PARTO: TOCANDO EM FRENTE O MILAGRE DA VIDA

October 10, 2017

 

 

A reflexão a seguir é uma breve síntese da minha vivência com um pequeno grupo de pessoas que se reuniram a fim de aprender e/ou passar conhecimentos sobre a humanização do parto com consciência. Os encontros ocorreram em dois fins de semana, nos quais foram apresentados argumentos e reflexões sobre o ato de dar à luz da forma 

mais natural e consciente possível. Mais do que uma abordagem de técnicas e procedimentos, conversou-se sobre a necessidade da mulher conhecer seu próprio corpo, seu tempo, seus desejos, anseios, limitações – um olhar para dentro de si mesma. Além disso, foi abordado a questão da passagem para uma nova fase da vida – de ser mãe - uma nova abordagem de corpo e alma.


Vale ressaltar que este trabalho é teórico, fruto de uma reflexão embasada em informações, depoimentos e observações, uma vez que ainda não tive o privilégio de parir.

Para expressar o meu olhar para o curso, escolhi uma música, abaixo transcrita, e a partir dela, farei breves reflexões.

 

 

 

Tocando em Frente 

Almir Sater e Renato Teixeira


Ando devagar porque já tive pressa
e levo esse sorriso, porque já chorei demais.
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe
eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei.

Conhecer as manhas e as manhãs,
o sabor das massas e das maçãs,
é preciso amor pra poder pulsar,
é preciso paz pra poder sorrir,
é preciso a chuva para florir.


Penso que cumprir a vida seja simplesmente
compreender a marcha, e ir tocando em frente
como um velho boiadeiro levando a boiada,
eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou,
da estrada eu sou.

Todo mundo ama um dia, todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história,
e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz,
e ser feliz



A Reflexão


“Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso, porque já chorei demais.”


A vida passa ligeiramente – voa – transcede a percepção da gente e, muitas vezes, demoramos a nos dar conta disso. Tudo é pressa, é correria, é relatório, prestar contas, pagar contas, olhar a hora, marcar a hora, correr atrás da hora. Mas, e viver? E observar os detalhes da vida, apreciar a beleza, se surpreender com a cor, inalar os cheiros, sentir os sabores? E as vivências, os milagres, os partos?

Para isso é preciso parar! Pára, então! É preciso tempo, disposição,  sensibilidade! É preciso, muitas vezes, andar devagar, não ter pressa, e, assim, poder ver a vida... e sorrir. Não que estejam ausente motivos para chorar, mas é preciso sorrir depois do choro. De alguma forma a gente aprende que existe uma necessidade inerente ao ser humano de parar de correr e simplesmente viver. Esse aprendizado, por vezes (e na maioria das vezes) vem pela dor. E depois de muito chorar a gente aprende, diminui o ritmo, olha para a vida – dom de Deus – e sorrimos, pois há beleza nela, e a harmonia, junto com o belo, auxilia no processo curativo e traz o sorriso.


“Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe, eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei.”


Quando paramos, temos o privilégio de olhar para dentro de nós mesmos e o auto-conhecimento é imprescindível na caminhada humana. Uma vez que compreendemos como se dá o processo de construção de nossos valores, crenças e ser, entendemos porque somos assim e não daquele outro jeito. Então nos sentimos mais fortes e confiantes, pois sabemos até onde podemos chegar e quais nossas limitações. Enxergamos os aspectos que precisam ser mudados – e mudança não é fraqueza, é força! Perceber que é preciso mudar é um grande passo para o crescimento e fortalecimento do indivíduo. É um aprendizado! E, num movimento dialético, quanto mais aprendemos, mais compreendemos o quanto ainda há para aprender.


Conhecemos nosso corpo, seu funcionamento, seus limites.....até a hora em que se dá conta de que existe outro ser sendo gerado dentro de nós. E então? Muito do que se achava conhecido se transforma em “eu nada sei” e as certezas vão dando espaço a experiências novas, sensações inéditas e metabolismos desconhecidos. Mas isso eu ainda não sei!


“Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs,”


Nem tudo é o que parece ser, diz o ditado popular. Manhas x manhãs: palavras com escrita e sonoridade semelhantes, significados nada parecidos. Assim é a vida. Muitas vezes nos deixamos levar pelas aparências, pelos paradigmas, pelos conceitos já formados. E com isso atrofiamos nosso senso crítico, analítico e curioso. É preciso pesquisar e questionar antes de se submeter. No parto funciona da mesma forma. Técnicas, procedimentos, rotinas...é manha ou manhã? A mulher que se prepara para dar a luz precisa estar inteirada daquilo que ocorre com o seu corpo e o que virá depois, não se submetendo cegamente às proposições dos médicos como detentores da sabedoria. Precisa estar ciente de que nem tudo o que se diz “necessário”, o é. A mulher precisa sentir o “sabor das massas e das maçãs”, sentir o que o seu corpo pede, conhecer os procedimentos e identificar o que é cada coisa, sua função, implicação, prós e contras.

“É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.”


Dar à luz é um momento singular, especial, ímpar na vida de uma mulher, seja do primeiro, segundo, décimo filho – é único. Entretanto a banalidade da vida tem roubado a beleza e a sensibilidade de muitas delas fazendo com que o período da gestação e parto sejam apenas processos fisiológicos sem os quais não seria possível gerar um filho. O momento de parir deveria ser apenas uma continuação daquilo já iniciado anteriormente – o ato de amar. A vida pulsa dentro de cada ser, e o ser faz mais sentido quando é fruto do amor. A concepção, a gestação e o parto devem ser embebidos por sentimentos ternos, fraternos, harmônicos – o que não implica ser irracional ou só emocional.


O parto, geralmente, é um momento de grande aflição, pois traz consigo a insegurança, a dúvida, o medo. Medo de doer, de não dar certo, de não ser como o esperado, da criança não estar bem, de não conseguir ser uma boa mãe, de não se gostar mais, de não gostarem mais dela, da vida nova, das rotinas quebradas, da atenção dividida, da responsabilidade... da morte! “É preciso paz pra poder sorrir”, não um sorriso demagogo, forçado, aparente. Mas um sorriso consciente, feliz, ardente. Um sorriso que não inibe o berro, que não engole as lágrimas da dor, que não mascara a ansiedade, mas que mostra, apesar de tudo, que existe paz. Uma paz divina, colocada pelo próprio Criador, que nos dá a certeza de que Ele está no controle de tudo, inclusive da nossa natureza, pois foi Ele – o Deus Soberano - que tudo fez perfeito e nos capacitou para parir. Ele fez a nossa estrutura nos mínimos detalhes, como um sistema complexo, no qual cada órgão sabe o que fazer, na hora e da forma certa. Exceções  acontecem, porém, o próprio nome já diz – é uma exceção. E para esses casos também já existe solução. Então, só nos resta ter paz.

Paz não implica ausência de dor, de medo, de incerteza, contudo ela nos habilita a superar esses momentos. Vale lembrar que tais momentos são necessários para o nosso aprendizado, maturidade e crescimento. – “ é preciso a chuva para florir”. A conscientização da mulher em relação ao seu parto é que fará a diferença ao enfrentar cada tempestade.


“Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha, e ir tocando em frente como um velho boiadeiro levando a boiada, eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou, da estrada eu sou.”


O parto, especialmente em nossa sociedade, deixou de ser algo natural, inerente ao ser humano e deu lugar à sistematização. É preciso voltar a olhar o ato de parir como um estágio simples– embora tão complexo – na perpetuação da espécie. Parir é tocar em frente o milagre da vida! É passar adiante uma parte de nós. A mulher carrega em si o privilégio garantir que outras gerações virão.

O parto é um momento especial, mas é da vida - a continuação dela. Engravidar é normal, ou melhor, natural. Sendo assim, o parto deve seguir o mesmo princípio da naturalidade, com o mínimo de intervenção, num ambiente aconchegante, com pessoas amadas por perto e da forma como estiver mais à vontade. As rotinas hospitalares transformaram o parto num processo frio, impessoal, muitas vezes até mesmo traumatizante. A ganância e o comodismo faz com que a maioria dos médicos e/ou enfermeiras interfiram neste “tocar a vida” e acabam por impor métodos não naturais, inconvenientes, desnecessário, roubando a beleza de ver a “boiada seguir pela longa estrada”, seguindo seu curso natural.

“Um dia a gente chega, no outro vai embora”


A fugacidade da vida: ela é breve. Um dia a gente chega e em pouco tempo, 4, 20, 50, 80 ou até 100 anos, vai embora. E o que são 100 anos perto da eternidade? Por isso, importa tanto a maneira como se chega e como se vai embora desta vida.

A forma como um ser humano vem a este mundo (quando está no ventre da mãe é um outro mundo), não fica perdida no tempo e no espaço. Ele trás consigo, embora superável, marcas de suas primeiras horas como ser independente da mãe. Independente em termos, é claro! Enquanto habita na quietude molhada na barriga da mãe, o bebê não tem idéia do que o espera do outro lado do “buraco” (seja a dilatação na vagina ou o corte da cesariana, ambos representam passagem).


Quando o nenêm tem o privilégio de passar por um trabalho de parto, ele é preparado, anunciado, chamado para este lado de fora. Mesmo sem saber, ele passa por processos que o ajudam a entrar nesse novo mundo. Quando a mulher é submetida a uma cesária, caso entre em trabalho de parto, o bebê não é pego de surpresa, embora não passe por todos os passos do nascer. Alguns mecanismos, tão importante para o seu desenvolvimento, são deixados para trás. Contudo, quando é feita uma cesariana eletiva, a criança é arrancada totalmente despreparada para adentrar nesse mundo. Muitas vezes está dormindo, curtindo a falta da gravidade em que se encontra. Ou brincando com a mãozinha, o pezinho, curtindo aquele ambiente que é seu, até que... “o que é isso? Que luz é essa, de quem é essa mão, o que está acontecendo?” Sem nenhum aviso prévio, corta-se a barriga da mãe e uma coisinha miúda, frágil, singela é tirada de seu ninho acolhedor.

Mas a forma como se nasce não é violada apenas na escolha do parto. Os primeiros minutos de vida do bebê são de extrema relevância em sua vida. Ao sair da barriga da mãe ele encontra um mundo novo e estranho, sendo que a única coisa familiar é a voz da dela. Por isso, é imprescindível que, ao nascer, ele possa ser colocado diretamente no colo da única pessoa que ele teve contato desde que começou a ser formado e que já o ama - sua mãe. Chegar bem não é garantia de viver bem o resto da vida, mas chegar mal pode trazer seqüelas. Mais uma vez as rotinas pelas quais o bebê passa devem ser  revistas e avaliadas. E muitas delas devem ser negadas.


“Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si, carrega o dom de ser capaz, e ser feliz.”


Esta frase dispensaria maiores comentário, fala por si só. Entretanto, nunca é demais pensar um pouco além do que está dito, não é mesmo? A mulher é agente ativa em seu parto. Ela faz a história de seu parto. Ela e o bebê, é claro. Não podemos, nem queremos, fechar os olhos para os imprevistos, os incidentes, as surpresas não desejadas, é lógico. Mas até para isso a mulher deve se preparar e deixar fazer parte de sua história.


Cada mulher carrega em si o dom de ser capaz, capaz de parir. Dom divino, dado pelo próprio Criador desta “máquina” perfeita que é o corpo humano. Cabe a cada uma se conscientizar disto e procurar os meios pelos quais a possibilitarão ter parto feliz – seja normal, natural, vaginal, de cócoras ou até mesmo a cesariana. Seja qual for, que seja consciente e que seja feliz. Parto feliz não é um parto sem dor ou sem intervenção. Parto feliz é aquele que foi sonhado, planejado, discutido e realizado até o limite das possibilidades.


No Brasil, ter um parto humanizado e consciente, exatamente como desejamos e sonhamos durante toda a gravidez (e até mesmo antes dela) é privilégio de poucas, pois não muitas grávidas se despertam para a necessidade de se preparar para este momento. Algumas estão satisfeitas com uma cesária eletiva, mas não conhecem as implicações da mesma, ou apenas não querem sentir dor. Outras centralizam sua atenção em preparar lindos enxovais e gastam todo o tempo e dinheiro em deixar o quarto bonito para o bebê que vai chegar – não importa como. É fato que o senso comum trás idéias que desvalorizam o parto natural e colocam medos que vão além da dor (“e se o cordão estiver enrolado no pescoço?”). Até nas camadas mais desprivilegiadas, a cesariana é vista como parto de quem tem “condições” e quem acaba por parir naturalmente é porque não teve outra opção.


Contudo, não podemos nos limitar a esses fatores, pois nem todos os problemas provêm da falta de consciência. Se fosse...seria bem menos difícil de conseguir uma revolução nos índices de cesarianas e intervenções desnecessárias. A verdade é que estamos inseridas num sistema fechado, frio, egoísta, normatizador, cheio de regras e mitos hospitalares. Ter voz ativa diante de médicos e enfermeiros, salvo raríssimas exceções, implica expor a si mesma a situações que cansam, desgastam, frustram, inibem, ao ponto de se entregar passivamente nas mãos dos profissionais da saúde. Informações são indispensáveis, contudo, a mulher que deseja dar à luz da forma mais natural possível precisa se conhecer, se conscientizar e se preparar para fazer a sua história e, concomitantemente, a história de seu bebê e de sua família.


A história de cada uma não começa nem termina no parto. Ele é apenas uma parada nas muitas estações existentes ao longo do trilho da vida. É preciso estar consciente de quem você é, do que quer e como vai fazer para chegar lá, e isso em todos os momentos da vida. A chegada de uma criança representa a vinda de um novo ser, uma nova pessoa na família e que para sempre estará presente. Presente – é assim que ela deve ser vista, um presente de Deus.


O foco principal não deve estar no parto em si, como uma conquista individual, pessoal e, por vezes egoísta – “eu consigo, eu posso, eu sou mais eu!”. Mas representa uma vitória como mulher, como ser, como mãe, como alguém que sofre a dor (que por vezes faz até delirar de tão grande que pode ser). Mas é a dor que traz esperança, traz renovação. É a dor que precede um dos grandes milagres de Deus – o milagre da vida.

 

Trabalho de conclusão do Curso de Humanização de Marco de 2005 (São Paulo SP).

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