O PARTO DÓI?

September 17, 2017

 

 

A resposta é: sim! O parto dói.


Não tem como mentir. O parto dói, mas vou acrescentar uma coisa: vale a pena sentir essa dor. É dor boa. E faz um bem danado para nosso filho e nós mesmas evitarmos qualquer analgesia.


A dor do parto é o resultado das contrações uterinas que, junto aos movimentos fetais, pressionam o colo do útero para que ele se abra e permita a passagem do bebê. É como

escancarar uma porta muito bem selada. A dor é a sensação física desse deslocamento e flexibilização do ambiente interno (o corpo da mãe) para que a porta do tesouro se abra, e haja o nascimento.


Quando se fala em “dor” se pensa nas dores que já se experimentaram. Todo mundo já passou por algum tipo de dor. Porém, aquela do parto é diferente de todas as outras. Parece-se com a dor menstrual, mas não é a mesma coisa. Porque a dor do parto vem a intervalos. Ela chega e vai, como uma onda que quebra na praia e se retira de volta para o mar. Quando a contração passa, a dor desaparece, não fica nem um rastrinho, nem aquela sensação dolorida que temos após uma dor de barriga ou uma sessão ao dentista. Nada. O mesmo vale após o nascimento do bebê: cadê a dor? Sumiu, do corpo e da mente.


É bom lembrar, também, que a dor é subjetiva. Cada um tem seu limiar de dor. A sensação física da dor varia de pessoa em pessoa. Da mesma forma, a percepção psicológica da dor é um fator totalmente subjetivo. O sofrimento que sentimos depende do que pensamos a respeito do que estamos vivendo. Quanto mais coitadinhas nos sentimos, mais gigantesca será a dor. Quando mais tranquila nossa mente e emoções, mais fácil será fluir através da experiência.


E, falando em postura emocional, as emoções conscientes e inconscientes de uma mulher em trabalho de parto influenciam a evolução do trabalho de parto e parto, para melhor ou para pior. Para que o emocional tenha um papel positivo é preciso:

1) cuidar dele, ou seja de si mesma, durante a gestação sendo sinceras conosco, desbafando com alguém de confiança, explorando as emoções que se apresentam sem medo.

2) ter no parto pessoas confiáveis e que confiam na gente.

3) sentir-se à vontade no ambiente físico e naquele humano.

4) saber o que está acontecendo.

5) soltar-se e viver intensamente o momento, sem medo.


Mulheres à vontade tendem a ter partos mais fáceis e menos doloridos.

Mulheres aparentemente à vontade, com auto-confiança inflada, não tendem a ter os partos de seus sonhos.

Mulheres estressadas tendem a ter partos estressados.

Mulheres apavoradas tendem partos muito doloridos.


Dá para entender que o medo funciona como um megafone, amplificando a dor do parto, não só aquela psicológica (a sensação de estarmos sofrendo) como aquela física, porque tensiona o corpo. É como tentar abrir o portão quando alguém do outro lado tenta fechá-lo.


Em termos técnicos, escreve Erica Cristina Motta em seu TCC “Resgate Histórico da Assistência ao Parto: por um Parto Respeitoso”:


“O processo de dor vivenciado pela parturiente é mais acentuado quando esta não se encontra em condições adequadas de conforto, privacidade e respeito durante o trabalho de parto. Ambientes “frios”, mesas de parto horizontais, mudança de sala na passagem do primeiro para o segundo estágio do trabalho de parto, alto número de toques vaginais, restrição alimentar e hídrica, pessoas desconhecidas, são fatores que estimulam a ansiedade e a prontidão, o que dificulta a concentração da mulher, consequentemente, inibe a liberação de hormônios que vão facilitar o parto e proteger a mulher da dor, causando o ciclo medo, tensão e dor.”


Antes, então, de assustar-se com a perspectiva da dor, vamos nos preparar, conhecer, entender, ajeitarmo-nos e encontrar a própria forma de lidar com a experiência. Sofrer não é preciso. Bebês não nascem na marra, ou, não deveriam. Nascem no amor, com amor. Busquem seu jeito pessoal de fazer isso acontecer.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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