UM ANO E AINDA MAMA? SIM!

March 21, 2019

Amamentar depois do primeiro ano de vida do bebé é ainda visto como algo estranho e, muitas vezes, alvo de comentários negativos. Mas não faltam provas de que é o mais saudável para a criança e até para a mãe.

 

 

Carla, mãe do Pedro, de 13 meses, teve de ultrapassar a resistência da entidade empregadora em aceitar a dispensa para amamentação. Nos recursos humanos da empresa «desconheciam que fosse possível prolongar a licença de amamentação e estranharam o facto de precisar de o fazer». Acabaram por conceder, desde que apresente um comprovativo médico mensal, conforme está descrito na lei. Mas, por parte da pediatra, Carla já foi avisada de que só deverá amamentar até o Pedro ter 15 meses.

 

 

Celina Teodoro, mãe do Daniel, de 22 meses, recorreu às urgências do centro de saúde devido a um problema de saúde e quando solicitou um antibiótico compatível com a amamentação, a médica ficou surpreendida: «Perguntou qual era a idade do meu filho – na altura tinha nove meses – e disse logo para lhe tirar a mama porque já não lhe estava a fazer nada. Sem me dar qualquer argumento válido. Ainda me disse que a mama ‘até aos seis meses é ouro, até ao ano é prata’. Só faltou dizer que depois do ano, mata».

 

 

Tânia Beato amamentou o filho Diogo até aos dois anos e dois meses e ainda amamenta a filha Diana, de dois anos. Continuou a gozar a dispensa de amamentação após o primeiro ano e deixou de ter direito a comissões e a prémios de produtividade, «porque as horas gozadas são consideradas absentismo». Apesar de o artigo 65º, da subsecção IV do Código de Trabalho dizer que a dispensa para amamentação «não determina a perda de quaisquer direitos e é considerada como prestação efetiva de trabalho».

 

 

Maria Silva (nome fictício), mãe da Joana, de dois anos e meio, cansou-se de tanta sugestão para deixar de dar de mamar. Já lhe “receitaram” pôr verniz, pimenta e vinagre como fórmula para o desmame, apesar de Maria nunca ter perguntado nada a ninguém. Desde a enfermeira do centro de saúde, à médica de família, passando por amigos e familiares, em todo o lado sentiu-se recriminada por ainda dar de mamar. De tal forma, que ganhou vergonha e, quando a filha fez 18 meses, decidiu dizer a toda a gente que tinha deixado de amamentar.

 

 

Estes são apenas alguns testemunhos das dezenas que nos chegaram após o apelo que fizemos através do Mamar ao Peito, site de promoção do aleitamento materno. Queríamos saber se as mães sentiam algum tipo de recriminação por darem de mamar após os filhos fazerem um ano de vida. Ficámos impressionadas com a quantidade e com as situações descritas.

 

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Unicef recomendam a amamentação exclusiva até aos seis meses do bebé e, como complemento, até aos dois anos de idade ou mais. A recomendação é de  2001, mas chegou a Portugal apenas em 2005, altura em que foi criado o Comité Nacional para o Aleitamento Materno, explica Adriana Pereira, investigadora em aleitamento materno e membro fundador do Comité. «Ainda que estas recomendações sejam emanadas dos organismos mundiais mais credíveis para o fazerem, a sua implementação não tem sido fácil», analisa a investigadora. As razões apontadas para esta dificuldade em prolongar a amamentação são muitas: «Dificuldade em conciliar a amamentação com outras atividades; a crença errónea e não fundamentada de que o aleitamento materno para além do primeiro ano de vida prejudica a criança do ponto de vista psicológico e, sobretudo, devido à carga negativa e à pressão social exercida pelos amigos, marido, familiares, profissionais de saúde e, até, por pessoas quem nem conhecem». Além dos comentários pouco simpáticos de amigos e familiares - «o quê ainda mama?»; «vai mamar até ir para a tropa, não?»; «isso já é só vício!» - muitas mães são ainda confrontadas com a falta de informação ou com as palavras desagradáveis dos profissionais de saúde, como se viu pelos testemunhos acima.

 

 

Nem os médicos, nem os enfermeiros têm, durante os seus cursos, formação em aleitamento materno, o que faz com que, muitas vezes, transmitam informação errada às mulheres. Embora, aos interessados, não faltem oportunidades para estudarem o tema. Mónica Pina, médica especialista em medicina interna num hospital público, fez a formação de Conselheira de Amamentação da OMS/Unicef e dá consultas de Aleitamento Materno numa clínica privada. Que saiba é a única médica a fazê-lo. Diz que o mais importante – «e isso aprende-se nos cursos de formação em aleitamento materno» – é a comunicação com as mães. «A cultura do biberão está tão presente que as mães precisam muito de confiança. A maneira como se fala com elas é muito importante. Só o termo amamentação prolongada, que se usa para a amamentação depois do primeiro ano do bebé, acaba por ser um termo de julgamento. É um termo qualitativo e não quantitativo».

 

 

Para vencer tanta pressão contra o aleitamento materno, «o mais importante é as mães sentirem-se confiantes e estarem bem informadas». Em relação aos médicos, Mónica Pina explica que «também  muito frequentemente têm uma história pessoal de amamentação que foi  pobre, às vezes inexistente, e, como muita gente, partilham dos mitos da nossa sociedade». Esta justificação não é uma forma de desculpar os clínicos, mas antes uma tentativa de reforçar a confiança das mães. «Se a mulher estiver convicta do que quer, não vai ser seguramente o comentário do médico ou do enfermeiro que a vai desmotivar.» Em situações de insegurança, medo ou doença, a médica recomenda procurar apoio especializado com conselheiras de amamentação.

 

Redes de apoio precisam-se

 

 

Em Portugal, os últimos dados revelam que apenas 13 a 15 por cento das mães amamentam os seus filhos depois do primeiro ano. Para aumentar estes números, Mónica Pina refere um estudo que sugere que a amamentação depois dos seis meses do bebé depende muito do apoio de mãe para mãe. «Se cada vez mais as mães amamentarem mais tempo e passarem essa experiência a outras forma-se uma cultura de aleitamento materno.»

 

 

Patrícia Paiva e Bárbara Correia assumiram essa missão no site Mamar ao Peito (www.mamaraopeito.com). Conselheiras em Aleitamento Materno pela OMS/Unicef, começaram por colocar informação sobre amamentação num fórum da internet, ao mesmo tempo que respondiam às dúvidas de outras mães. Criou-se uma rede de apoio de dimensão tal, que resolveram desenvolver um site, onde fazem a ponte entre as mães que  precisam de ajuda e entidades que as possam ajudar (SOS Amamentação,  CITE, pediatras que defendem a amamentação, grupos de mães, etc..). «O objectivo é agregar o máximo de informação sobre amamentação, mas também alargar a base de dados de grupos de apoio, para que as mulheres de qualquer ponto do país não deixem de amamentar por falta de ajuda», explica Bárbara Correia.

 

 

Além dos conhecimentos aprendidos na formação, Bárbara e Patrícia ajudam as outras mães também através das suas experiências. Bárbara amamentou o seu filho mais velho, Rodrigo, até aos 30 meses, a meio da segunda gravidez. A Rita, filha mais nova, com sete meses, ainda mama. «Dar mama nunca me impediu de fazer fosse o que fosse. Para mim, até é libertador. Nunca precisei de andar carregada com biberões. Se vamos sair e, por algum motivo, nos atrasamos e eles começam a ficar com fome, não tenho de me preocupar, a mama está sempre à disposição. É muito mais fácil», conta. Nunca se sentiu inibida por dar de mamar em público. Recebeu alguns olhas de estranheza, mas também muitos sorrisos de aprovação e cumplicidade.

 

 

Patrícia também vê a amamentação como um privilégio e ainda dá mama ao filho Gonçalo, de três anos e meio: «Noto que, quando fica doente, recupera muito mais depressa. Nessas situações, recusa outros alimentos, mas nunca recusa a mama, por isso acaba por não se ir tão abaixo». Há pouco tempo deixou de dar de mamar em público, farta de comentários e olhares de desaprovação. Em casa, à noite, há sempre um momento reservado para a amamentação, que é só dos dois.

 

 

Essa oportunidade de mãe e filho terem uma pausa exclusiva, um momento de amor só deles, é também uma das vantagens de prolongar a amamentação, defende Mónica Pina: «Dar de mamar é um momento de reconexão entre mãe e filho. É uma ligação maior que um abraço. Para  dar um passo em frente, a criança precisa de regredir um bocadinho. Dar de mamar é também uma forma de a mãe lhe dizer: ainda és o meu bebé, por isso podes crescer». Para a médica, o ideal é que a amamentação dure «enquanto mãe e filho se sentirem bem».

 

 

 

Até quando dar de mamar?

 

 

Não se sabe com exatidão qual é a idade biologicamente normal para o desmame. Carlos González, pediatra espanhol e grande defensor da amamentação, escreve no livro Manual Prático do Aleitamento Materno que «os dados precedentes de distintas culturas humanas, da comparação com outros primatas e de mães que esperam pelo desmame espontâneo dos filhos apontam para que a duração normal da amamentação seja provavelmente entre os dois anos e meio e os sete anos».

 

 

Adriana Pereira lembra os registos históricos deixados por grandes civilizações antigas: «Na Mesopotâmia, 2000 a.C., as mulheres amamentavam até aos dois anos ou mais, acontecendo o mesmo na Índia e no Islão. Os Greco-Romanos também amamentavam os filhos até aos dois, três anos e os hebreus até aos três anos». A investigadora sublinha ainda que «grandes pensadores e filósofos deixaram recomendações escritas sobre o período em que o aleitamento materno era recomendado, e essa recomendação era até que a criança fosse independente». No século passado, «a idade média do desmame natural ocorria entre os 18 meses e os três anos». Adriana Pereira lembra ainda a existência de quadros antigos religiosos retratando mulheres a amamentarem crianças mais velhas, como se isso fosse um acontecimento normal

 

 

Um dos obstáculos à amamentação prolongada, sugerem todas as entrevistadas deste texto, é precisamente a falta de hábito de ver crianças mais crescidas a mamar. «Por cada vez que não se amamenta em público está-se a perder uma oportunidade de mostrar que é uma coisa normal e natural», diz Patrícia Paiva. «Mesmo nos filmes a amamentação aparece sempre em situações cómicas e raramente como algo natural. Além disso, fala-se pouco sobre amamentação. Muitas pessoas nem sabem se mamaram ou até quando mamaram», acrescenta.

 

 

Foi também por isso que fizemos questão de ilustrar este texto com várias fotografias de mães a darem de mamar aos seus filhos maiores de um ano. Esperando que a imagem de uma criança que anda, fala e come de tudo, a amamentar passe a ser vista como uma coisa normal. Porque é isso mesmo que é.

 

Mitos sobre amamentação após um ano

 

Já não tem benefícios nutricionais para a criança

 

Segundo um estudo do departamento de nutrição da Universidade da Califórnia, realizado em Fevereiro de 2001, 448 ml de leite materno, no segundo ano de vida, providencia: 29% da necessidade diária de energia; 43% da quantidade de proteínas necessárias; 36% do cálcio necessário; 75% das vitaminas necessárias; 76% do folato necessário; 94% da vitamina B12 necessária; 60% da vitamina C necessária.

 

 

 

Torna-se mais difícil fazer o desmame

 

O desmame faz parte do desenvolvimento da criança, tal como sentar, andar, correr. Assim como nenhuma criança começa a andar antes de ter maturidade para tal, nenhuma criança deveria ser desmamada antes de atingir essa maturidade. Não é a idade que conta, mas sim a evolução da própria criança.

 

 

 

A criança fica mais dependente da mãe

 

Deixar de mamar, provavelmente, não vai mudar a personalidade da criança. Por isso, tirar-lhe a mama não a fará mais independente. Pelo contrário, o desmame forçado pode gerar insegurança na criança, o que dificulta o processo de independência.

 

 

 

A mama torna-se um vício

 

Não é um vício, é uma necessidade. Mesmo depois de completar um ano de vida, a criança continua a ter o reflexo da sucção e a precisar de se sentir segura e aconchegada. A mama da mãe, além de outros benefícios, dá-lhe tudo isso.

 

Fonte: Adriana Pereira, investigadora em aleitamento materno.

 

 

 

Segunda, 26 Dezembro 2011 | Visto - 117  

Fonte: http://www.paisefilhos.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=4321&Itemid=60

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Featured Posts

ONDE ESTÁ?

July 6, 2017

1/1
Please reload

Recent Posts

April 20, 2020

December 2, 2019

Please reload

Archive
Please reload

Search By Tags