O PARTO DOMICILIAR NO CONTEXTO BRASILEIRO

September 22, 2017

 Apesar das controvérsias, o parto domiciliar representa o novo modelo de assistência obstétrica centrado na mulher, seguindo as Recomendações da Organização Mundial de Saúde e as diretrizes européias. Na grande maioria dos casos, ou seja, em todas as gestações de baixo risco, o parto em casa é seguro e uma experiência satisfatória para a mulher e o bebê. Conforme o artigo 4 das Diretivas da Comunidade Européia , às parteiras (midwives) cabe: detectar e monitorar a gravidez de baixo risco, realizar o pré-natal, disgnosticar eventuais riscos, providenciar um programa de preparação para o parto, dar orientações alimentáres e de higiene, acompanhar a mãe durante o trabalho de parto, monitorar o bebê intra-útero, conduzir partos espontâneos, inclusive quando a episiotomia é necessária e em casos de partos podálicos.


O parto domiciliar é também politicamente correto, uma vez que coloca os protagonistas

desse evento em seus devidos lugares. A mulher, dona do parto e da casa, a família, presente e partícipe, o profissional exercendo sua função de auxiliar e guia. Se, como acreditamos, o parto não é doença, seu lugar não é o hospital. Somente quando o desfecho positivo do parto está em risco, ele deve acontecer no hospital e seu protagonista principal será o médico.


Em seguida ao fortalecimento do movimento pela humanização do parto no Brasil, o parto domiciliar tem surgido como uma possível opção. Lentamente abriu caminho em meio aos preconceitos populares e da mídia que o consideravam um sub-produto do movimento hippie, uma escolha irresponsável de mulheres "naturebas" ou o resultado da cruel limitação financeira e educacional de mulheres carentes.


As superfícies reluzentes de hospitais, quartos e modernas salas de parto, entretanto, ainda exercem um grande fascínio sobre as consumidoras dos serviços obstétricos, que viram em sua hospedagem neles um sinal de classe. Por outro lado, os profissioais do parto não pouparam esforços para promover sua melhor performance, treinandos como são para o parto medicalizado, não tendo experiência e familiaridade com o parto espontâneo ou natural.


Aconteceu, porém, que, num contexto capitalista agressivo e de grandes desequilíbrios sócio-econômicos e culturais, a nova opção do parto domiciliar acabou se encaixando no mesmo paradigma que vinha a desafiar. O parto em casa virou moda e como todas as modas está disponível a poucos.


Um parto que, por definição, é menos caro, custa frequentemente muito. Mulheres esclarecidas mas sem recursos continuam à mercê do serviço público de saúde, que, se exibe uma baixa taxa de cesárea, não sempre apresenta índices de satisfação das mulheres, uma vez que seus profissionais não estão treinados para o parto centrado na mulher. A alternativa a isso é recorrer aos médicos do plano de aúde  que, esmagados entre horários e remunerações, acabam oferecendo o único produto que lhes dá lucro na equação tempo/custo: a cesárea.


Esta situação gerou uma racha de opiniões dentro do movimento pela humanização. Por um lado, há os que sustentam que a mulher deve valorizar seu parto domiciliar e portanto estar disposta a pagar por  ele, por outro, estão os que argumentavam que nem sempre a falta de recurso é falta de vontade ou de consciência e que não se pode ficar sem carro para pagar o próprio parto. Esta discussão que, muitas vezes, se dá entre profissionais, deixa novamente as mulheres mal atendidas e mal entendidas.


Nesse meio tempo, foi surgindo um número tímido, mais crescente, de profisisonais, médicos e enfermeiras obstetras, que querem aproximar-se, saber, sentir e compreender melhor este parto domiciliar do qual tanto se fala, apesar da recriminação de colegas e dos apelos contrários dos mestres tradicionais.


Na União Euroéia, onde as parteiras gozam de maior reconhecimento, o cenário não apresenta mudanças substanciais. A obstetrícia tecnológica conquistou agressivamente espaço apoiando-se nos medos atávicos de suas consumidoras e aliando-se à desinformação generalizada que, junto à perda do saber popular, propiciou o avanço da moderna e, supostamente, "feminista" forma de parir: a cesárea. A mulher é finalmente liberta da dor, sem perceber que está ainda subjugada pelo estereótipo de sua própria incompetência.


As parteiras voluntariosas, mulheres elas também, mesmo quando profissionais competentes, encontram-se disputando na contra-mão um espaço de trabalho que sintetiza de um golpe só o poder social, econômico, de gênero e cultural que está em jogo.


A ONG Amigas do Parto lança em 2008 o primeiro curso para a promoção do parto domiciliar. Se trata de uma ferramenta de capacitação e de empoderamento para aqueles profissionais que buscam a mudança de perspectiva sobre o parto. O curso promove o novo paradigma, o qual tem início em cabeças, olhos e mãos que poderão, finalmente, ser usadas no momento certo e com a justa medida de respeito e responsabilidade.


Ele, enfim, pretende ser  um laboratório experimental que reúne a interdisciplinariedade e o arcabouço de saberes que suporta a transição para o salto quântico em que a saúde humana está vinculada à relação e respeito intersubjetivos. O empoderamento das mulheres neste processo deve ser acompanhado pelo empoderamento de novos profissionais que resgatem o sentido mais elevado de suas profissões e saibam transcender as limitações cultural-educacionais nas quais foram criados, assim como as tendências hegemônicas do sistema sócio-econômico no qual vivemos.


Almejamos que parto em casa se torne sinônimo de parto acessível a todas as mulheres. Seja ele acompanhado por parteiras tradicionais, médicos obstetras, enfermeiras obstetras, midwives ou obstetrizes, o parto domiciliar pode ser a forma mais simples, segura e barata de dar à luz. Depende de nós.



Adriana Tanese Nogueira, Psicanalista, filósofa, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto. www.adrianatanesenogueira.org

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