AS ESCOLHAS POSSÍVEIS E O QUE QUEREMOS

October 13, 2017

 

 

Sempre sonhei com um parto natural, onde eu podia ter meu filho como  quisesse. Nas minhas fantasias de adolescente me imaginava entrando em trabalho de parto e tendo meu bebê. Lembro que eu até encenava, enquanto tomava banho, um trabalho de parto. Em nenhuma dessas “fantasias” havia médicos, ou qualquer outra pessoa. Era somente eu, e eu me bastava para trazer meu bebê ao mundo.

 

Me lembrei dessas fantasias recentemente, enquanto pensava sobre a humanização e rascunhava esse texto. Curioso como me afastei de mim,  daquilo que eu realmente acreditava. Engravidei a primeira vez e o desejo imenso de um parto natural veio à tona. Nunca me passou pela cabeça precisar comunicar a alguém os meus desejos, as minhas vontades com relação ao parto. Para mim era simples: bastava parir e pronto!!! Precisei de uma cesárea.

 

Quase 5 anos depois do parto conheci a chamada Humanização. Fiquei assustada e ao mesmo tempo encantada, maravilhada com o que lia. Assustada em descobrir que o parto não pertence à mulher, em descobrir que a tecnologia havia tomado o lugar do humano, e que nós mulheres somos vistas como meras incubadoras de bebês. O parto não é considerado um evento biológico, natural, e sim um evento médico, onde o saber técnico e codificado conta mais do que o ser. Ao lado dessa conduta tecnicista havia profissionais que andavam na contra-mão, oferecendo a possibilidade de parto humanizado. Isso me deixou maravilhada, havia uma luz no fim do túnel!!!!


Engravidei pela segunda vez e procurei uma equipe humanizada. Minha filha nasceu de parto normal humanizado. Como da primeira vez, demorei para elaborar o que tinha acontecido e mais de dois anos após o parto consegui finalmente compreender o quão distante eu ainda estava de um parto realmente humanizado.


Entendemos que humanizar é respeitar o outro e seus desejos. No entanto humanizar vai além disso: é antes de qualquer coisa saber ouvir a si mesmo, conhecer a si próprio, respeitar seus desejos e seu instinto. Permitir que o outro escolha o que achar melhor é dar apoio sem julgar e sem cercear a liberdade, o que só é possível, a meu ver, quando respeitamos em primeiro lugar a nós mesmos. Para humanizar é preciso humanizar-se. No sistema atual não há essa humanização, porque não há liberdade de escolha. Nossas escolhas são  baseadas nas opções que nos apresentam, e não nas nossas vontades. A  partir do momento em que são fornecidas as opções X ou Y e a mulher precisa escolher entre as duas, não há humanização. Essa é uma “humanização” incompleta, uma pseudo-humanização. Não há respeito pela vontade da mulher, não há o acolhimento das decisões dela. Ela precisa escolher entre o que oferecem a ela, e não tomar as próprias decisões. Meu parto encaixou-se num padrão, um conjunto de condutas ditas “humanizadas” (banho para relaxar, presença do pai e etc). No fundo eu não pude escolher sozinha, e sim optar entre o que tinham para me oferecer.


A mulher ainda não é protagonista do próprio parto, não faz suas escolhas, continua sendo conduzida como vem acontecendo há muito tempo, mas sem perceber. Esse é o perigo. A “humanização” pode facilmente se disfarçar, trocamos a opressão médica que nos obrigava a parir deitada pela “humanização” que nos “oferece” em que posição ficar, que nos “oferece” como opção de relaxamento a banheira ou uma massagem, mas sem nos dar direito de querer mais ou diferente.


Quem trabalha dessa forma tem boa vontade em atender as mulheres, em  acompanhar o parto, posições diferentes são sugeridas, banhos e massagens, numa tentativa sincera de “humanizar” o parto. Mas humanizar, a meu ver, é deixar a mulher escolher, respeitar as escolhas e desejos dela. O que temos é a da oferta de opções, e a nós cabe simplesmente escolher dentre elas.


Optei dentre aquilo que me foi oferecido, mas não pude fazer valer minhas vontades. Enquanto elaborava mais algumas questões para escrever esse texto me lembrei de várias situações em que meu desejo não tinha lugar, não encaixava no que poderia ser oferecido. Então aceitei e optei entre o que tinha à disposição. Sei que meu parto foi fruto das escolhas que estavam disponíveis para mim naquela época e elas por sua vez eram condizentes com meu grau de humanização interior. Dei-me conta que, na verdade, me distanciei demais de mim mesma, das minhas vontades, dos instintos que se manifestavam nas minhas encenações da adolescência. Acabei me deixando levar, não tive peito, fui covarde para bancar o que eu pensava e queria. Não posso culpar o sistema nem a equipe (pelo menos não totalmente), porque, a partir do momento em que não tive coragem para assumir meus desejos, não tenho o direito de culpar os outros. Eu "escolhi" esse sistema por falta de coragem e de maturidade para deixar claro o que eu realmente queria.


Entretanto, SEMPRE tive o parto domiciliar nos meus sonhos, e, mesmo ouvindo todas as críticas a respeito, nunca consegui me convencer de que é assim tão arriscado. Meu instinto e minha razão me diziam que eu queria outra coisa, mas faltou força interior para que eu não me deixasse levar .


Na época em que engravidei meu “eu” inteiro me dizia para dar ouvidos ao que eu sentia, aos meus desejos, às minhas vontades, sem ter que escolher dentre àquilo que me ofereciam. Mas eu não tive maturidade para bancar, por isso tive o parto que eu me permiti ter. Hoje vejo as coisas de outra forma, aprendo a cada dia a ouvir mais o que meu interior me diz, aprendo a humanizar a mim mesma. Para mim esse é o caminho da humanização, precisa partir de dentro.


 

Débora Meister é mãe de duas meninas. Uma nascida de cesárea e a outra de parto normal “humanizado”. É doula e psicóloga.

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