Confiança na doula (certa) e parto feliz

 

 

 

No meu trabalho tinha um amigo cuja esposa estava grávida. Como todos sabem que tive 2 partos normais domiciliares sempre sou procurada para para falar sobre parto, mitos, intervenções e humanização. E esse meu amigo me procurava e me perguntava sobre esses assuntos. Um dia perguntei como estava a esposa dele e foi aí que tudo começou:

 

Eu: Como está sua esposa K.? Tá com quantas semanas?

K.: Está bem, está com 39 semanas e 2 dias.

Eu: Então está para nascer a qualquer hora, né? Vocês vão ter parto normal?

K.: Então, eu gostaria muito, por tudo que você fala, pelos benefícios, pela saúde da minha filha e da minha esposa, porém não sei bem se ela quer realmente.

Eu: Se você quiser, fala para sua esposa vir aqui hoje a tarde! Temos uma sala disponível e posso conversar com ela sobre parto normal, cesárea, intervenções e benefícios.

K.: Nossa!! Seria ótimo, vou falar com ela e te aviso.

 

À tarde a esposa dele veio me encontrar.

 

Eu: Oi J., tudo bem? Como está a gravidez? Então você pensou sobre qual tipo de parto vai querer?

J.: Minha gravidez está ótima. Sobre o parto, conversei com o médico e ele informou que não faz parto normal pelo convênio, e tenho medo do parto normal...

 

E nossa conversa seguiu.

Passei a tarde inteira conversando sobre os benefícios do parto normal, de esperar o bebê dar o sinal de nascer, sobre a importância do processo do trabalho de parto, sobre as soluções não farmacológicas para alívio da dor. Expliquei qual é a função da doula no trabalho de parto.

Também relatei a minha experiência com a cesárea e com o parto normal. Conversamos sobre medos, dor e alegria em trazer seu filho ao mundo pelo processo mais saudável possível.

A gestante se mostrou muito surpresa com tudo e bem curiosa.

Combinamos de nos encontrar no outro dia à tarde para conversarmos mais sobre o assunto.

Trocamos telefones e fomos embora.

 

Às 04:30 da manhã comecei a receber muitas mensagens.

Quando olhei era da esposa do meu amigo (J.) me informando que estava tendo contrações.

Falei para ela ficar tranquila e que pedisse para o marido começar a marcar as contrações por 30 minutos e me mandar por mensagem. Perguntei qual o nível da dor e ela falou: Estão doloridas mas estão suportáveis.

 

Enquanto eu aguardava o marido marcar as contrações para me enviar, corri e fui tomar um banho, peguei um lanchinho, organizei uma mochila com os óleos para massagem e separei minha bola de pilates.

 

Às 5:00, o marido me envia uma mensagem dizendo que ela estava com contrações a cada 5 minutos. Nesse momento liguei para a J. e perguntei como estava o nível da dor e ela falou que estavam mais doloridas. Eu perguntei: Você quer que eu vá  para sua casa?

Sim..Sim, por favor... Vem me ajudar.

Imaginava isso, assim peguei minhas coisas e fui.

 

Cheguei 5:30. Coloquei uma música tranquila no meu celular, peguei meus óleos, pedi para ela sentar na bola para ver se ficava mais confortável. Quando vinham as contrações massageava a região que incomodava e pedia para ela respirar profundamente, e que ficasse calma.

 

Às 6:00 da manhã a bolsa rompeu. As contrações ficaram bem mais doloridas. Perguntei para ela se queria tomar ducha quentinha para aliviar as dores. Quando entrou no chuveiro ela começou a vomitar. Falei para ela que isso era normal devido as contrações terem ficado mais fortes.

Ela ficou um tempo no chuveiro, mas começou a reclamar muito das dores. Comecei a marcar as contrações e vi que elas já vinham de 3 em 3 minutos e estavam mais intensas e com uma duração de 40 segundos. Então perguntei se ela queria sair do chuveiro e ela aceitou. Pedi para ficar de quatro na cama para ver se aliviava um pouco as dores. Fui sugerindo algumas posições. Perguntei se ela sentia o bebê mexendo, mas ela disse que não sabia responder por causa das contrações.

 

Olhei no relógio e eram 7:10, então perguntei como faríamos, se era para ligar para o médico dela. Ela me respondeu: Não vamos ligar para ele, porque ele não é a favor do parto normal e vai me fazer uma cesárea. Vamos para a emergência, ela disse.

Eu: Sem problemas.

 

Nesse momento ela já gritava de dor. As contrações estavam bem ritmadas. Sugeri irmos ao hospital para avaliar. Expliquei que se não tivesse com uma dilatação boa, podíamos voltar para a casa dela e esperar o trabalho de parto evoluir mais.

 

Às 07:40 Chegamos ao hospital que aceitava o convênio dela. O marido estava bem tranquilo, confiava muito em mim porque sabia que eu já tinha passado pelo trabalho de parto no nascimento dos meus 2 últimos filhos. Falou que não queria entrar com ela porque não gostava de ver sangue e achava que poderia atrapalhar.

 

Então enquanto ele preenchia os papéis burocráticos, eu fui com a esposa dele direto para o médico obstetra de plantão. Quando ele avaliou disse que ela estava só com 1 cm de dilatação. Foi bem seco e frio com a gente. Saiu da sala e disse que já voltava.

 

A J. me olhou e falou: Não vou dar conta, estou morrendo de dor e só com 1 centímetro!!!

Eu abracei ela e falei: Você já está dando conta fica tranquila, vai dar tudo certo.

 

Quando o médico voltou, ele falou: não tem vaga, o hospital está cheio, estamos vendo um hospital com leito para vocês irem. Enquanto isso aguarde lá na enfermaria deitada. Quando estávamos saindo da sala escutamos ele comentar com uma pessoa que a J. estava com 2cm de dilatação.

 

Falei para a J.: Olha ele falou agora que está com 2 cm, então pode ser que você esteja até com mais e ele não quis falar, ou seja, está evoluindo. Essas dores estão fazendo o papel delas, não é uma dor em vão.

 

Ficamos na cabine da enfermaria e falei para ela: Não deite porque a dor piora, vamos fazer algumas posições que aliviam e que ajudam na dilatação. Então quando passava as contrações ficávamos de cócoras, girava o quadril para o lado e para o outro. E ficamos dessa forma por uns 40 min.

 

O marido dela avisou a sogra e ela foi nos encontrar lá na enfermaria. Logo que a mãe da J. chegou veio outro médico diferente do que a examinou e falou: Conseguimos uma vaga em outro hospital, eles estão esperando por vocês lá, mas antes de liberar vou te examinar. Fez a ausculta do bebê e estava ótimo, fez o toque e a J. estava com quase 5 cm de dilatação.

 

Eu olhei para ela e falei: Tá vendo, vai dar tudo certo, confie no seu corpo. A mãe da J. estava bem tranquila e a incentivava também.

Após a avaliação fomos para o outro hospital.

 

Chegamos por volta de 9:00 da manhã. Entramos direto para o consultório avaliar. A médica verificou que a J. estava com quase 8 cm. Foi maravilhoso escutar isso, nós 3 nos abraçamos e eu e a mãe incentivando a J. a manter calma que tudo estava correndo super bem.

 

Como a mãe da J. entrou junto, vi a necessidade de me identificar como doula para tentar garantir o acompanhamento. Para minha feliz surpresa a médica falou que podia auxiliar sem problemas e acompanhar todo o trabalho de parto. Foi um alívio. A médica foi muito tranquila e falou que podíamos ficar a vontade.

 

Eu continuava fazendo massagens e pedindo para ela respirar profundamente e ter calma que logo sua filhinha  chegaria. Depois de uns 20 minutos percebi que ela começou a fazer força quando a contração vinha. Perguntei: você está sentindo uma vontade parecida com a vontade de fazer cocô? Uma pressão lá embaixo?

E ela respondeu: Sim, vontade de empurrar como se fosse fazer cocô.

Então, falei: Vamos voltar lá para consultório para conversar com a doutora. Pois estávamos andando nos corredores para ajudar a aliviar as dores e auxiliar na evolução do trabalho de parto.

 

A médica avaliou, e estava com quase 10cm de dilatação. Então nos orientou a trocar de roupa para descermos para o centro obstétrico. Assim que chegamos lá eu vi uma banqueta no cantinho e falei para a J. se ela queria sentar na banqueta ou ficar na cama que tinha na sala. A médica disse que ela poderia ficar onde quisesse.

 

Então a Jerssica sentou na banqueta. Começou a sentir mais pressão e mais vontade de fazer força. Eu falei para ela baixinho no ouvido: respire fundo e faça força só quando sentir vontade.

 

Depois de uns 10 minutos a bebê nasceu!! Lícia nasceu às 9:50 super bem, foi direto para o colo da mãe, a doutora esperou o cordão parar de pulsar para cortar. J. gritava muito feliz: Eu consegui... Eu consegui! Abraçada com mãe e com a Lícia no colo.

 

Eu chorei de emoção ao ver que tudo tinha dado certo.

Então a J. me olhou e meu agradeceu muito pelo meu apoio. Disse que eu abri um mundo novo para ela com muitas informações o que a fez rever a escolha do tipo de parto. Disse que depois que conversou comigo queria respeitar a hora que a filha quisesse nascer e que queria viver todo o trabalho de parto de forma plena.

 

Fiquei muito emocionada com as palavras dela e percebi que as mulheres querem parir, querem viver esse momento, porém muitas não têm informação e apoio, então acabam indo para a cesária.

 

Muito me impressionou a confiança que a J. depositou em mim, e a tranquilidade que ela teve durante todo o processo, mesmo com dores bem puxadas nas quais ela até gritava, ela não falava em desistir.

 

O parto foi muito bonito e tranquilo.

A médica foi muito paciente e respeitosa.

 

Pontos negativos que achei foi:

- Podia ter uma estrutura mínima na emergência como bola e uma salinha para ter privacidade.

- A pediatra aspirou a neném, ao meu ver sem necessidade porque ele nasceu super bem e ficou no colo da mãe um bom tempo. Percebi que a aspiração foi feita por mero protocolo.

 

Minha experiência foi ótima muito enriquecedora. Fiquei um pouco com receio do médico que iríamos encontrar na emergência, mas tivemos muita sorte com a plantonista que assistiu o parto.

 

Fiquei muito emocionada de ter podido auxiliar a gestante a rever suas crenças sobre o parto tão em cima da hora. Percebi o quanto a informação pode fazer as pessoas repensarem suas escolhas. Percebi como é importante o trabalho da doula e quão gratificante é fazer parte de um momento tão bonito, passando tranquilidade e calma para todos. Como como é maravilhoso doular!

 

O material do curso EaD de formação (Doula Parto) foi ótimo, principalmente por:

- mostrar a função da doula na família e na equipe,

- entender o meu lugar no parto,

- me fazer entender que estamos para auxiliar e não para tomar a decisão pela gestante,

- ajudar a assegurar o  respeito ao parto de cada uma,

- conscientizar que cada mulher é de uma forma e que não podemos querer parir por ela,

- ajudar a entender que nós apenas orientamos em questões de beneficios e maleficios das intervenções, mas cabe à mulher  decidir o que é melhor para ela,

- defender o protagonismo dela, para que a vontade dela seja respeitada.

 

O material foi muito interessante também pela visão fisiológica do parto, dos ossos, da estrutura do corpo da mulher. Me deu uma visão panorâmica de todo o processo do parto me passando segurança para minhas reuniões com a gestantes.  O achei bem completo.

 

 

Alessandra Cristina Lopes Félix de Lima

alessandraclff@gmail.com

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