AMAMENTAR A CONSCIÊNCIA DA ESPÉCIE

March 21, 2019

 

Na análise, a maior parte de nossas dificuldades
vêm da perda de contato com nossos instintos,
com a sabedoria antiquíssima
e não esquecida que se encontra guardada em nós.

C.G.Jung, 1936


Inúmeras  campanhas de incentivo a amamentação, especialmente a partir da década de 70, já aconteceram desde que se constatou que as" latinhas de leite Ninho" não eram o melhor para nossos bebês. Parece difícil descondicionar a consciência coletiva de um engano gerado pelo marketing industrial que seleciona nossa visão e ação a umas  poucas possibilidades.  Um exemplo  do conflito entre nossa instintividade intrínseca e a sociedade cada vez mais desmembrada em que vivemos.


Onde  encontrar o fluxo instintivo? Encoberto está, por camadas e camadas de construções ilusórias.  Segundo James Hollis (1):

"A sabedoria instintiva pode mesmo estar perdida para a mente consciente, mas para as vastas profundezas do insconsciente, a sabedoria que a natureza reúne não é nunca esquecida, e irá se manifestar nas patologias, se sua expressão for negada."

Como podemos ser mais eficientes para nutrir nossos filhos, como perder menos tempo com os incômodos próprios deste envolvimento? Perguntas que nos faz o pensamento corrente desta sociedade que quer resultados satisfatórios e rápidos. A sociedade moderna, pós-moderna, a mais recente sociedade desconstrutivista que gerou o aquecimento planetário  com as consequentes alterações climáticas devastadoras, como os ciclones, os terremotos, os furacões,as inundações,  por caminhos tortuosos e insconciente na sua grande maioria, foi perdendo a capacidade de manter os vínculos essenciais com a vida, com a natureza feminina que existe em cada e em todo ser vivo. Tudo ficou tecnológico, científico, assim pensávamos que seríamos protegidos do inesperado, quisemos saquear como piratas, tesouros insondáveis. Uma sociedade que supervalorizou o saber intelectual, não fazendo disto uma qualificação negativa mas, olhando como que para uma corda elástica sendo puxada ao extremo.  Gradualmente este pensar científico, semiótico e coletivista foi minando nossa auto-estima. O indivíduo  e tudo que lhe diz respeito; esmagado.


No contexto específico da vida feminina: a função de parir de forma natural e logo em seguida amamentar  também naturalmente é o exemplo  citado. Não nos reconhecemos mais tão facilmente como qualquer mamífero deste planeta, ficamos cegas ou míopes para nossos instintos. Precisamos de campanhas, de aulas, de orientações sobre algo tão simples como pegar nosso filhote humano e experimentar junto com ele, na calma, na tranquilidade, o encontro fecundo de sua pequena boca com nossa mama, a papila mamária.  A capacidade da mulher de posicionar seu bebê no peito, de forma que a amamentação seja indolor e eficaz, é uma habilidade aprendida que a mãe deve adquirir por observação e prática.


Saber- instintivo, que é um aprendizado mútuo. O bebê nunca fez isso antes, nem nós. Porém, estar segura na força para amamentar, no instinto para nutrir e ser nutrido que é um instinto básico  de sobrevivência das espécies mamíferas.

 

Nosso tempo presente está ainda a duvidar desta habilidade intrínseca.


Por onde anda nossa consciência coletiva?

 

Essa é uma reflexão que ultrapassa as questões de parir de forma natural e amamentar, ela traduz um perigo eminente de extinção como espécie, como uma lesão de contra golpe geramos condições de restrição à vida de outras espécies devido ao nosso desequilíbrio biopsicosocial. Estas ações equivocadas se  voltaram contra nós mesmos, nos afastando da via instintiva, criando armadilhas para nosso próprio caminho. Portanto, temos muito trabalho para desobstruir nossa visão de mundo e mudar o paradigma atual. Muitas ações sociais educativas são necessárias. Olhemos então, para as mulheres.

Infelizmente, ainda existem profissionais da saúde que deixam de apoiar ou não confiam na capacidade da mãe para  "engordar" seu filho com seu próprio leite e as fazem "suplementar com leite em pó".  A fragmentação da assistência pós-natal, e uma falha na compreensão das técnicas de amamentação, impede muitos profissionais de adquirirem estas habilidades. Preciso é, dizer não às receitas que nos desqualificam. Não há evidências  que apoiem a prática disseminada de oferecer água, glicose ou mamadeiras aos bebês amamentados no peito. Não há dados que justifiquem a imposição de horários a amamentação e a frenquência das mamadas não deve ser restrita. No início de uma mamada o bebê ingere um grande volume de leite pobre  em calorias  e, no fim da mamada recebe um menor volume de leite rico em calorias. Assim, se reduzirmos os minutos de mamadas também  se reduz a ingestão calórica. Portanto a duração da mamada não deve ser limitada. Um bebê precisa dormir e comer de acordo com seus próprios ritmos individuais e não com regimes arbitrários. Ainda temos que considerar  a questão relativa ao suprimento de leite, o chamado leite fraco ou insuficiente. Países como a Escandinávia com altos índices de manutenção da amamentação, relatam pequena casuística deste problema. Observações em sociedades tradicionais sugerem que menos de 1% das mulheres seriam fisiologicamente incapazes de produzir um suprimento adequado de leite (2). A melhor forma de evitar a insuficiência de leite é a alimentação irrestrita de um lactente bem posicionado, enquanto  sua mãe recebe bom suporte prático e emocional.

 

Ter calma. Suspender a necessidade de respostas rápidas e não se angustiar com a dificuldade inicial. O posicionamento do bebê na mama tem papel fundamental, tanto na prevenção de feridas nas papilas mamárias quanto no estabelecimento eficaz da amamentação. Confiança!  Somos fêmeas mamíferas diante do mergulho numa piscina de possibilidades nas camadas originárias da vida. O parto, o nascimento, a amamentação são momentos de expressão arquetípica,  onde o substrato formador do ser se manifesta. Por ser tão excepcional, vem carregado de uma grande quantidade de energia afetiva e emocional que mobiliza a todos participantes do evento. Porém, não podemos esquecer que é prerrogativa do binômio mãe-filho fazer as escolhas, sem imposição. O princípio é de acolhimento porque o que vem, traz consigo uma bagagem muito maior do que podemos avaliar pela ótica conhecida.

Nosso cérebro conservou anatomicamente no seu centro, o tronco cerebral como sede das vias instintivas.   Abrir as comportas, ir ao centro, empreender uma jornada em regiões profundas.  Tempo... paciência... calma... confiança... Voltar-se para dentro é o que significa a palavra latina reflexio. Em meditação contínua, mãe e bebê. Longe dos barulhos do mundo externo, dos emaranhados das mentes. As primeiras horas, a primeira semana são as de maior atenção. Pode-se dizer que é muito difícil, com certeza o é, principalmente quando existir alguma fragilidade física e/ou psiquica. Muitos problemas enfrentados pelas mulheres que tentam amamentar seriam evitáveis se todas as lactantes tivessem acesso a informações precisas, bem como  ajuda e suporte práticos quando necessitassem.

 

Como disse James Hollis:

"...o problema de se acessar o mundo invisível é sempre nossa questão principal. Para encontrar um novo ponto de vista em nosso tempo, é necessária uma atitude psicológica, a disposição de olhar sob a superfície para ver quais forças estão em ação e como elas estão internalizadas por cada um de nós."

 

Está em nós, dentro de nós. Não se pode acessar através da mãe, da amiga, da médica ou de quem quer que tenha passado pela experiência. A experiência de outra mulher pode ser valiosa como pode ser desencorajadora.

 

Portanto, agora é a nossa vez! O palco é nosso. Nosso é o drama, nosso é o laboratório!

Deixemos que se aproxime só o que vai nos apoiar, nos acolher, nos segurar em nossas convicções, só assim é possível. Amamentar não é apenas nutrir, também é acarinhar, proteger, estreitar os vínculos de amor mãe-filho. É a primeira forma de comunicação humana. Conversamos pela troca de olhares, pelo tato carinhoso, pelo aconchego nos braços, pelo calor dos corpos. Aprendemos a conhecer, somos conhecidas e nos re-conhecemos. Na verdade é uma prova de valor. Nos olhos daquele pequeno ser nos vemos e descobrimos nosso valor biológico e espiritual. Nenhuma mamadeira, nenhum leite em pó poderá substituir essa experiência,  que  deve ser incessantemente ensinada, através das gerações. Um ato da ancestralidade feminina e da manutenção da espécie humana.


(1) Hollis, James. Mitologemas,  encarnações do mundo invisível. Ed. Paulus

(2) Enkin, Murray and col. Guia para atenção efetiva na gravidez e no parto. Ed. Guanabara Koogan

  

Adelise Noal Monteiro é médica pediatra, homeopata, acupunturista com clínica em psiquiatria  junguiana.  Exerce também a função de médica-parteira e atende a partos domiciliares em Porto Alegre. Colaboradora da ONG Amigas do Parto. Está envolvida em projetos com os Guaranís e com parteiras do Santo Daime da floresta amazônica, região do rio Purus.

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