PROBLEMAS ENCONTRADOS NA AMAMENTAÇÃO E SEU MANEJO (Ingurgitamento Mamário, Fissuras Mamilares, Mastite, Abcesso Mamário e Galactocele)

 

 

 

 

 

Introdução

 

 

 

            Nos dias atuais, já temos bastantes informações e pesquisas científicas que comprovam os diversos benefícios da prática do aleitamento materno, tanto para a mãe, quanto para o bebê.

 

            Segundo o Ministério da Saúde (2009), a recomendação é que toda criança tenha seis meses de aleitamento materno exclusivo e, do sexto mês até pelo menos dois anos de idade, amamentação com alimentação complementar.

 

            Para a mãe, os benefícios são a menor quantidade de sangramento no período pós-parto devido à melhor involução uterina, maior espaçamento entre as gestações, retorno ao peso pré-gestacional mais rapidamente e menores chances de câncer de mama, câncer de ovário e fraturas ósseas por osteoporose (REA, 2004).

 

            Para o bebê, além de ser o alimento mais completo, a amamentação também evita mortes infantis, diarréia, infecções respiratórias, diminui o risco de alergias, hipertensão, colesterol alto, diabetes e obesidade, melhora no desenvolvimento cognitivo, da cavidade bucal, promove o vínculo afetivo entre a mãe e o filho e é de baixo custo financeiro (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009).

 

            Apesar de existirem essas informações dos benefícios do aleitamento materno, ainda existem muitas mulheres que acabam desmamando seus filhos precocemente.

 

Ao analisar os motivos do desmame precoce devemos lembrar que podem estar envolvidos fatores biológicos, psicológicos e sócio-culturais (ARAÚJO, O.D., et. al.).

 

Por este motivo, é possível perceber que existe uma grande necessidade de se ter profissionais capacitados para orientar as mulheres que amamentam para que, assim, possamos obter a prevenção de problemas com a amamentação e realizar o manejo das possíveis complicações diminuindo a prevalência do desmame precoce.

 

Com isso, serão apresentadas quatro tipos de complicações dos aspectos biológicos na amamentação e seu manejo, sendo elas o ingurgitamento mamário, mastite puerperal, fissuras mamilares, abcesso mamário e a galactocele.

 

 

Ingurgitamento Mamário

 

 

 

O ingurgitamento mamário pode ocorrer por conta de um acúmulo de leite nas mamas, levando à uma congestão, aumento da vascularização e um edema local causado pela obstrução da drenagem linfática (CONDE, V. S., 2005).

 

Podemos encontrar dois diferentes tipos de ingurgitamentos: o fisiológico e o patológico. O fisiológico ocorre somente devido ao processo de descida do leite e não há necessidade de intervenção. Já no patológico, há uma grande distensão tecidual podendo ocasionar desconforto para a puérpera, febre, mal estar, mamas aumentadas e doloridas, podendo encontrar-se com áreas avermelhadas, brilhantes e edemaciadas. Além disso, os mamilos podem apresentar-se achatados, o que dificulta a pega do bebê. Em alguns casos o leite pode não fluir com facilidade (SOUZA, M. J. N., et. al.).

 

Segundo CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M. (2010), também pode ocorrer o ingurgitamento secundário causado pelo FIL (inibidor de feedback da lactação), existente no leite materno, que irá suprimir em nível local a produção suplementar de leite quando ocorre a distensão dos alvéolos e, consequentemente, o acúmulo dessa substância, como no caso do ingurgitamento mamário.

 

É muito importante que se realize as ações necessárias para a melhora das condições do ingurgitamento para evitar que possa ocorrer uma piora do quadro, trazendo maiores complicações.

 

Para a prevenção é recomendável que se inicie a amamentação o mais cedo possível, evitar o uso de suplementos, ter amamentação em livre demanda e certificar-se de que a técnica está correta (GIUGLIANI, E. R. J., 2004).

 

Quanto à técnica para o manejo devemos recomendar o aleitamento em livre demanda, fazer massagens nas mamas, ordenhar um pouco de leite antes da mamada quando a aréola estiver tensa, fazer compressas frias entre as mamadas por cerca de 15 minutos com intervalos de 2 horas e ordenhar manualmente ou com bomba caso o bebê não esteja mamando (NOGUEIRA, A. T., et. al., 2011).

 

Segundo CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M. (2010), o uso das compressas frias com o intuito da diminuição da vascularização e o uso de compressas quentes para facilitar a saída do leite são estratégias que não tem comprovação científica categórica de suas vantagens, mas é bem aceita pelos profissionais de saúde.

 

 

 

Fissuras Mamilares

 

 

 

A dor nos mamilos é uma queixa muito comum das mulheres que amamentam, principalmente no início do período pós-parto.

 

Quando se trata somente de um desconforto ou uma dor leve na primeira semana de pós-parto, pode-se considerar normal. Porém, quando falamos de uma dor mais intensa, com algum tipo de trauma, já não é mais um quadro normal (GIUGLIANI, E. R. J., 2004).

 

Com isso, devemos sempre fazer uma boa avaliação através dos dados apresentados pela puérpera e pelo exame físico e, desta maneira, fazer as intervenções necessárias.

 

Podemos diferenciar as rachaduras e as fissuras, pois rachaduras são fendas que atingem somente a epiderme do mamilo e, fissuras, são quando estas lesões atingem até derme. Elas são ocasionadas devido à sucção feita na região dos mamilos e não na região areolar. Isso ocorre por conta da pega incorreta do bebê na hora de mamar (CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M., 2010).

 

Apesar de ser um problema muito comum de ser encontrado nas puérperas, as rachaduras e fissuras podem ser evitadas através de uma boa orientação no pré-natal e no pós-parto.

 

Essas orientações para a prevenção desses traumas devem ser para que a mulher mantenha a amamentação com a técnica correta, em livre demanda para que o bebê esteja com menos fome ao mamar e não sugue com tanta força e, se for necessário interromper a mamada, deve-se colocar o dedo mínimo ou indicador na boca do bebê para que ele largue o peito. Além disso, também se orienta para que sempre mantenha as mamas secas e que não faça uso de sabonetes, pomadas e outros produtos secantes nos mamilos (NOGUEIRA, A. T., et. al., 2011).

 

Já para o tratamento das fissuras mamilares, deve-se antes de iniciar a mamada ordenhar um pouco de leite para que haja estímulo do reflexo de ejeção do leite, começar a mamada sempre pela mama que estiver menos afetada, alternar as posições durante a amamentação para uma menos dolorosa, fazer uso de analgésicos caso seja necessário e evitar a fricção dos mamilos com a roupa (GIUGLIANI, E. R. J., 2004).

 

Além dessas medidas, segundo CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M., (2010), também é possível passar um pouco de leite materno nos mamilos e na aréola após as mamadas e deixar secar, e não se deve lavar esta região antes e depois das mamadas para não tirar os fatores de proteção que existem na epiderme.

 

 

 

Mastite

 

 

 

A mastite é definida como um processo inflamatório nas mamas ou apenas em uma delas, apresentando ou não infecção. Ela é causada pela grande quantidade de leite e uma pressão no interior dos alvéolos, levando ao extravasamento de substâncias do leite pelas paredes celulares rotas para o tecido conjuntivo, causando a inflamação local (CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M., 2010).

 

Muitos estudos mostram que as fissuras mamilares podem ser a porta de entrada para os microorganismos e, desta maneira, se estabelecer um processo infeccioso na mastite. Com isso, podemos notar a importância de tratar as fissuras mamilares, não só para a melhora delas em si, mas também para evitar que uma infecção se estabeleça.

 

            Um estudo apontou diversos fatores predisponentes para a mastite puerperal e são eles a idade da mulher, estresse, fadiga, primiparidade, quando a mulher trabalha for a de casa, o nível de escolaridade, ingurgitamento mamário, má pega, fissuras mamilares e traumas mamilares (VIEIRA, G. O., et. al., 2006).

 

            Segundo CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M. (2010), a mastite ocorre devido à interrupção do fluxo de leite, que pode ocorrer devido à restrição da alimentação do bebê, ao mau posicionamento durante a amamentação e a alguma obstrução da passagem do leite. Por este motivo, é importante se atentar aos sutiãs apertados evitando assim o bloqueio dos ductos.

 

            Os sintomas encontrados na mastite são vermelhidão, edema, dor, podendo ocorrer também aumento do pulso, aumento da temperatura, calafrios, mal-estar e rigidez (CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M., 2010).

 

            Para o tratamento da mastite puerperal, deve-se fazer uso de antibióticoterapia para conter as infecções, quando estas estiverem presentes, realizar o esvaziamento das mamas no final das mamadas se houver necessidade, repouso da nutriz, fazer uso de analgésicos e antiinflamatórios e beber bastante líquidos (CORAZZA, D., et. al., 2008).

 

            Nos casos de mastite não há necessidade de interrupção da amamentação, mesmo que seja na mama afetada. Deve-se sempre ficar atenta se está havendo melhoras após o uso das medidas de tratamento, pois este quadro pode evoluir para um abcesso mamário.

 

 

 

Abcesso Mamário

 

 

 

            Geralmente o abcesso mamário ocorre devido ao não tratamento ou tratamento ineficaz da mastite. Cerca de 5 à 10% das mulheres que apresentam mastite irão desenvolver o abcesso mamário. Para a confirmação da presença desta complicação é necessário fazer uma avaliação pelo exame físico, que nem sempre irá identificar, ou através da ultrassonografia. No exame físico, ele é sentido como uma flutuação (GIUGLIANI, E. R. J., 2004).

 

            Como método de prevenção, devem se ter os mesmos cuidados para a prevenção da mastite e também incluir o tratamento adequado da mesma (GIUGLIANI, E. R. J., 2004).

 

Para o tratamento, é indicado que se faça a drenagem cirúrgica e também é necessário interromper a amamentação temporariamente (NOGUEIRA, A. T., et. al., 2011).

 

 

 

Galactocele

 

 

 

            A galactocele é uma complicação pouco frequente. Ela ocorre devido a uma obstrução dos canalículos mamários e, consequentemente, irá ocorrer um represamento do leite nesta região (CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M., 2010).

 

            Ela pode ser percebida como uma massa lisa e redonda nas mamas. Além disso, seu diagnóstico pode ser feito através da ultrassonografia e da aspiração (GIUGLIANI, E. R. J., 2004).

 

            É possível que o local esteja dolorido, mesmo sendo comum não encontrar características inflamatórias. Para o tratamento, é recomendado que se aplique calor local e faça a expressão desta tumoração no sentido das papilas mamarias. Além disso, caso seja um caso mais grave, há a necessidade de punção desta área com alguma agulha de grosso calibre pois o líquido contido neste cisto pode ser denso e viscoso (CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M., 2010).

 

 

 

Conclusão

 

 

 

            Com todos os dados e as pesquisas já publicadas atualmente, podemos perceber a grande importância e os benefícios do aleitamento materno tanto para a saúde da mãe, como para a saúde do bebê.

 

            Apesar disso, percebemos que diversas mulheres deixam de amamentar seus filhos antes do tempo recomendado por diversos problemas que podem ocorrer durante a amamentação. Muitas vezes, por conta da falta de informação da população e das crenças, mitos e tabus existentes em nossa sociedade, essas pessoas acabam acreditando que o desmame precoce tenha ocorrido por algum fator que na verdade pode não ser a real causa do desmame.

 

            Mesmo havendo a possibilidade de ocorrer esses problemas na lactação, existem diversas formas para a sua prevenção e também o seu tratamento.

 

            Por este motivo, é possível perceber a importância da presença de profissionais capacitados e atualizados para que a população possa ter acesso à essas informações, para que eles possam dar orientações e o apoio necessário para que o aleitamento materno se estabeleça com sucesso.

 

 

 

Bibliografia

 

 

 

·     TANESE NOGUEIRA, A., et. al. Mamãe, eu quero mamar. 1 ed. São Paulo: Biblioteca24horas, 2011.

 

·         CARVALHO, M. R., TAVARES, L. A. M. Amamentação. Bases Científicas. 3 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2010.

 

·         REA, M. F. Os benefícios da amamentação para a saúde da mulher. Jornal de Pedriatria. Porto Alegre, vol. 80, n. 5, 2004.

 

·         Ministério da Saúde. Saúde da criança: Nutrição infantil. Aleitamento materno e nutrição complementar. Brasília: Ministério da Saúde, 2009.

 

·         ARAÚJO, O. D., et. al. Aleitamento materno: fatores que levam ao desmame precoce. Revista Brasileira de Enfermagem. Brasília, vol. 61, n. 4, 2008.

 

·         CORAZZA, D., et. al. Assistência de enfermagem à mastite puerperal. Revista Brasileira de Ciências da Saúde.  São Caetano do Sul, ano VI, n. 16, 2008.

 

·         CONDE, V. S. Fatores de risco para o desmame precoce: proposta para intervenções de enfermagem. Revista de Enfermagem UNISA. São Paulo, vol. 6, 2005.

 

·         SOUZA, M. J. N., et. al. A importância da orientação à gestante sobre amamentação: fator para diminuição dos processos dolorosos mamarios. ConsScientiae Saúde. Brasil, vol. 8, n. 2, 2009.

 

·         VIEIRA, G. O., et. al. Mastite lactacional e a iniciativa hospital amigo da criança. Feira de Santana, Bahia, Brasil. Caderno de Saúde Pública. Rio de Janeiro, vol. 22, n. 6, 2006.

 

·         GIUGLIANI, E. R. J. Problemas comuns na lacticão e seu manejo. Jornal de Pediatria. Rio de Janeiro, vol. 80, n. 5, 2004

 

 

 

Laís Guimarães do Couto Rocha, Obstetriz e Conselheira em Aleitamento Materno. E-mail: lais_rocha@hotmail.com

 

 

 

 

 

 

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