noção da necessidade de eliminar este elemento (ou parte dele) substituindo-o por “hardwares”, máquinas que se auto-regulam, ou torná-lo tão confiável quanto possível, ou seja, mecanizado, conformista, controlado e estandardizado.(Bertalanffy, 2001)

“In somewhat harsher terms, man in the Big System is to be - and to a large extent has become- a moron, button-pusher or learned idiot, that is, highly trained in some narrow specialization gut otherwise a mere part of the machine. This conforms to a well-know system principle, that of progressive mechanization – the individual becoming ever more a cogwheel dominated by few privileged leaders, mediocrities and mystifiers who pursue their private interests under a smokescreen of ideologies.” (Sorokin, 1979:558)(Sorokin, 1979)

Reorientando o pensamento científico

Este conforto intelectual, gerado pelo paradigma positivista, vem sendo enfraquecido na medida em que novas descobertas científicas tornam-se públicas. Isto vem conduzindo ao sentimento, na maioria dos campos científicos, da física subatômica à história, da necessidade de uma reorientação da ciência.

“...uma mudança nas categorias básicas de pensamento na qual a complexidade da tecnologia moderna seria apenas uma, e possivelmente sequer a mais importante, manifestação; nós somos cada vez mais conduzidos a lidar com complexidades maiores, com “totalidades” ou “sistemas” em todos os campos do conhecimento. Isto implica, basicamente, em uma reorientação do pensamento científico.” (Bertalanffy, 2001:5) (Bertalanffy, 2001)

Esta reorientação passa pela noção do pensamento sistêmico enquanto uma teoria geral que poderia oferecer um arcabouço conceitual para unificar várias disciplinas científicas que se tornaram isoladas e fragmentadas. Segundo Bertalanffy (1969) a conseqüência da existência de propriedades gerais dos sistemas é o surgimento de similaridades estruturais – isomorfismos – em diferentes campos das ciências.(Bertalanffy, 2001)

Ciência epistêmica

Tradicionalmente a unificação da ciência foi limitada à redução de todas as ciências à física – a decomposição final de todos os fenômenos em eventos físicos. Em contraste a esta visão reducionista, um conceito unitário do mundo deve ser baseado no isomorfismo de leis em diferentes campos do saber. Nós não podemos reduzir os níveis biológicos, comportamentais e sociais em níveis cada vez menores, como os construtos da física. Nós podemos, entretanto, encontrar construtos e possíveis leis em cada nível individual.(Bertalanffy, 2001)

Segundo esta concepção o mundo é visto em termos de relações e de integração.

“Os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às de unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, a abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização. (...) As propriedades sistêmicas são destruídas quando um sistema é dissecado, física ou teoricamente, em elementos isolados. Embora possamos discernir partes individuais em qualquer sistema, a natureza do todo é sempre diferente da mera soma de suas partes.”(Capra, 1982)Pg 260

De acordo com o princípio de Heisenberg, as propriedades essenciais de um organismo, ou sistema vivo, são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem das interações e das relações entre as partes. Torna-se impossível entender o todo a partir do estudo de suas partes individuais. Desse modo, o pensamento sistêmico envolve uma mudança da ciência objetiva para a ciência epistêmica, para um arcabouço no qual a epistemologia torna-se parte integral das teorias científicas.(Capra, 1996)

A necessidade de um novo paradigma

O desafio de sintetizar estas idéias coincide com a virada do século. Neste momento, a preocupação com o meio ambiente se faz presente, desde as agendas dos governos até os corações e mentes dos ecologistas. E esta preocupação reflete uma situação onde uma gama de problemas, que engloba países do primeiro ao terceiro mundo, denuncia a agressão constante e crescente à vida humana e à própria Terra, que, assim como outros autores, temo possa ser irreversível. Hannah Arendt (1993) ao tecer considerações sobre a condição humana afirma que a

“Recentemente, a ciência vem-se esforçando por tornar ‘artificial’ a própria vida, por cortar o último laço que faz do próprio homem um filho da natureza. O mesmo desejo de fugir da prisão terrena [ 3 ]manifesta-se na tentativa de criar a vida numa proveta, no desejo de misturar, ‘sob o microscópio, o plasma seminal congelado de pessoas comprovadamente capazes a fim de produzir seres humanos superiores’ e ‘alterar-lhes o tamanho, a forma e a função’; e talvez o desejo de fugir à condição humana esteja presente na esperança de prolongar a duração da vida humana para além do limite dos cem anos.

Esse homem futuro, que segundo os cientistas será produzido em menos de um século, parece motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido por ele mesmo. Não há razão para duvidar de que sejamos capazes de realizar essa troca, tal como não há motivo para duvidar de nossa atual capacidade de destruir toda a vida orgânica na Terra.”(Arendt, 1993) pg 10-1

Vieira (1997) acrescenta que “verifica-se no mundo de hoje, uma globalização crescente dos problemas ligados ao meio ambiente. O domínio do homem sobre a natureza aumentou consideravelmente com a industrialização. A produção industrial e agrícola, o desenvolvimento das biotecnologias, a urbanização acelerada produziram um impacto negativo sobre o meio ambiente. A atmosfera, os oceanos, os rios, os lagos, os lençóis de água, as florestas, a fauna e a flora estão cada vez mais ameaçadas. Um relatório apresentado ao presidente dos Estados Unidos em 1982 calculou que 15 a 20% das espécies do planeta terão desaparecido até o início do século XXI pela destruição de seus habitat naturais.

A atividade humana modificou radicalmente a configuração da camada natural das terras do mundo. A destruição indiscriminada de florestas e zonas verdes, a pastagem excessiva e a gestão inadequada das terras agrícolas conduziram à degradação de grandes extensões de terra.”(Vieira, 1998)

Paralelamente às perturbações do meio ambiente, os modos de vida humanos individuais e coletivos têm evoluído no sentido de uma progressiva deteriorização.

“Assim, para onde quer que nos voltemos, reencontramos esse mesmo paradoxo lancinante: de um lado, o desenvolvimento contínuo de novos meios técnico-científicos potencialmente capazes de resolver as problemáticas ecológicas dominantes e determinar o reequilíbrio das atividades úteis sobre a superfície do planeta e, de outro, a incapacidade das forças sociais organizadas e das formações subjetivas constituídas de se apropriar desses meios para torná-los operativos.”(Guattari, 1989) pg 12

A gravidade desta situação me faz supor que este conjunto de problemas não pode ser resolvido, ou mesmo entendido de forma isolada. O que está em questão é a maneira de viver daqui a diante sobre esse planeta, no contexto da aceleração das mutações técnico-científicas e do considerável crescimento demográfico.(Guattari, 1989) Segundo Capra (1996)

“São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. Por exemplo, somente será possível estabilizar a população quando a pobreza for reduzida em âmbito mundial. A extinção de espécies animais e vegetais numa escala massiva continuará enquanto o Hemisfério Meridional estiver sob o fardo de enormes dívidas. A escassez dos recursos e a degradação do meio ambiente combinam-se com populações em rápida expansão, o que leva ao colapso das comunidades locais e à violência étnica e tribal que se tornou a característica mais importante da era pós-guerra fria.”(Capra, 1996) pg23

Por uma obstetrícia sistêmica

Dentro da mesma linha de raciocínio sugiro que a compreensão dos problemas

oriundos do modelo hegemônico de assistência ao parto e nascimento também não podem ser analisados isoladamente.

"São problemas derivados de uma visão de mundo, de um paradigma obsoleto, uma inadequada e parcial percepção da realidade. Ela deriva do fato de que a maioria de nós, e em especial nossas grandes instituições sociais, concordam com os conceitos de uma visão de mundo obsoleta, uma percepção da realidade inadequada..." (Capra, 1996, pg 23)

Ao pensar um novo modelo de assistência ao parto temos, necessariamente, que pensar em uma mudança na visão de mundo, ou seja, em nossa percepção do mundo, no nosso pensamento e nos nossos valores e, conseqüentemente, em uma superação da ciência que aprisionou nossa criatividade e gerou um modelo inadequado na maioria dos aspectos analisados.

Como poderíamos transcender uma visão de mundo e da ciência baseando-se em descobertas científicas oriundas do início do século passado, que vêm sendo questionadas por descobertas mais recentes? Para superar o velho não seria mais interessante atualizar nossos referenciais teóricos alinhando-os às descobertas científicas ocorridas recentemente, na virada para o século XXI? Não foi exatamente esta a grande contribuição de Descartes em meados do século XVI?

Isto requer uma mudança fundamental no entendimento da ciência assim como da sociedade. Ou seja, "atualizar nossa forma de pensar e enxergar o mundo em que vivemos com base em novos arcabouços, em linha com o que a ciência (no sentido lato) do limiar do século XXI está trazendo à tona". (Motomura, 2001)

A discussão sobre um novo modelo é indissociável da discussão sobre a mudança necessária em nossa sociedade para que se possa garantir a sobrevivência de nossa espécie.

"Na medida em que nossa vida é vivida a partir de uma perspectiva

'especializada'/fragmentada (...) nos fechamos num mundo próprio como num

grande 'videogame'. Só que a diferença é que todos os nossos atos gerados a partir dessa visão fragmentada têm conseqüências na realidade maior. Conseqüências que poderão afetar de todo o planeta e até de futuras gerações..." (Motomura, 2001)

A visão e a consciência que ainda faltam

Infelizmente, a necessidade urgente desta mudança ainda não atingiu a consciência da maioria de nossos cientistas, de nossos líderes políticos, de nossos administradores e de nossos professores.

"Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. Esta evolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala, mas também, aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo." (Guattari, 1989, pg 9 - grifo meu)

Segundo Capra (1996) "Nossos líderes não só deixam de reconhecer como diferentes problemas estão inter-relacionados; eles também se recusam a reconhecer como as suas assim chamadas soluções afetam as gerações futuras." (Capra, 1996)

O que nos remete a outra questão fundamental muito bem definida por Lester

Brown [4] citado por Capra (Capra, 1996): "Uma sociedade sustentável é aquela que satisfaz suas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras." Ou o que nos ensinou o Chefe Seattle em sua carta endereçada ao presidente americano Franklin Pierce, em 1854: "O que ocorre com a Terra recairá sobre os filhos da Terra. Há uma ligação em tudo." (Worldwatch, 2002)

Com as novas descobertas científicas nas áreas da física (Prigogine, 1980) e

da biologia, (Maturana e Varela, 1980) dentre outras, fica cada vez mais claro a insuficiência do arcabouço teórico, construído a partir do pensamento de Descartes e Newton, para responder a um número cada vez maior de questionamentos sobre o universo, sobre a origem da vida e sobre a relação entre todos os seres com o planeta e com o universo.

A Física convencional lida apenas com sistemas fechados, i.e., sistemas que são considerados como isolados do meio ambiente. No entanto existem sistemas, que por sua própria natureza e definição não podem ser considerados como fechados. Todo o organismo vivo é em essência um sistema aberto. Este organismo se mantém através de trocas com o meio ambiente, anabolizando e catabolizando elementos, nunca estando, enquanto estiver vivo, em um estado de equilíbrio químico ou termodinâmico. "Obviamente as formulações convencionais da física são, em princípio, inaplicáveis aos sistemas vivos, enquanto sistemas abertos". (Bertalanffy, 2001) As teorias especulativas a respeito do planeta como um sistema vivo têm sido estudadas por um número cada vez maior de autores.

Se vamos ou não optar em chamar este sistema de "GAIA", como o fez o químico atmosférico Lovelock, (Lovelock e Margulis, 1974) e declará-lo oficialmente tão vivo quanto qualquer outro organismo, fica secundarizado quando temos acesso às

sugestões de número cada vez um maior de pesquisadores que "assumem de uma maneira clara e simples que o sistema global que liga a vida ao âmbito físico existe de verdade, e que nós, seres humanos, apesar das aparências e dos protestos em contrário, ainda continuamos a ser parte integrante desse sistema." (Eldredge, 2002)

O que é a vida?

"O que é vida? (...) Que aconteceu com a matéria viva para torná-la tão diferente? A resposta é tão científica quanto histórica. A vida é sua própria história inimitável. A partir de uma perspectiva incontroversa comum, 'você' teve início no útero de sua mãe, cerca de nove meses antes de seja qual for a sua idade. Para uma perspectiva evolucionista mais profunda, entretanto, 'você' teve início com a ousada gênese da vida - sua secessão, há mais de quatro bilhões de anos, da poção das bruxas da Terra primitiva." (Margulis e Sagan, 2002)

Para o melhor entendimento desta questão é importante refletir sobre um

conceito introduzido por James Lovelock e desenvolvido por ele e Lynn Margulis [5].

A partir de uma pesquisa encomendada pela NASA (projetar instrumentos para analisar a possibilidade de existência de vida em Marte), Lovelock reconheceu a mais geral das características de um ser vivo: o fato de extrair energia e matéria e descartar produtos residuais para o meio ambiente.

Mas a grande contribuição de Lovelock foi o entendimento da razão para o

perfil atmosférico em Marte. Em um planeta sem vida todas as reações químicas possíveis entre os gases na atmosfera já foram completadas há muito tempo atrás. Em Marte, por exemplo, não há mais reações químicas na atmosfera, há um total equilíbrio (Capra, 2002) Pg 91 - Não há movimento, e onde não há movimento, não há vida!

De maneira antagônica, a atmosfera terrestre encontra-se longe deste

equilíbrio. Aqui se pode observar a convivência de quantidades significativas de gases como o oxigênio e o metano, que possuem a propriedade de reagirem um com o outro, explodindo. Lovelock compreendeu que esse estado especial deve-se à presença de vida na Terra.

"Em outras palavras, Lovelock reconheceu a atmosfera da Terra como um

sistema aberto, afastado do equilíbrio, caracterizado por um fluxo constante de energia e de matéria. Sua análise química detectava a própria 'marca registrada' da vida." (Capra, 1996, pg 91 - Grifos meus)

Vida sobre a Terra viva

Uma das questões centrais neste pensamento é a idéia da auto-regulação. Sabe-se que a temperatura solar aumentou em 25% desde o início da vida neste

planeta. No entanto a temperatura terrestre permanece quase inalterada e, no período onde se observa a maior alteração, essa pode ser credenciada à capacidade destrutiva da raça humana. A sugestão de Lovelock, baseada nesta observação significava uma ruptura com a ciência tradicional. Ele se perguntava:

"E se a Terra fosse capaz de regular sua temperatura assim como outras

condições planetárias - a composição de sua atmosfera, a salinidade de seus oceanos, e assim por diante - assim como os organismos vivos são capazes de auto-regular e de manter constantes a temperatura dos seus corpos e também outras variáveis? (Capra, 1996, pg 92)

"Considere a teoria de Gaia como uma alternativa à sabedoria convencional

que vê a Terra como um planeta morto, feito de rochas, oceanos e atmosfera

inanimadas, e meramente habitado pela vida. Considere-a como um verdadeiro sistema, abrangendo toda a vida e todo o seu meio ambiente, estreitamente acoplados de modo a formar uma entidade auto-reguladora." (Capra, 1996)

Margulis ao acrescentar seu conhecimento sobre as características biológicas dos gases atmosféricos contribuiu para a evolução desta teoria. Assim, ambos foram capazes de identificar uma complexa rede de laços de realimentação, a qual, supunham, criaria a auto-regulação do Planeta.

"O aspecto de destaque desses laços de realimentação está no fato de que

ligam conjuntamente sistemas vivos e não-vivos. Não podemos mais pensar nas rochas, nos animais e nas plantas como estando separados uns dos outros. A teoria de Gaia mostra que há um estreito entrosamento entre as partes vivas do planeta - plantas, microorganismos e animais - e suas partes não-vivas - rochas, oceanos e atmosfera."(Capra, 1996, pg. 93)

Estes autores sugerem que a evolução dos primeiros organismos processou-se

de mãos dadas com a transformação da superfície planetária, a partir de um

ambiente inorgânico em uma biosfera auto-reguladora. Esta descoberta

"iluminadora que os levaram a formular um modelo que é, talvez, a mais surpreendente e mais bela expressão da auto-organização - a idéia de que o planeta Terra como um todo é um sistema vivo, auto-organizador." (Capra,

1996, pg 23)

A biosfera como um todo é autopoética [6], no sentido de que sustenta a si mesma. Um de seus "órgãos" vitais, a atmosfera, é claramente cuidada e alimentada. A atmosfera terrestre, com aproximadamente 1/5 de oxigênio, difere radicalmente da de Marte e Vênus. A atmosfera destes planetas tem 9/10 de dióxido de carbono, que na atmosfera terrestre é encontrado apenas três partes em dez mil. Se a biosfera terrestre não se compusesse de seres que consomem dióxido de carbono (plantas, algas e bactérias), há muito tempo nossa atmosfera teria chegado a uma estabilidade química rica em dióxido de carbono, e praticamente todas as moléculas capazes de reagir com outras já o teriam feito, em vez disso, as atividades conjuntas da vida autopóetica da superfície levaram a uma atmosfera em que o oxigênio se mantém em níveis de aproximadamente 20 por cento há pelo menos 700 milhões de anos.

Capra (2002) complementa "não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento. Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ter atendido as suas necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes; e todos juntos, vegetais, animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantêm as condições propícias à preservação da vida." (Capra, 2002, pg 23)

e Margulis complementa "Considerada em sua extensão fisiológica máxima, a vida é a superfície planetária. A Terra é tão pouco um pedaço de rocha de dimensões planetárias, habitado pela vida, quanto nosso corpo é um esqueleto infestado de células." (Margulis e Sagan, 2002, pg 36)

A vida cria a vida: interdependência e interrelação

Lovelock e Margulis agiram de forma sinergética ao elaborar esta teoria; conseguiram desta forma olhar para a vida de maneira sistêmica ao reunir geologia, microbiologia e química atmosférica, dentre outras disciplinas (cujos profissionais, por ainda possuírem, em sua grande maioria, uma visão de mundo baseada nos ensinamentos de Descartes e Newton, não são capazes de se comunicarem uns com os outros e desta forma não conseguem avançar na formulação de novas teorias). Esses autores desafiaram a visão tradicional da ciência, baseada no princípio da separação, da análise quantitativa, da incapacidade de pensarem sinergeticamente, ou de forma minimamente interdisciplinar, e se contrapuseram à antiga idéia de que as forças da

geologia estabeleceriam as condições para a vida na Terra e que as plantas e os animais seriam meros passageiros que, por acaso, descobriram justamente as condições corretas para sua evolução. De acordo com esta nova e revolucionária teoria - teoria de Gaia - a vida cria as condições para a sua própria existência.

"Enunciada de maneira simples, a hipótese [de Gaia] afirma que a superfície da Terra, que sempre temos considerado o meio ambiente da vida, é na verdade parte da vida. A manta de ar - a troposfera - deveria ser considerada um sistema circulatório, produzido e sustentado pela vida... Quando os cientistas nos dizem que a vida se adapta a um meio ambiente essencialmente passivo de química, física e rochas, eles perpetuam uma visão seriamente distorcida. A vida, efetivamente, fabrica e modela e muda o meio ambiente ao qual se adapta. Em seguida, esse 'meio ambiente' realimenta a vida que está mudando e atuando e crescendo nele. Há interações cíclicas constantes."[7]

Capra (1982) colheu os frutos da árvore oriunda da semente plantada por Lovelock e Margulis. Ele sugere que reformulemos nossos conceitos tomando por base uma nova visão da realidade onde a "separação" seria substituída pela consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos - físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais. (Capra, 1982)

"Isso significará a formulação gradual de uma rede de conceitos e modelos interligados e, ao mesmo tempo, o desenvolvimento de organizações sociais correspondentes. Nenhuma teoria ou modelo será mais fundamental do que o outro, e todos eles terão que ser compatíveis. Eles ultrapassarão as distinções disciplinares convencionais, qualquer que seja a linguagem comprovadamente adequada para descrever diferentes aspectos da estrutura inter-relacionada e de múltiplos níveis da realidade. Do mesmo modo, nenhuma das novas instituições sociais será superior ou mais importante do que qualquer uma das outras, e todas elas terão que estar consciente umas das outras e se comunicar e cooperar entre si” (Capra, 1982, pg 259)

O novo paradigma

Este novo paradigma, ao conceber o universo como um todo integrado e não

mais como uma coleção de partes dissociadas, ao se preocupar com as gerações atuais da mesma forma como se preocupa com as gerações futuras, deve, necessariamente, estar baseado em uma consciência ecológica profunda [8]. Um paradigma onde não se separa os seres humanos, ou qualquer outra coisa, do meio ambiente; reconhece o calor intrínseco de todos os seres vivos e concebe o ser humano apenas como mais um de seus componentes.

"O cuidado flui naturalmente se o 'eu' é ampliado e aprofundado de modo que

a proteção da natureza livre seja sentida e concebida como proteção de nós mesmos. ...Assim como não precisamos de nenhuma moralidade para nos fazer respirar... [da mesma forma] se o seu 'eu', no sentido amplo dessa palavra, abraça um outro ser, você não precisa de advertências morais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo. ... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue normas de estrita ética ambientalista."

Um paradigma que, diferentemente do antecessor, não deixe de se auto-avaliar, de aprofundar o questionamento a si próprio. Um paradigma que "faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos de nossa visão de mundo e do nosso modo de vida moderno, científico, industrial, orientado para o crescimento e materialista." (Capra, 1996)

Um paradigma onde se reconhece que todas as concepções e todas as teorias

científicas são limitadas e aproximadas. A ciência nunca pode fornecer uma compreensão completa e definitiva.

Um paradigma baseado em uma perspectiva ecológica: "a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte." (Capra, 1996)

Um paradigma que contribua para a construção, nutrição e educação de comunidades sustentáveis, nas quais poder-se-ia satisfazer as aspirações imediatas sem diminuir as chances das gerações futuras. Entendendo a conexão existente entre as comunidades sociais e as comunidades ecológicas, consideradas como sistemas vivos que exibem os mesmos princípios básicos de organização.

Para além da sociedade patriarcal

Um paradigma ecológico deve avançar na discussão da dominação social dentro de uma sociedade patriarcal e androcêntrica. Entendendo a dominação de mulheres por homens como o protótipo de todas as formas de dominação e exploração tão comuns em nossa sociedade e, em particular, no modelo hegemônico de assistência ao parto: a instituição hierarquicamente superior ao profissional de saúde, que por sua vez é superior às mulheres, que são obrigadas a se adequarem aos profissionais e às instituições, muitas vezes sendo desrespeitadas e mesmo violentadas pelo sistema. C Conseqüentemente para avançar rumo a um novo paradigma que dê sustentação à criação de um novo modelo de assistência ao parto e nascimento temos que assumir o conhecimento vivencial feminino como uma das fontes principais de uma visão ecológica da realidade.

Para a construção deste novo paradigma duas novas idéias, que surgiram no campo da ecologia, são de suma importância: comunidade e rede. Ao considerar uma comunidade ecológica como um conjunto de organismos aglutinados num todo funcional por meio de suas relações mútuas, os ecologistas facilitaram a mudança de foco de organismos para comunidades, e vice-versa, aplicando os mesmos tipos de concepções a diferentes níveis de sistemas. (Capra, 1996, pg 44)

"Sabemos hoje que, em sua maior parte, os organismos não são apenas membros de comunidades ecológicas, mas também são, eles mesmos, complexos ecossistemas contendo uma multidão de organismos menores, dotados de uma considerável autonomia, e que, não obstante, estão harmoniosamente integrados no funcionamento do todo. Portanto, há três tipos de sistemas vivos - organismos, partes de organismos e comunidades de organismos – sendo todos eles totalidades integradas cujas propriedades essenciais surgem das interações e da interdependência de suas partes." (Capra, 1996, pg 44)

A teia da vida

Em outras palavras, a teia da vida consiste em redes dentro de redes. Em cada escala, sob estreito e minucioso exame, os nodos da rede se revelam como conjuntos de redes menores. Na natureza não há acima ou abaixo, e não há hierarquias. Há somente redes aninhadas dentro de outras redes. (Capra, 1996, pg 45)

Quando esta visão é aplicada à ciência como um todo, ela implica no fato de que a física não pode mais ser vista como o nível mais fundamental da ciência. Ao adotar a concepção de rede os fenômenos descritos pela física não são mais fundamentais do que aqueles descritos, por exemplo, pela biologia ou pela psicologia. Eles pertencem a diferentes níveis sistêmicos, mas nenhum desses níveis é mais fundamental do que os outros.

Novo modelo de assistência ao parto

Da mesma forma o novo modelo de assistência ao parto e nascimento deverá ser construído como uma rede - onde os obstetras, as enfermeiras, as parteiras e todos os outros profissionais envolvidos com o processo se encontrem em um mesmo nível. Estes profissionais deixarão de ser entendidos como componentes (peças ou engrenagens de um mecanismo) que, em última instância dão o formato final ao modelo de atenção. Este modelo será definido por meio das inter-relações entre estes profissionais que a partir de uma ação sinergética, nas quais as ações combinadas de muitas partes individuais (campo de saber, forma de aquisição do conhecimento, diferenças profissionais) produzem um comportamento coerente com o todo. Aqui o nosso interesse estará nos processos e nas relações entre processos realizadas por meio dos componentes.

Da mesma maneira que nos ecossistemas [9] (comunidades ecológicas) a comunidade responsável pela atenção ao parto e nascimento (comunidade social) assumirá que o comportamento de cada membro depende do comportamento

de muitos outros. O sucesso da comunidade toda dependerá do sucesso de cada

um de seus membros, enquanto que o sucesso de cada membro dependerá do

sucesso da comunidade como um todo. (Capra, 1996)

"Entender a interdependência ecológica significa entender relações. Isso

determina as mudanças de percepção que são características do pensamento

sistêmico - das partes para o todo, de objetos para relações, de conteúdo

para padrão. Uma comunidade humana sustentável está ciente das múltiplas

relações entre seus membros. Nutrir a comunidade significa nutrir essas

relações." (Capra, 1996, pg 232)

Parceria

Isto leva a aceitação da parceria como uma das características principais

destas comunidades. "A parceria - a tendência para formar associações, para estabelecer ligações, para viver dentro de outro organismo e para cooperar - é um dos 'certificados de qualidade' da vida." (Capra, 1996, pg 234) O significado desta parceria em nossa comunidade social de assistência ao parto é o poder pessoal e a democracia, pois cada membro da comunidade é entendido dentro de seu próprio papel, sem hierarquia. "A medida em que uma parceria se processa, cada parceiro passa a entender melhor as necessidades dos outros. Numa parceria verdadeira, confiante, ambos os parceiros aprendem e mudam - eles coevoluem." [10]

Quebra da padronização

Outro princípio importante na construção deste novo paradigma é a quebra da

padronização e o estabelecimento da flexibilidade. A falta de flexibilidade se manifesta como tensão. É importante lembrar que todas as flutuações ecológicas ocorrem entre limites de tolerabilidade e que todo o sistema poderá colapsar quando estes limites forem ultrapassados. O mesmo é verdadeiro para as comunidades sociais, onde posturas rígidas conduzem a situações de tensão. Se a tensão temporária é um aspecto essencial de qualquer comunidade, de qualquer ser vivo a tensão permanente é nociva, destrutiva podendo colocar em risco todo o sistema.

Estas considerações

levam à sugestão de que administrar um sistema social, no caso uma nova filosofia, um novo modelo de atenção ao parto e nascimento, significa encontrar os melhores valores possíveis para todas as variáveis do sistema, sem tentar maximizar qualquer variável isolada. Este conceito diz respeito também às soluções de conflitos. A comunidade precisará de estabilidade e de mudança, de ordem e liberdade, de tradição e de inovação. Esses conflitos serão muito mais bem resolvidos ao se buscar um equilíbrio dinâmico e flexível, assumindo-se o conhecimento de que ambos os lados do conflito podem ser importantes e que as contradições no âmbito de uma comunidade são sinais de sua diversidade e de sua vitalidade e, desse modo, contribuem para a viabilidade do sistema.

Alfabetização ecológica ou a criação do melhor modelo de assistência ao parto que já existiu

Estes são os princípios básicos, as sementes que podem ser plantadas neste

momento. Na medida em que avançamos por um novo milênio, a adoção de um novo

arcabouço teórico parece ser indispensável para a própria sobrevivência da

humanidade. Esta sobrevivência dependerá do que Capra convencionou chamar de

alfabetização ecológica, ou seja, da nossa capacidade para entender esses

princípios da ecologia profunda e de viver em conformidade com eles. O supremo desafio de nossa era é o de especificar e aprender a respeitar as

normas objetivas da existência dentro de uma ordem holárquica complexa e

delicada que se encontra tanto em nós quanto ao nosso redor. Não há outra

forma de termos certeza que atingiremos uma cultura que seja tanto viável

como humanista.

Este pensamento nos conduz a uma pergunta:

Quem nós queremos nos tornar através dos modelos de assistência à saúde que criamos?

As pessoas que no momento estão envolvidas na transcendência do modelo

antigo de assistência ao parto (cidadãos, médicos, enfermeiras, parteiras, obstetras) possuem uma oportunidade única para tecer a rede que poderá vir a se constituir no mais eficiente modelo de atenção ao parto e nascimento criado pelo ser humano. Informações encontram-se facilmente disponíveis a respeito de práticas indígenas de atenção ao parto, algumas das quais (massagens, versões, posição vertical) altamente eficazes e que deveriam ser incorporadas imediatamente. Nunca se teve acesso a tantas informações sobre a fisiologia do parto e do nascimento e sobre os tipos de cuidados que são de interesse da mulher neste processo. E, tecnologias estão à disposição qualquer que seja a escolha desta mulher sobre o modelo adotado. Hoje é possível aplicar a tecnologia apropriada, em combinação com os aspectos humanísticos e os conceitos defendidos pelo holismo. Nós podemos de fato criar o melhor modelo que o mundo já presenciou.

Este é o modelo teórico que proponho assumir em conjunto com outros profissionais que terão que ser fortes apoiadores e crentes da ciência, mas ao mesmo tempo, e acima de tudo, críticos desta ciência. Sua visão de ciência apropriada será paralela à de medicina apropriada: será uma visão expandida da ciência, que respeita o ensaio clínico randomizado e duplo-cego e, concomitantemente, reserva um lugar para as evidências seculares, assim como para os fenômenos observados e a intuição. Eles diferem de seus colegas tecnomédicos em sua compreensão de que diferentes sistemas requerem diferentes abordagens.

A dialética da evolução

A essência da evolução é que cada próximo passo deve transcender e incluir

os mesmos que foram dados antes. As moléculas transcendem e incluem os átomos, as células transcendem e incluem as moléculas, os organismos transcendem e incluem as células, a ciência transcende e inclui os estados pré-cognitivos que a precede. Um paradigma que represente o próximo passo evolutivo para a humanidade não deve erradicar, mas deve transcender e incluir o que veio antes. Significa que para representar uma evolução real na atenção ao parto e nascimento, este novo paradigma quando aplicado na medicina deve transcender as concepções dominantes e recriá-las enquanto prática.

As relações profundamente desiguais entre as formas de aquisição do saber e

conseqüentemente entre as categorias profissionais - umas considerando-se mais corretas do que as outras - reforçam a arrogância, incrementam ressentimentos e aprofundam conflitos. Somente criando uma nova aliança entre todas essas categorias profissionais que possuem objetivos comuns, porém, contribuições diferenciadas, conseguiremos implantar um modelo de atenção ao parto e nascimento onde a vida floresça e os seres humanos vivam no cuidado de uns para com os outros, irradiando justiça, celebrando e expandindo a paz desde sempre buscada!

Notas ( voltar )

[1] Marcos Leite dos Santos é médico ginecologista e obstetra, mestre em

Saúde Pública e consultor internacional em aleitamento materno. Integrante

da ReHuNa - Rede pela Humanização do Parto e Nascimento.

[2] No Brasil a convivência de modalidades diferentes de assistência ao

parto, concordante com a variedade de culturas existentes neste país

continente, não altera o que aqui afirmo. Pois apesar desta grande variedade

de alternativas o modelo tecnocrático é, sem qualquer sombra de dúvida, o

hegemônico.

[3] Aqui a autora se refere à conquista do espaço sideral. E à "liberação"

do ser humano dos "grilhões" representados pelo confinamento ao planeta

Terra.

[4] Lester Brown é o fundador do Worldwatch Institute e do Earth Policy

Institute. http://www.wwiuma.org.br

[5] O primeiro um químico especializado em química da atmosfera e a segunda

uma bióloga. Lovelock J, Margulis L. Biological modulation of the Earth's

atmosphere. Icarus 1974;21

[6] Os biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela vêem no

metabolismo a essência de algo realmente fundamental para a vida. Dão-lhe o

nome de 'autopoese'. Proveniente de raízes gregas que significam 'si mesmo'

(auto) e 'fazer' (poesin), a autopoese refere-se à produção contínua de si

mesma pela vida. Sem o comportamento autopoético, os seres orgânicos não se

sustentariam - não permaneceriam vivos. Somente as células, os organismos

feitos de células e as biosferas feitas de organismos são autopoéticos e

podem efetuar o metabolismo.(Eldredge, 2002)

[7] Margulis L. Gaia: the living Earth. The Elmwood Newsletter 1989;5(2).

In: Capra F. A teia da vida. Uma nova compreensão científica dos sistemas

vivos. São Paulo: Cultrix; 1996

[8] "A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental

de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades,

estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última

análise, somos dependentes desses processos)."(Capra, 1996)

[9] No ecossistema (comunidades ecológicas) todos os membros estão

interligados numa vasta e intrincada rede de relações. Eles derivam suas

propriedades essenciais, e, na verdade, sua própria existência de suas

relações com as outras coisas. A interdependência é a natureza de todas as

relações ecológicas.

[10] Resultado da aplicação do conceito da parceria com a dinâmica da

mudança e do desenvolvimento.

Referência Bibliográfica

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