MASTITE PUERPERAL

March 21, 2019


O leite materno é o alimento ideal para o recém-nascido e o lactente e nenhum outro alimento poderá substituí-lo com vantagem. Ele é completo e como alimento para lactentes é fundamental e a melhor opção de alimento tendo em vista as necessidades nutricionais e particularidades fisiológicas do metabolismo da criança (1). Isso significa que até os 6 meses de vida o bebê não precisa de nenhum outro alimento (chá, suco, água ou outro leite). A amamentação forma uma base biológica e emocional tanto para a saúde da mãe quanto a criança (1).


São inúmeras as vantagens da amamentação para a criança, a mãe, a família e a sociedade em geral. Representam fatores de superioridade do leite humano a sua melhor digestibilidade, sua composição química balanceada, ausência de fenômenos alergênicos, a proteção conferida contra infecções e o relacionamento afetivo mãe e filho (2).

 

O efeito mais dramático da amamentação se dá sobre a mortalidade de crianças pequenas, graças aos inúmeros fatores existentes no leite materno, que protegem contra infecções comuns em crianças como diarréia e doenças respiratórias agudas (2). A associação entre mortalidade infantil e ausência de aleitamento materno é modificada por diversos fatores de ordem demográfica, socioeconômica, dietética e ambiental. A proteção conferida pelo leite materno contra mortes infantis é maior em crianças pequenas, exclusivamente amamentadas, residindo em locais onde há pobreza, promiscuidade, água de má qualidade e alimentos contaminados e de baixa densidade energética (2).

 

Apesar da excelência do leite humano, o desmame precoce é muito freqüente (1). Desmame precoce é a interrupção do aleitamento materno antes do lactente haver completado seis meses de vida, independente de a decisão ser materna ou não e do motivo de tal interrupção (3).

 

Para a World Health Organization (WHO), a mastite puerperal é uma importante causa de desmame precoce, chegando a ser a terceira razão informada pelas mães (3).  É caracterizada como um processo doloroso que quando não diagnosticado e tratado precocemente pode causar muito sofrimento à mãe (4). A mastite interfere na qualidade de vida da mulher-mãe e, conseqüentemente, na relação mãe-filho. É um processo inflamatório da mama, que pode ser acompanhado ou não de infecção, com uma incidência relatada entre 2,6 a 33%, numa revisão realizada pela WHO (3).

 

A mastite puerperal ocorre com maior freqüência nas primeiras semanas, mais comumente entre e terceira e sexta semana pós-parto, podendo ocorrer, no entanto, em qualquer estágio da lactação e, quando não tratada, pode evoluir para abscesso (4). Quando há infecção, ocorrem manifestações sistêmicas importantes, como febre alta, calafrios e mal-estar (5). No exame físico, a parte afetada da mama apresenta-se vermelha, quente, edemaciada e dolorida (5).

 

No decurso do ciclo gravídico puerperal, processos inflamatórios da mama – mastites -  ocorrem particularmente no puerperio em virtude dos fatores intervenientes relacionados à amamentação (6).

 

As alterações fisiológicas e preparatórias à lactação que atingem as mamas durante a gestação assumem aspectos superlativos dentro das 72 horas no puerperio quando elas aumentam rápida e intensamente de volume com distensão excessiva da pele, acompanhando-se e queixa dolorosa mais ou menos evidente (6).

 

Assim o início da amamentação particularmente em primiparas acompanha-se de dificuldade e com frequencia surgem rachaduras e fissuras perimamilares e periareolares que favorecem a invasão microbiana mamária – mastites. Essa é a mais importante complicação da lactação (6).

 

De acordo com o padrão epidemiológico, a mastite puerperal ocorrer em duas formas: mastite epidêmica e mastite não epidêmica. A forma epidêmica, atualmente rara, está associada à contaminação cruzada em conseqüência da disseminação de microrganismos no ambiente hospitalar. Ocorre freqüentemente cerca de quatro dias pós-alta, sendo difícil distinguí-la de ingurgitamento mamário (7). Esta forma ocorreu muito freqüentemente, entre as décadas de 1930 e 1960, nas salas de parto de hospitais de países industrializados (8). A forma não epidêmica ocorre esporadicamente, semanas após a alta.

 

No Tratado de Ginecologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia - FEBRASGO (9) as mastites são classificadas em: mastite aguda e mastite crônica. As mastites agudas são definidas como processos infecciosos que se instalam nos tecidos mamários na gravidez ou no puerpério (principalmente a partir do 15º dia pós-parto), embora sejam observadas em qualquer faixa etária e em todas as fases da vida da mulher.

 

As principais causas da mastite puerperal são a estase lática, causada por uma remoção ineficiente do leite e infecção, com uma maior prevalência do Staphylococcus aureus como agente infeccioso em até 50 a 60% dos casos, dentre outros microorganismos (estreptococos fecal e B-hemolítico, pela Escherichia coli, Klebsiella pneumniae, Bacteroides fragilis, Streptococcus agalactiae e pelo enterococo (6).

 

Culturas de secreções nasal e da nasofaringe de recém-nascidos assintomáticos, com frequencia identificam a presença do estafilococo (6). Vários fatores são considerados como predisponentes a mastite puerperal: como idade, primiparidade, pele frágil, estresse, fadiga, aumento excessivo do volume mamário (“pojadura”) nível de escolaridade da mãe, trabalho fora do lar, trauma mamilar, má pega, fissura mamilar, mamilos umbilicados, planos ou pequenos e ingurgitamento mamário (5).

 

A perda da integridade do revestimento mamilar parece facilitar o acesso bacteriano ao tecido mamário. A presença de mamilos fissurados e/ou rachados expressa elevada colonização por Staphylococcus aureus, favorecendo o desenvolvimento de mastites (10). Além da colonização bacteriana, mamilos escoriados e fissurados associados a dor aguda, na ausência de sinais inflamatórios locais ou sistêmicos, pode significar infecção por Candida albicans, casos estes que devem ser tratados com medicamentos antifúngicos tópicos como miconazol ou nistatina (11).

 

A mulher com mastite puerperal não deve parar de amamentar. Nada há no leite que possa prejudicar a criança nem mesmo os antibióticos ou analgésicos que forem administrados causarão danos graves à criança; e tirar o bebê imediatamente do peito só agrava a situação de leite acumulado podendo ainda piorar ainda mais toda a situação (12). 

 

Os resultados do tratamento de mulheres com mastite não infecciosa são melhores com retirada do fator obstrutivo causal, a continuação das mamadas e a retirada do leite. Nas mulheres com mastite infecciosa é importante que se acrescente um antibiótico. Os antibióticos mais utilizados nas mastites infecciosas são a dicloxacilina, a cefalexina, a cefoxitina ou a oxacilina. Se o processo não melhorar em 48 horas deve-se suspeitar de um abscesso mamário, que poderá ser palpado na mama com uma tumoração flutuante (com liquido) ou avaliado por ultrassonografia (13).

 

 No caso de abscessos mamários, deve-se proceder à drenagem cirúrgica do processo e à interrupção temporária da amamentação no lado afetado, dependendo da localização do abscesso e da tolerância materna à dor (13). 

 

Pesquisadores (14,15) relatam orientações de proteção as puérperas:

 

1) Lavar as mãos antes de pegar a criança para amamentar.

2) Escolher uma posição confortável para amamentar.

3) Recomendar amamentação precoce e freqüente (desde o primeiro dia) pois essa medida previne ou reduz a incidência de ingurgitamento mamário.

4) Após as mamadas passar o próprio leite nos mamilos para protegê-lo evitando fissuras.

5) Instruir a gestante a sempre usar sutiã que elevam as mamas (retificando os canais galactóforos) e que mantenham descobertos e secos os mamilos.

6) Usar gelo na mama, entre as mamadas, nunca antes de amamentar, caso esteja ingurgitada para diminuir a produção de leite.

7) Tomar banho de sol e expor os seios, pois há benefícios com tal ato.

8) Evitar o uso de bombas para tirar o leite.

9) Fazer ordenha da mama manual.

10) Contra-indicar aplicações de cremes y protetores mamários sobre o mamilo e a região perimamilar; evitando-se umidade local.

 

Devemos considerar a importância da prática da amamentação bem-sucedida enquanto estratégia de promoção da saúde da mulher e da criança e de redução da morbimortalidade materna e infantil (16).

 

 Desta forma, é necessário subsidiar práticas de profissionais de saúde mais direcionadas ao preparo da gestante desde o período gravídico, momento que antecede a prática da amamentação, favorecendo o nível de conhecimento e de conscientização sobre a prevenção e enfrentamento dos problemas que poderão surgir (inclusive a mastite puerperal) e contribuir para o bem-estar geral da mãe e do seu filho no momento do puerpério, tornando-o uma experiência agradável e bem-sucedida (16).

 

É de fundamental importância que a mulher sinta-se adequadamente assistida nas suas dúvidas e dificuldades sobre amamentação, para que as mesmas possam assumir com mais segurança o papel de mãe e provedora do aleitamento de seu filho. Cabendo aos profissionais de Saúde e aos Serviços de Saúde o compromisso de realizar um atendimento de qualidade a essas mães de modo a tornar a amamentação um ato de prazer e não uma obrigação (17).

 

O profissional de saúde deve orientar a lactante que as vantagens da amamentação superam os problemas ocasionados pela mastite (que pode ser tratada) e motivá-la a dar o peito e a vencer os obstáculos que possam surgir durante esse processo (18).

 

 

Referências bibliográficas

 

1-    Sales et al. Mastite pueperal: Estudo de fatores predisponentes. RBGO,22 (10). 2000.

2-    Giugliani ERJ. O aleitamento materno na prática clínica. Jornal de Pediatria 2000;76:S238-252.

3-    World Health Organization. Mastitis causes and management. Geneva: World Health Organization; 2000.

4-    Lana, APB. O livro de estímulo a amamentação: Uma visão biológica, fisiológica e psicológica comportamental da amamentação. São Paulo: Atheneu, 2001.

5-    Vieira G et al. Mastite lactacional e a iniciativa Hospital Amigo da Criança, Feira de Santana, Bahia, Brasil. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 22(6):1193-1200, jun, 2006.

6-    Neme B. Obstetricia Básica. Segunda edição. São Paulo. Sarvier,2000.

7-    Scott-Conner CEH, Schorr SJ. The diagnosis and management of breast problems during pregnancy and lactation. Am J Surg 1995; 170: 401-05.

8-    Gibberd GF. Sporadic and epidemic puerperal breast infections: a contrast in morbid anatomy and clinical signs. Am J Obstet Gynecol 1953; 65(5):1038-041.

9-    Costa MM, Rocha ACP. Processos inflamatórios da mama. In: Tratado de Ginecologia – Febrasgo. Vol II. Editores Hildoberto Carneiro de Oliveira, Ivan Lamgruber, Osmar Teixeira Costa. Revinter Livraria e Editora. 2000; 1066-074.

10-    Livingstone V; Stringer LJ. The treatment of Staphyloccocus aureus infected sore nipples: a randomized comparative study. J Hum Lact 15(3):241-6, 1999.

11-    Amir, LH; Pakula, S. Nipple pain mastalgia and candidiasis in the lactating breast. Aust NZ J Obstet Gynaecol 31:378-380, 1991.

12-    Pryor KW. A arte de amamentar. São Paulo. Summus, 1981.

13-    Carvalho MR. Amamentação: bases cientificas. Terceira edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010.

14-    SMELTZER, S.C.; BARE, B.G. Brunner & Suddarth, Tratado de Enfermagem médico cirúrgico. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan 1998.

15-    SHIMO, A.K.K.; VINHA, V.H.P.; FERREIRA, D.L.B. Mama puerperal. Femina 1985; 159-160.

16-    Castro KF et al. Intercorrências mamárias relacionadas à lactação: estudo envolvendo puérperas de uma maternidade pública de João Pessoa, PB. O Mundo da Saúde, São Paulo: 2009;33(4):433-439.

17-    Araujo OD. Aleitamento materno: fatores que levam ao desmame precoce. Rev Bras Enferm, Brasília 2008 jul-ago; 61(4): 488-92.

18-    Lana APB. Leite materno: como mantê-lo sempre abundante. Segunda edição. São Paulo. Atheneu, 2008.

 

 

Walesca Viana Ribeiro é ginecologista obstetra, foi aluna de diversos cursos da ONG Amigas do Parto e produziu esse trabalho como conclusão de curso em Aleitamento Materno.

Cruzeiro do Sul (AC) 2011

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